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Ignácio despertou com a musiquinha do celular,
foi ao banheiro, lavou-se, escovou os dentes,
tapeou a barba, penteou-se, vestiu-se, calçou o
tênis sem marca visível, apetrechou a
parafernália de usos, abusos e costumes na
mochila linchada, aliás, surrada.
Na
mochila: marmita lavada e vazia, garrafa térmica
com café pingado, cinto de utilidades duvidosas,
óculos escuros fora de moda, lenços de papel,
colírio pra enfrentar a poluição nos olhos,
xarope pra rouquidão, envelope com aspirinas,
cópia da cópia do CPF, guarda-chuva portátil de
segunda-mão, terceira, quarta, quinta…
Também na mochila: caneta esferográfica sem
tampa, bloco de rascunho sem riscos, cortador de
unhas cego, digo, por amolar, chaveiro com três
peças para abrir ou fechar sabe Deus o quê, duas
cópias da carteira de identidade autenticadas,
segunda via da carteira de trabalho, senhas
codificadas pra assanhamentos, um celular de
antepenúltima geração pra uso próprio e outro
celular antigo, dissimulado, pra satisfazer aos
assaltantes da vez.
Ainda na mochila:
três contas miúdas a pagar, cento e quarenta
pratas salteadas em notas dez e vinte reais,
dois sanduíches de mortadela com cheiro de
véspera, duas mariolas pra sobremesa e um rolo
de baseado robusto pra suportar o sobe e desce
do que desse e viesse na vida que leva de “dá ou
desce”.
Fechou a porta do puxadinho
emprestado sob a meia-água no casebre do Tio,
beijou a companheira sonolenta, prometeu-lhe que
um dia iriam sair dali, nem que fossem pra outro
país, arrastou com o polegar o suor da testa,
afagou a tatuagem do Anjo da Guarda no antebraço
e se foi pela calçada esburacada.
Achegou-se ao quase inteiro meio-fio, desviou-se
dos rolos de fios elétricos roubados durante a
noite e à espera de quem encomendou, evitou os
postes tombados pela carreta na semana passada,
chutou cinco vira-latas a farejar, talvez, os
seus sanduíches de mortadela, e esperou a vez de
iniciar a travessia da larga avenida utilizada
como rodovia, estrada, rua, trevo, passagem, ou
do que a prefeitura e os banqueiros do jogo do
bicho determinassem.
Enquanto isso, no
seu celular, aplicativo pirateado sinalizou
chegada de mensagem. Era do compadre em São
Paulo: “Ô meu, já de manhãzinha tá calor aí no
Rio? Pois aqui em São Paulo, mano, tá friozinho
e bom pra trabalhar! Já te falei antes que o Rio
é tipo muito osso pra nordestino viver…”.
Ignácio, de esguelha, vislumbrou perigos
adiante, atrás, do lado esquerdo, do lado
direito, do lado de cima e do lado de baixo.
Digitou que responderia mais tarde.
Desligou o celular e registrou na memória
eletrônica do aparelho e na sua própria,
neurônica, que leria a mensagem completa do
compadre quando conseguisse chegar ao trabalho.
Passaram: a brisa da manhã, a fome, a sede,
o sol do meio-dia, os alísios da tarde, os
medos, a ansiedade, os carros papa-defuntos, os
setecentos e noventa e oito projéteis de vários
calibres tirando fino e…
E na cabeça de
Ignácio quase, quase mesmo, passou a vontade de
trabalhar no horário noturno das segundas,
quartas e sextas-feiras a manobrar mangueiras
semiautomáticas da oficina “Lava a Jato” em
carrocerias de caminhões, carretas, cegonhas,
betoneiras e outras sem-vergonhices motorizadas.
Depois de dez radiopatrulhas com sirenes em
alvoroço e abrindo passagem pra trinta limusines
conduzindo cento e oitenta e nove políticos de
trinta e três partidos distintos,
democraticamente eleitos nos municípios
vizinhos, passaram ainda cento e vinte e dois
mil quatrocentos e vinte e cinco veículos
legalizados, e oitenta mil setecentos e dezoito
ônibus, vans, táxis, automóveis, caminhões,
betoneiras, tratores, guindastes, cegonhas,
motos, moto-táxis, reboques, carroças,
papa-defuntos, caminhonetes, bicicletas, skates,
burrinhos com rabo e burrinhos-sem-rabo devendo
multas ou roubados, sucateados, depenados,
piratas ou pirateados, mas autorizados a
trafegar livremente por milicianos dominadores
daqueles subúrbios.
Na cabeça de Ignácio,
o presente virou passado, o passado previu o
futuro, mas o presente voltou de repente.
Caminhou –– abaixa daqui e dali, salta muro,
pula mureta, deita assim na caçamba de lixo,
deita assado no jipe depenado –– e alternou, bem
treinado, períodos “de espera e se esconde”
atrás de móveis, bagulhos acolchoados com talões
do jogo do bicho e barris de chope vazios
jogados ao léu. Percebe à frente um pivete com
faca pontuda. Ignácio se esconde numa parede
arriada. E espreita onze pivetes com facas
rombudas, facas miúdas, facas pra tudo!
