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01/04/2015
Ano 18 - Nº 930

ARQUIVO
CARLOS TRIGUEIRO

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"De antemão, o significado zoológico de “Mãos”, segundo o velho “Novo
Dicionário Aurélio Século XXI”: Cada uma das extremidades dos membros
superiores dos quadrúmanos e anteriores dos quadrúpedes. Assim como outros
significantes que denominam partes do corpo humano, “Mão” junto a termos
específicos molda incontáveis expressões idiomáticas já autoexplicativas.
Portanto, o leitor entenderá, em primeira “Mão”, variada gama de tais
significados sem necessidade de orações intercaladas, notas esclarecedoras
entre parênteses ou no rodapé. E já com a “Mão na massa”, lembro que os
paleontólogos dizem que a preponderância do homem sobre os demais seres vivos,
começou com a invenção e o uso de ferramentas. E, claro, a ferramenta “Mão”
não foi preciso inventar. “Mão” afagava o bebê pré-histórico, cavava buracos
em busca de água e alimentos, esmurrava inimigos, desenhava em cavernas,
enterrava os mortos, colhia frutos, fazia armas rudimentares, enfim, desde os
primórdios o homem não “abriu Mão” dessa, digamos, ferramenta corporal.
Nos nossos tempos, qualquer estudante de Anatomia sabe que as nossas “Mãos”
são simétricas, dividem-se em carpo, metacarpo e dedos e por onde passam os
importantes nervos radial, mediano e ulnar. Não sendo especialista em
Medicina, não vou “meter a mão em cumbuca”, porém o amigo leitor também não
pode terminar de ler esta crônica e ficar “com as mãos abanando” ou, na base
do populacho, “com uma das Mãos na frente e a outra atrás”. Abrindo “Mão”
das idiossincrasias de cronista, e para matar curiosidades sobre outros
trânsitos idiomáticos, não pego o rumo na “contramão”. Ao contrário, “sigo a
Mão” do pensamento. Vejam este exemplo “na palma da mão”: um operário, pintor
de paredes, só merece “aperto de Mão” quando encerradas a “segunda ou terceira
deMão” do serviço contratado. Claro que o contratante não vai “sair na mão” se
o pintor ficar só na “primeira deMão”, pois seria mais prudente pedir ao
operário voltar as “mãos à obra”. E para o exemplo não “cuspir na mão” do que
foi afirmado, se tudo ficar acertado entre as partes, aí sim, o contratante da
obra poderá “botar a mão no bolso”, mesmo sendo “mão-de-vaca” e pagar o
serviço sem ser “de mão-beijada”.
Dos pontos de vista histórico, religioso,
artístico ou mesmo antropológico, as “Mãos” sempre expressaram valiosos
significados em muitas culturas através dos tempos: “Mãos que curam doentes”,
“Mãos que protegem do Mal”, “Mãos que abençoam”, “Mãos que realizam milagres”,
“Mãos que retratam paisagens, figuras, imagens em telas, monumentos, painéis”,
“Mãos que liberam sons maviosos em instrumentos musicais”. E para não dar a
“mão à palmatória” prosseguiremos “na mão” em que vínhamos.
Nas culturas
orientais, por exemplo, encontramos inúmeras acepções para as “Mãos”. Na
linguagem japonesa o “Karatê” significa “mãos vazias”, ou seja, arte ou luta
em que as ”Mãos” não se valem de armas, instrumentos, ferramentas etc. Na
cultura e medicina chinesas há um vasto e milenar conhecimento sobre os
“pontos das mãos” distribuídos por dedos e palmas e que, se estimulados ou
pressionados, podem curar ou amenizar este ou aquele mal do corpo. Mas tal
assunto excede o espaço da crônica porque “enfia a mão” no terreno da
acupuntura –– gama de conhecimentos que abrange verdadeiro tratado. A milenar
cultura indiana, “de outra mão”, desenvolveu e espraiou mundo afora (desde os
antigos romanos aos povos ciganos), a arte da “quiromancia”, ou o conhecimento
do destino e da vida de uma pessoa através das linhas e sinais de suas
próprias mãos. Até hoje, o curioso que se dispuser a “abrir a mão”,
literalmente, para uma cigana ler o que dizem as “linhas das palmas da sua
mão”, basta querer e pagar pela interpretação daqueles sinais.
As “Mãos”
também são indispensáveis e influentes na “linguagem dos sinais” tanto na
comunicação entre deficientes auditivos quanto entre surdos e ouvintes. Claro
que a “linguagem dos sinais” não é universal, pois varia de lugar para lugar,
retratando cultura e regionalismos onde praticados.
Para não “estender a
mão”, nesse chove e não molha, citamos expressões consagradas que realmente
dispensam explicações, e como diz a galera, tipo: “pediu a mão da moça em
casamento”; “quantas mãos perfazem um jogo de biriba?”; “disputar espaço no ar
com cafifa, pipa, arraia ou papagaio só tem graça se a linha que os empina
levar uma boa ‘mão de cerol’”; “ditadura que se preza tem de governar (Ops!)
com ‘mão de ferro’”.
Podemos escolher “A mão e a luva”, romance de Machado
de Assis, e a peça teatral “As mãos de Eurídice”, de Pedro Bloch, para
homenagear neste texto sobre “Mãos”, expoentes literários nacionais. Já no
campo esportivo todo mundo vai se lembrar do Oscar Schmitt, até hoje talvez o
mais famoso jogador brasileiro de basquete, apelidado de “Mão Santa” pela
precisão com que encestava a bola. Para não encerrar o texto parecendo
desconectado com a realidade nacional, ouvi dizer que a atual “Operação Lava
Jato” se inspirou na operação do governo e justiça italianos, nomeada “Mãos
Limpas”, dos anos 1990, que rompeu gigantesca rede de corrupção envolvendo
políticos, partidos, clero, empresários, banqueiros e, claro, a insidiosa
máfia. De outra “mão”, e como não nos cabe amealhar fatos além do propósito
cultural do texto sobre “Mãos”, convém imitar o gesto milenar do cônsul romano
na Judéia, Pôncio Pilatos, que se absteve de julgar Jesus Cristo, e preferiu
“lavar as mãos” – simbologia e expressão que chegaram aos nossos dias pelas
“mãos sagradas” dos historiadores e escribas.
Crônica publicada anteriormente no
"Carta Campinas".
Comentários sobre o texto
podem ser eniados diretamente ao autor:
carlostrigueiro28@gmail.com
Carlos Trigueiro é escritor e poeta Pós-graduado em "Disciplinas Bancárias".
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes” (Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (200ó), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil).
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Direção e
Editoria
Irene Serra

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