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01/06/2026
Ano 29 - Nº 1.509

ARQUIVO
CARLOS TRIGUEIRO

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Pois é: “Recordo-me daquilo que não queria recordar; e não posso
esquecer aquilo que queria.” (Cícero, 106 a.C. / 43 a.C.). “Memória” é
enigma mais antigo e cismático do que supõe a vã filosofia. Sem entrar
na área da memória artificial de computadores, celulares e afins, ou
seja, sem abranger nossa atualidade caótica que teima em antecipar o
futuro, “Memória” seria a capacidade humana de adquirir, armazenar e
recuperar informações e fatos ao longo de experiências vividas.
Esse aparato orgânico-psíquico capaz de armazenar informações e funções
– movendo milhões de células, neurotransmissores e suas conexões – fica
bem guardado no nosso organismo, ao contrário da exposição de bíceps
malhados, cílios retocados, unhas pintadas, olhos puxados, “barriga de
tábua”, rugas disfarçadas, enfim, da chamada aparência “produzida”…
Aliás, só nos lembramos da existência da “Memória” quando esquecemos
o nome daquela pessoa (“Meu Deus! Estou com o nome na boca…”), ou de um
objeto (“Tenho a palavra aqui na ponta da língua, mas…”), ou quando
esquecemos o Cartório onde temos firma registrada, ou o celular no banco
do táxi, ou a senha do cartão de crédito na hora de uma compra, ou onde
guardamos o Protocolo para pegar o resultado daquele exame médico, ou
aquela data que já foi especial (“Como pude esquecer a data do nosso
aniversário de casamento?”), enfim, esquecimentos que nos obrigam a
disparar contra nós mesmos: “Mas fui esquecer logo isso?” Ou: “Onde foi
mesmo que eu botei aquele troço…?”.
Então, podemos dizer que a
“Memória” é a base do conhecimento. Os neurocientistas distinguem dois
tipos de “Memória”: a declarativa (que armazena que algo aconteceu) e
a não-declarativa (que armazena como aquilo se deu). Também explicam que
a “Memória” despende muita energia mental e que, com o avanço da idade,
vamos perdendo tal capacidade. Alterações químicas, doenças
degenerativas, depressão grave e traumas afetam os processos de
armazenamento da memória (tal perda seria a “amnésia”).
Quando
ocorrem lesões nas áreas cerebrais responsáveis pela “memória
declarativa”, geralmente em pessoas acima de 50 anos, surge uma forma de
demência, e se essas lesões afetam outras partes do cérebro desponta a
enfermidade mais comum: “Doença de Alzheimer”, com perda gradativa e
constante da memória. Outros fatores também podem provocar perda de
memória: alcoolismo, abuso de cocaína, derrames cerebrais, Doença de
Parkinson em estágio grave, dentre tantos
A memória declarativa
ou consciente, ou memória de longo prazo é mais facilmente adquirida,
porém mais fácil de perder-se (seriam os fatos, nomes, acontecimentos,
etc.). Nos casos de animais que não falam, mas, claro, “lembram”, esse
tipo de memória é chamado memória explícita. Não à toa dizemos: “Fulano
lembra de tudo, tem memória de elefante!”.
No cérebro humano, o
sistema de memória declarativa se vincula às estruturas da amídala e do
hipocampo, ou seja, no lobo temporal medial. E, claro, há vários tipos
dessa memória segundo a dimensão temporal: memória imediata (dura apenas
frações de segundo ou alguns segundos, tal como decorar o número de um
telefone); memória de curto prazo (lembrar de eventos que aconteceram há
poucos minutos como, por exemplo, um acidente de automóvel ali na
esquina); e a memória de longo prazo (que dura dias, meses, anos, e até,
quando envolve muitos anos, ser considerada como memória de longuíssimo
prazo). Mas vou deixar os leitores à vontade para rebuscarem exemplo bem
antigo e marcante na memória! Que tal a data de aniversário da primeira
namorada (ou namorado?).
Por outro lado, a memória não
declarativa (também chamada de procedural) é a que se refere a
procedimentos motores (dirigir automóvel, andar de bicicleta, digitar no
teclado do computador, tocar violão, piano, enfim, um instrumento
musical). Esse tipo de memória é mais estável e, ao contrário da memória
declarativa, mais duradoura, inclusive porque a consciência não tem
acesso a tais habilidades
Hoje se sabe que a memória não tem um
“habitat” único no cérebro. De fato, várias estruturas cerebrais atuam
no armazenamento e na evocação de informações adquiridas por sistemas de
aprendizagem. No entanto, ainda estamos engatinhando na complexidade da
memória humana, pois há acontecimentos em nossas vidas que jamais
esquecemos, enquanto outros são descartados feito lixo. Como é que o
cérebro faz para estocar um fato e livrar-se de outro? Entrariam emoções
no processo? A memorização de odores, por exemplo, teria o mesmo
processo no cérebro do enólogo que reconhece um vinho pela intensidade
do odor e a de alguém que viveu experiência marcante onde era presente
determinado cheiro inesquecível?
Do ponto de vista literário,
muitos escritores repassaram suas experiências vividas ou delas se
valeram como instrumento de criatividade ficcional em forma de
”Memórias”, e, para citar o mínimo: “Memórias de um sargento de
milícias” (Manuel Antonio de Almeida); “Memórias póstumas de Brás Cubas”
(Machado de Assis); “Memórias de Além-Túmulo” (Chateaubriand); “Memórias
do Cárcere (Graciliano Ramos); “Memórias de minhas putas tristes”
(Gabriel Garcia Marques); “Memórias de uma moça bem-comportada” (Simone
de Beauvoir); “Memórias de Adriano (Marguerite Yourcenar). De outra
parte, escritores que utilizaram o expediente da “Memória” para obras
também notáveis, preferiram dar-lhes títulos diferenciados como “Baú de
Ossos” (Pedro Nava); “Confesso que vivi” (Pablo Neruda); “Recordação da
casa dos mortos” (Dostoievski), e muitos outros.
Finalmente, para
não incentivar o leitor a me cobrar, de “Memória”, a escalação da
seleção brasileira que perdeu de 7x1 para a Alemanha em pleno “Mineirão”
na Copa do Mundo de 2014, ou cobrar os nomes dos políticos nos quais
votei nas últimas eleições para prefeito, deputado estadual, deputado
federal e senador, retorno à sábia citação de Cícero no início desta
crônica: “Recordo-me daquilo que não queria recordar e não posso
esquecer aquilo que queria”. Será?
Crônica publicada anteriormente no CARTA CAMPINAS
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Comentários sobre o texto podem ser encaminhados ao autor, no email
carlostrigueiro28@gmail.com
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Direção e
Editoria
Irene Serra

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