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16/05/2026
Ano 29 - Nº 1.507

ARQUIVO
CARLOS TRIGUEIRO

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Houve um tempo, na década de 1970, em que morei no bairro do Leme,
extremo copacabanense mais sossegado, meio bucólico se comparado ao
frenesi diuturno da borbulhante Copacabana. No bairro, moravam artistas
de TV (lembro-me de juradas e jurados que apareciam no Programa do
Chacrinha), pessoal de teatro, cantores, músicos, banqueiros, bancários,
militares, jornalistas, funcionários públicos graduados, alguns
intelectuais (um amigo editor até entrevistou a Clarice Lispector quando
moradora da Rua Gustavo Sampaio) e, claro, a galera do dia a dia.
Praticamente, naquele minibairro dentro do cosmopolitismo de
Copacabana, todo mundo se encontrava em bancas de jornal, padaria,
sapateiros, quitandas, botecos, choperias, pizzarias, pequenos
restaurantes e mercadinhos esmirrados. Os católicos se viam nas missas
ou novenas da Paróquia de Nossa Senhora do Rosário, à rua General
Ribeiro da Costa. Naquele tempo, já era pra lá de difícil achar uma vaga
para estacionar, pois as construções do bairro, em maioria, eram bem
antigas e não tinham garagem. Muitas vezes deixei o meu Fusca nos
beirais da Avenida Atlântica.
De vez em quando encontrava, na
praia, um vizinho do prédio onde eu morava – “Sinésio” de tal, senhor de
meia-idade como se dizia naquele tempo, sempre de barba feita, cabelos
agrisalhando, muito educado e de olhos azuis afiados em tudo ao redor –
era assim que eu o definia. Ele fazia questão de cumprimentar, no mínimo
com meneio de cabeça, piscar de olho, ou discreto aceno de mão, a todos
que encontrava rumo ao banho de mar.
O pessoal frequentador da
praia cochichava que ele seria informante do SNI, e que “Sinésio”
deveria ser um codinome, pois nele cabiam discretamente as letras “S, N
e I”. Eu achava aquilo mirabolante. Aliás, na época (e mais adiante),
colaborei esporadicamente com artigos chegados à sociologia e economia
política na página de Opinião do Jornal do Brasil. Mas nunca fui
importunado por agentes da ditadura. Os amigos diziam que eu assinava os
artigos protegido por meu sobrenome “Trigueiro” – pois, naquele tempo,
era ministro do Supremo Tribunal Federal, nomeado pelo Marechal Castelo
Branco, ninguém menos do que o jurista paraibano Osvaldo Trigueiro.
Às vezes, “Sinésio”, ao me ver, puxava assunto já no elevador do
prédio sobre a situação geral do Brasil, ou então, à beira-mar, sob o
sol escaldante na areia da praia. Ele sabia que eu estudara, na década
de 1960, na EBAP da Fundação Getúlio Vargas, à época em convênio com o
Plano Kennedy e a ONU numa cooperação para o desenvolvimento estratégico
do Brasil com suporte de profissionais universitários focados em
Administração Pública.
Na FGV, muitos professores eram
americanos ou brasileiros que haviam estudado em universidades
norte-americanas. Desse modo, nos bancos universitários da FGV/EBAP,
tive a extraordinária oportunidade de assistir aulas e palestras de
intelectuais notáveis, tipo... Alberto Guerreiro Ramos, Mário Henrique
Simonsen, João Pinheiro Neto, Kleber Tatinge Nascimento, Diogo Lordello
de Mello, Artur Cesar Ferreira Reis, Márcio Moreira Alves, Cândido
Mendes, Riva Bauzer, Fela Moscovici, e tantos outros.
“Sinésio”
sabia que eu trabalhava no Banco do Brasil – o que não era segredo
porque vários colegas do Banco moravam por ali e, obviamente, ao nos
encontrarmos acabávamos falando do BB e dos nossos serviços. Aliás, acho
que, por vaidade inerente aos jovens, eu mesmo lhe contara que fizera
uma pós-graduação em Disciplinas Bancárias na Universidade de Roma, por
interesse do Banco, e na condição de bolsista do governo italiano.
Apesar de simpático, o pessoal do bairro não arredava pé de
desconfiar que “Sinésio” era ligado ao governo militar, ou ao SNI, ou ao
