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DEFUNTO
(Elucubrando...): Se o derrame não tivesse
alterado a minha fala e o tom do meu discurso,
gostaria de dizer-lhes que não morri
integralmente, apenas meu mecanismo orgânico e
civil parou de funcionar por falta de
oxigenação. Mas a ciência convencional ainda não
chegou à interatividade entre vivos e mortos. E
tardará a descobrir que Deus ficou em dúvida
sobre a nossa principal matéria-prima orgânica
ser o carbono ou o silício, pois este é muito
mais abundante no Cosmo, embora pese três vezes
mais que o carbono. Tanta erudição, tanto
conhecimento científico nada valem agora.
MARK TWAIN (Vulto falando, ou sabe-se
lá...): “É melhor merecer honrarias e não
recebê-las do que recebê-las sem merecer.”.
LAO TSÉ (Vulto falando, ou sabe-se lá...): “Para
ganhar conhecimento, adiciona coisas todos os
dias. Para ganhar sabedoria elimina coisas todos
os dias.”.
DEFUNTO (Elucubrando...):
Constato que, do ponto de vista dos vivos acho
que morri mesmo! Vejo tudo agora muito claro,
porém não consigo entender a mesmice do cenário.
Essa coisa, essa força, alma, espírito, isso que
está saindo do meu corpo bem que poderia
dispensar o Purgatório de plástico made in China
e ir para onde todo mundo está indo, afinal de
contas, apesar do dólar caríssimo, Miami, o
paraíso das compras, é logo ali! Por que tenho
de continuar nesta merda?
BERTOLD BRECHT
(Vulto falando ou sabe-se lá...): Faz parte da
tua expiação. Serás enterrado nesse teatro de
economia emergente e sociedade decadente! Onde
elites corporativas protagonizam a bel-prazer,
classes médias nascem figurantes e morrem na
coreografia, nem chegam a antagonistas. Os
sem-terra, sem-ofício, sem-letras, sem-emprego,
sem-saúde, sem-transporte, sem-rodovias, sem
ferrovias, sem-energia elétrica, sem-teto e
sem-lazer lamuriam no Coro esperando uma deixa
que nunca virá!
DEFUNTO (Elucubrando...):
Quantos figurões mortos e que agora são
imortais! Ter sido dramaturgo no cenário
brasileiro me condenaria, no máximo, a uma
hibernação tipo processo judicial sob recursos e
embargos sem fim. Exagero da mãe-natureza dar-me
essa espécie de sobrevida para perceber várias
dimensões, e ouvir tanto aos vivos quanto aos
mortos. Seria melhor que o Criador de todas as
coisas me castigasse com um tipo de inverno
polar e, depois, me despertasse com a revolução
da primavera na Toscana!
BERTOLD BRECHT
(Vulto falando ou sabe-se lá...): Revoluções têm muito a
ver com crisálidas. Suas forças vivas permanecem
latentes o tempo certo, porém, uma vez
deflagrada a fase da paixão transformista,
jamais retornam ao invólucro das aparências.
DEFUNTO (Elucubrando, ou sabe-se lá...):
“Sou péssimo em metáforas, explica isso aí
colega dramaturgo...
BERTOLD BRECHT
(Vulto falando ou...): Algo terrível
ainda acontecerá no teu país, pois, sob impávido
patrimonialismo de um lado e colossal
aparelhamento político de baixo ladrão, digo, de
baixo calão de outro, a ordem dos podres, digo,
poderes dominantes, é eternizar o atraso,
paralisar ou destruir a ineficiente
infraestrutura, sufocar a evolução
institucional, aniquilar de vez os suportes
sociais e falir o Estado financeiro e econômico!
DEFUNTO (Elucubrando): Defuntos deviam ser
apolíticos, não importa se vige no país
palavrório de remendos em que transformaram a
Constituição, ou império de favores, ou sodomia
política entre parlamentares, empreiteiros e
doleiros. Tampouco se a autoridade constituída,
para revigorar-se de barganhas abomináveis com
empreiteiros e mandachuvas de dezenas de
partidos políticos, precise fazer cirurgia
plástica para mudar de fisionomia, ou tratamento
para reimplante de cabelos!
LA
ROCHEFOUCAULD: (Vulto falando ou...): Não vale o
que está escrito.
CONTRAVENTORES DO JOGO
DO BICHO (Vulto falando ou sabe-se lá...): “Só
vale o escrito”.