É
bandido, meliante, traficante, assaltante pra
todo lado, maiores e menores libertos de penas
por envolvimento em delitos de ameaça, furto,
dano ao patrimônio, roubo, lesão corporal,
sequestro, crime hediondo, estupro e
assassinato, mas legalmente ressocializados
conforme códigos, estatutos, leis, instituições
e justiça vigentes que, todo mundo sabe, nada
disso funciona pra valer.
Caminha mais um
pouco, abaixado, e vê prostituta menor por cima
de drogado maior numa caçamba de lixo.
Mais à frente: milicianos armados até os dentes
cariados.
Ignácio se esconde atrás de
mureta esburacada por tiros de escopetas e fuzis
importados via contrabando oficializado.
Ouve gemidos à beira do meio-fio: prostituta
idosa, chapada, por baixo de catorze menores
estupradores em fila antigamente chamada de
“fila indiana”. Três quilômetros à frente,
outros clamores: moradores de rua sem placa e
moradores de rua sem rua a linchar ladrões
amarrados em postes sem resultados do jogo do
bicho colados. Sangue e lodo se juntam e, na
linguagem local, “se jantam”.
Quando a
noite desplugou o Sol, o Céu acendeu milhões de
estrelas no quarto sem mobília, sem colônia, sem
perfume, sem desodorante, sem talco nem espelho
da Lua minguante. No mesmo instante, milhares de
viciados em crack e em outras drogas de pés
sujos pareciam reacender os vagalumes expulsos
dos subúrbios pela sociedade industrial.
Finalmente, Ignácio conseguiu enxergar a
passarela abalroada e estremecida que, pelo
alto, cruza a avenida transformada em rodovia,
estrada, rua larga, só o Governo, digo, a
Prefeitura, digo, os políticos saberão.
Naquele lusco-fusco extemporâneo, Ignácio chega
ao que restou da passarela castigada pela
carroceria de caminhões com carga e altura
superiores ao permitido e, tão rápido quanto
podia, suspirando, resfolegando, subiu degraus,
atravessou e desceu a rampa inclinada até pisar
o outro lado da rodovia, da avenida, da estrada,
da rua larga –– seu Anjo da Guarda tatuado
melhor dirá.
De cara, outros desafios da
travessia: saltou, sem vacilo, dezoito bueiros
sem tampas –– roubadas pra venda em
ferros-velhos da região. Saltou ainda centenas
de talões do jogo-do-bicho amontoados para
distribuição aos respectivos pontos dos
bicheiros.
Finalmente, ao reconhecer que
vencera incólume mais uma vez o início da
jornada, lembrou-se de terminar, no celular, a
leitura da mensagem do compadre que vivia em São
Paulo. Jurou que a leria num intervalo do
trabalho, talvez numa fuga ao banheiro. Porém,
antes de tudo, agradecido, beijou o Anjo da
Guarda tatuado, bateu o cartão de ponto no
serviço do “Lava a Jato” à beira da estrada, foi
ao vestiário, trocou de roupa, vestiu o macacão,
e, feliz consigo mesmo, sorriu por ter realizado
mais uma vez a formidável travessia. Mal
engrenou as mangueiras no “Lava a Jato”, Ignácio
ligou o celular e leu o resto da mensagem do
compadre:
“Ô meu! São Paulo é tipo assim
outro País dentro do Brasil, entendeu? Tudo aqui
é enorme, mas quase tudo funciona –– fábricas,
chaminés poluentes, patrões, trânsito travado,
semáforos, multas, polícia, Justiça e, claro,
alguma injustiça e, parece mentira, até mesmo o
clima finge mas não engana! E tem muito mais
trabalho com menor risco que oficina de ‘Lava a
Jato’ em subúrbio do Rio.”
“E melhor
ainda, mano: tu não vais precisar tirar
passaporte pra fazer a travessia da fronteira e
morar em São Paulo, nem fazer câmbio com os teus
caraminguás, porque o Real aqui vale em todo
lugar. E vais poder tomar tipo umas brejas no
fim de semana depois do fu-te-bol, ou pegar um
busão pra trabalhar ou um luxo tipo moto-táxi e,
com o passar do tempo, vais entender a língua
tipo paulista, pois eu mesmo só destravei o
palavreado daqui, no dia a dia, com os manos de
São Paulo. Então, mano, até por aqui, valeu ô
meu! E, por último e mais importante de tudo: tu
vais precisar de muita coragem pra largar esse
‘Lava a Jato’ de operário carioca, mudar de
palavrório, de horários, de sotaque, de clube de
fu-te-bol, de outras manhas, enfim, de outro
país dentro do mesmo país!”.
Crônica
publicada anteriormente no ‘CARTA CAMPINAS’


Carlos Trigueiro é escritor e poeta Pós-graduado em "Disciplinas Bancárias".
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes”
(Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (200ó), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil).
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Editoria
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