DOI-CODI ou a outro órgão ditatorial. Na verdade, ele nunca deu mancada,
mas não escondia seu entusiasmo com os megaprojetos militares da época:
Ponte Rio-Niterói, Estrada Transamazônica, gigantescas Usinas
Hidroelétricas como a binacional Itaipu, a fábrica de aviões EMBRAER, os
túneis encurtando a autoestrada Lagoa/Barra no Rio de Janeiro, dentre
outros.
Fim de semana vai, fim de semana vem, tal como hoje, era
costume tomar um copo de mate gelado vendido por vendedores ambulantes
na orla. E “Sinésio”, o senhor educado e simpático de olhos azuis e
cabelos grisalhos, supostamente informante do SNI, não dispensava o
copinho de mate nos dias de praia.
Certo domingo ensolarado, na
altura da “Pizzeria Fiorentina”, “Sinésio” veio em direção a mim com o
seu copo de mate na mão e um canudinho entre dedos. Sem a cerimônia
habitual, mal me cumprimentou e emendou uma fala entusiástica sobre os
novos megaprojetos em curso pelo Governo Militar (nem sempre utilizo o
vocábulo “ditadura” em termos textuais porque me soa meio obsceno se
falado com veemência pausada tipo assim: “Dita-dura”).
Naquele
domingo, achei que ele queria me agradar não sei por qual motivo ou,
talvez, pelo que iria dizer em seguida, mais ou menos assim: “Você, meu
caro, que estudou na Fundação Getúlio Vargas, com aqueles professores
notáveis e cerebrais (sic) e, além disso, que fez pós-graduação na
Itália, um país que se reconstruiu rapidamente após a 2ª Guerra, não
acha que, com a seriedade dos militares que atualmente nos governam,
dentro de 50 anos o Brasil será um país tão desenvolvido quanto aqueles
que encabeçam a atual classificação da ONU?”.
Enquanto eu pensava
na resposta, ele deu uma longa sugada com o canudinho no copo de mate, e
ficou me aguardando olho no olho. Segundos depois eu respondi-lhe numa
boa: “Olha só, 50 anos não resolvem nada quanto ao gigantismo e
necessidades básicas do Brasil, e mesmo se houver muito investimento em
educação e em projetos de infraestrutura neste país continental,
somente, talvez, daqui a uns 500 anos...”.
Minha resposta quase
gerou tragédia, pois “Sinésio” ficou tão chocado com o meu frio
vaticínio que se engasgou feio com o mate, ficou muito vermelho, depois
arroxeado, e até perdeu a respiração, a ponto de eu e mais dois amigos
que rondavam ali perto o socorrermos batendo em suas costas
repetidamente, e com força, para desafogá-lo... Enfim, conseguimos que
ele se recobrasse do engasgo e respirasse... Claro que o assunto dos 50
anos morreu ali.
Semanas depois, por questões familiares, mudei
para a Rua Barata Ribeiro em Copacabana, passei a frequentar a praia na
altura do antigo e charmoso Cinema Rian, entre as Ruas Barão de Ipanema
e Constante Ramos. Nunca mais encontrei, ou mesmo vi de longe, o suposto
informante do S.N.I., “Sinésio” de tal.
Hoje, em 2016, ao
lembrar-me do episódio “Sinésio” fiz as contas dos 50 anos previstos por
ele em 1974: então, faltariam somente oito anos para o Brasil despontar
entre os países mais desenvolvidos do mundo segundo a classificação
oficial da ONU.
Infelizmente, meu vaticínio, na época, foi
coerente com a realidade histórica brasileira e também com o vislumbre
da degradação atual do País em 2016, em quaisquer níveis (moral, ético,
político, econômico, educacional, de saúde, saneamento básico,
transportes, rodovias, ferrovias, aeroportos, segurança pública, justiça
emperrada, penalidades vãs etc.), pois somente no ano 2474
encabeçaríamos a classificação da ONU entre os países mais
desenvolvidos. Ou seja, se tudo melhorar, ainda faltam 458.
Extraído do livro HISTÓRIAS TIPO ASSIM:
“WHATS-au-au-au-APP”.
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carlostrigueiro28@gmail.com
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Direção e
Editoria
Irene Serra

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