EVARISTO DA VEIGA (Vulto
declamando, ou sabe-se lá...): ”Já raiou a
liberdade no horizonte do Brasil...”.
OSÓRIO DUQUE ESTRADA (Vulto cantando, ou sabe-se
lá...): “Brasil, um sonho intenso, um raio
vívido...”.
DEFUNTO (Elucubrando):
Ouvindo esses vultos dizendo ou recitando tais
ideias, melhor mesmo é me entregar aos sonhos de
morto.
CAPISTRANO: (Vulto falando, ou
sabe-se lá...): A última divisão da terra que
impactou a História do Brasil data de 7 de junho
de 1494 em Tordesilhas. Ainda vigem, nesse
colosso, capitanias hereditárias e sesmarias dos
tempos coloniais, agora sob outros disfarces e
fantasias promovidas a coronelias, ou a modernas
donatarias, procuradorias ou regedorias,
provenientes do tráfico de influências,
cartorialismo, fisiologismo político ou da
bandidocracia sindical instalada, feudalismos
modernos da ribalta nacional!
MONTEIRO
LOBATO: (Vulto falando, ou sabe-se lá...):
Dinástica tirania das elites proprietárias, em
conluio com a politicalha no poder, refrata a
noção elementar de que a riqueza social começa
pela distribuição da terra, mas miopia histórica
turva o horizonte dos teus governantes!
HERÓDOTO: (Vulto falando, ou sabe-se lá...): Os
políticos do teu país teimam em renegar a
História. Não atinam com os registros de
Plutarco sobre a Atenas de 594 a.C. e o bom
senso de Sólon que abortou a revolução. Nem com
o exemplo dos irmãos Gracco na antiga Roma. Não
aprenderam com os ingleses a forma de enriquecer
a sociedade como um todo pela simples imposição
de taxar as propriedades dos nobres obrigando-os
a dividi-las. Nem assimilaram dos
norte-americanos princípios básicos de
prosperidade geral: distribuir a terra, fazê-la
produzir, nela permanecer, depois enriquecer.
DEFUNTO (Elucubrando): Dante me aconselhou a
não contestar os grandes vultos. Nem é preciso!
São irretocáveis! A situação fundiária no país
permanece feudal. Só grandes senhores,
usineiros, políticos, empreiteiros, reizinhos
desse ou daquele cereal, desse ou daquele
mineral, dessa ou daquela concessão pública
conseguem ingressos para o teatro da terra.
Peões, aldeões, retirantes, boias-frias,
usucapiões, posseiros, legítimos agricultores
socializam a peja de penetras, invasores,
desordeiros e comunistas. Há algo que
acrescentar?
Somente defuntos percebem essas
comunidades penumbrosas? Ninguém vê o inchaço
das massas migratórias urbano-marginais
fermentadas pela sociedade elitista dos
políticos? Milhões de desempregados fingindo
viver? Pois bem, antevejo tornados sociais
partindo das favelas urbanas para o campo e
vice-versa. Remoinhos de desordem geral. Ônibus
incendiados, caixas eletrônicos de bancos
explodindo, assaltos e mais assaltos por minuto.
E, pior, os justiçamentos emergindo da memória
da terra, com excluídos rezando litanias
passíveis de violentas mutações num teatro
excepcional. Todos sabem que incontáveis
reformas agrárias, educacionais,
previdenciárias, tributárias, institucionais,
penais e o escambau foram realizadas em
palanques, discursos, ministérios, corredores,
gabinetes, elevadores, projetos, pranchetas,
disquetes, CDs, DVDs, Softwares, chips, Pen
Drivers, aplicativos virtuais ou Plataformas
logarítmicas. Algumas daquelas reformas pululam
em gavetas, armários, dossiês, arquivos,
enquanto outras já foram devoradas por cupins,
vermes, ratos, “laranjas” ou “tubarões” de
vários preços e tamanhos. Outras mais encalharam
para sempre nos regimentos internos das
comissões encarregadas dos projetos no
Congresso.
MOZART (Vulto falando, ou
sabe-se lá...): “Se existe alguém aqui a quem
não insultei, peço-lhe perdão.”
Extraído do livro "HISTÓRIAS TIPO ASSIM:
WHATS-au-au-APP", selo IMPRIMATUR, Ed.
7Letras.
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