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16/06/2026
Ano 29 - Nº 1.511

ARQUIVO
CARLOS TRIGUEIRO

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Genésio Cravvo Pimenta chegou
à agência bancária nos conformes oficiais, obedecendo aos tempos,
regras, leis e costumes dos anos em voga, moda, onda, vieses, tipos,
plataformas e aplicativos da vez.
Pegou a senha de número
19.746.812.415 na máquina robotizada que o fotografou, deu-lhe “Bom
Dia!”, colheu a impressão digital do seu indicador da mão direita e
afiançou-lhe: “Que tenha um bom atendimento e até a próxima visita!”.
Em seguida, obedecendo ao pedido do robô, digo, da máquina, leu a
orientação na tela do visor integrado à parede principal do recinto, e,
cumpriu as instruções em pauta.
Despojou-se das roupas, dos
sapatos, da mochila, da marmita, da garrafa térmica, do cinto de
utilidades, dos óculos escuros, dos guardanapos de papel, do colírio, do
xarope, da embalagem com aspirina, do guarda-chuva portátil, das
tatuagens descartáveis, do relógio de pulso, do bloco de rascunho, do
chaveiro, do cordão com a medalha de São Jorge guerreiro, e..., da
carteira de identidade, da carteira de trabalho, da caneta esferográfica
metalizada, do celular já desligado, da cópia do CPF.
Despido, ou
melhor, em nu bíblico, guardou tudo no recipiente indicado pela senha
correspondente ao armário de número 19.476.812.415 e que só poderia ser
aberto por ele próprio, mediante nova senha a ser fornecida
exclusivamente pelo Caixa após a operação de pagamento que faria no
guichê.
Tal instrução piscava acintosamente no aviso luminoso
sobre teclado eletrônico na parte externa da portinhola do armário.
Genésio leu e releu o respectivo aviso: “Após fechar o armário, o
usuário da vez só poderá abri-lo se digitar neste teclado a senha
fornecida pelo Caixa após o atendimento.”.
Ultrapassou a porta
giratória, as câmeras de filmagem, os filtros magnéticos, os radares, as
antenas ultrassensíveis a cores, odores e maus pensamentos, os
microfones camuflados, além de dúzia e meia de seguranças fortemente
armados. Notou que o ar condicionado funcionava tipo à meia-força.
Segurou numa das mãos as duzentas pratas de que precisaria, e na
outra mão a mirabolante senha junto com a conta a pagar.
Viu a
fila de pessoas completamente nuas, sem distinção de sexo, desprovidas
de constrangimento, vergonha ou pudor, inclusive estavam descalças como
ele.
Por absoluta questão de segurança, conforme o rigor e temor
da época, Genésio, juntou-se ao final da respectiva fila, também em nu
bíblico, ou, melhor, vestido apenas com a cara de pau.
Enfim,
chegou a sua vez. Tudo tem seu tempo certo, não é o que dizem as
sagradas escrituras?
Conferiu a sua senha de onze dígitos agora
mostrada no visor próximo aos três guichês de caixas e, para não haver
possibilidade de erro, repetiu duas vezes no microfone próximo ao balcão
(conforme instruções lidas, relidas e sabidas) que ele, Genésio Cravvo
Pimenta era o único portador da senha 19.476.812.415.
Em seguida,
empertigou a cara de pau e foi ao guichê do Caixa que o examinou
friamente e com ar zombeteiro – foi o que lhe ocorreu, nem mais nem
menos, como se estivesse utilizando palavreado dos tempos machadianos –
repetiu o seu nome completo três vezes: “Genésio Cravvo Pimenta!”.
Curiosamente, depois de tanto aparato, o Caixa não mencionou o
estratosférico número da senha.
Finalmente, o tal Caixa,
segurando cuidadosamente um aparelhinho eletrônico similar aos que
aceitam, copiam, clonam e reproduzem cartões de crédito, disse com
naturalidade estudada:
“Preste bem atenção! Para aumentar a sua
segurança, e se o senhor for solteiro, digite nesta maquininha os três
últimos algarismos do celular da sua atual namorada ou do seu namorado,
ou da sua noiva ou do seu noivo; e se o senhor for casado, digite os
três primeiros números do celular da sua esposa ou do seu esposo, ou da
sua companheira ou companheiro conforme previsto na Lei; mas se o senhor
não estiver incluído em nenhuma dessas características, basta digitar o
número do seu CPF ao contrário ou, se preferir por questões de
discrição, digite, em maiúsculas, somente as letras iniciais da mais
tradicional e pertinente expressão de desabafo que chegou aos nossos
avançados dias tecnológicos!
Tão logo Genésio digitou as letras
maiúsculas PQP, o Caixa fez, mentalmente, a leitura da expressão
digitada, decodificou-a, e disse: “Muito bem: PQP corresponde às
iniciais da expressão correta por extenso, ou seja, Puta Que Pariu!
Agora daremos prosseguimento à sua operação de pagamento sem problemas”.
Genésio pagou a conta, recebeu o comprovante da operação e um troco
de vinte reais. Agradeceu a atenção do Caixa e argumentou: “Para sair do
Banco e ir embora, quero retirar os meus pertences e vestir a minha
roupa que guardei no armário, mas, conforme as instruções que li e reli,
preciso saber a nova senha que devo digitar no teclado da portinhola do
tal armário”.
Sem titubear, o Caixa respondeu: “É muito fácil!
Com letras maiúsculas, o senhor deve digitar a mesma senha que utilizou
para fazer o pagamento da sua conta. Em seguida, deverá aguardar alguns
segundos até aparecer no visor eletrônico da portinhola a expressão ‘PQP
É A SUA MÃE’. Aí então, o senhor poderá retirar os seus pertences,
vestir-se e, tranquilamente, ir embora.”.
“Valeu!” Disse Genésio
ao Caixa, e acrescentou: “Ao voltar pra casa vou explicar essas
novidades pro Albberto, meu marido. Assim, ele não vai se espantar
quando tiver de vir ao Banco, nem terá constrangimento ao expor que é
legalmente casado comigo, pois é preferível digitar os três primeiros
números do meu celular do que passar por essas inacreditáveis
sem-vergonhices pós-modernas de segurança máxima!”.
Extraído do
livro a ser lançado: HISTÓRIAS TIPO ASSIM: “WHATS-au-au-au-APP”
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Comentários sobre o texto podem ser encaminhados ao autor, no email
carlostrigueiro28@gmail.com
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Direção e
Editoria
Irene Serra

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