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O tique-taque do velho despertador deu
a impressão de ter ficado mais forte. Lembrava
passos resolutos vencendo algum corredor
assoalhado e comprido. Talvez, naquele
finalzinho de sonho, o Sr. Junqueira hospedasse
imagens de alguém usando botas. Mas a aparente
passada foi de tal modo se aproximando que
desencovou de vez o despertar do
recém-aposentado. O relógio não chegou a soar.
Um braço velejou nas trevas e ancorou a mão
sobre a campainha do velho relógio
desarmando-lhe a engenhoca. O dia ainda ensaiava
requebros de luz sob a cortina da madrugada.
Como de hábito, Junqueira alçou-se lépido,
apesar de seus bem orçados sessenta e tantos.
Higiene, ginástica ligeira, fluxo e refluxo de
água corrente, gorgolejos e tossidelas
alternaram-se. Mas foi só quando a espuma do
creme de barbear se rendeu aos sulcos provocados
pelo deslize da navalha, deixando renascer parte
do rosto frente ao espelho, que se deu conta da
realidade mais uma vez. Estava procedendo como
vinha fazendo há quase meio século. Com certa
pressa. Melhor dizendo, com aquela
obrigatoriedade ao mesmo tempo prazerosa e
compulsiva de encontrar-se com o dia a dia de
trabalho na Repartição. Fixou o olhar na sua
imagem refletida no espelho e inquiriu-se: "Qual
o motivo desse ritmo matinal acelerado se já
estou aposentado há quase três meses?"
Continuou barbeando-se. Enquanto reduzia
agilidade nos movimentos e pressão no escanhoar,
os pensamentos se adensaram sobre todos aqueles
anos dedicados ao trabalho. Os hábitos
adquiridos pela repetição, pequenas manias
sedimentadas na rotina diária, comportamentos
fisiológicos condicionados, processos mnemônicos
para reter número de portarias, textos de
decretos e instruções circulares. Empunhando a
lâmina ora a favor, ora a contrapelo rememorou a
dinâmica do ir e vir - os tipos de transporte
que utilizara de casa para o trabalho e
vice-versa. Bondes, ônibus sanfonados - ah! Os
papa-filas -, micro-ônibus, ônibus importados e
com ar refrigerado - ah! Os frescões -, também
os ônibus sem ar refrigerado que o humor carioca
batizara como "quentões" e, finalmente, o
metropolitano moderno. Fez desfilar na memória:
os ternos que usara ao longo da carreira; as
gravatas com matizes, fantasias e medidas
diversas; as pastas de couro surrado repletas de
papéis caducos e anotações superadas; a
maletinha modelo 007 e suas variações,
carregando pra lá um bocado de objetos inúteis,
e pra cá outro tanto de coisas dispensáveis. Ao
reprovar intimamente os volteios da moda meneou
levemente a cabeça. O trejeito distraído
custou-lhe um arranhão sob o queixo. Detestava
cortes durante o barbear. Mas o pensamento já ia
fundo e desencravou da lembrança o que os
técnicos da administração eletrônica chamavam de
evolução ergonômica. E num piscar de olhos
recuperou imagens de mesas de vários tipos e
tamanhos, de arquivos leves e pesados, máquinas
de escrever e de calcular mecânicas, elétricas,
eletrônicas, os primeiros e enormes
computadores, depois os de tamanho médio, e
finalmente os maravilhosos microcomputadores que
valiam por um escritório completo.
Ao
rememorar o dia a dia de seus bem-vividos
ambientes de trabalho constatava,
orgulhosamente, que sempre conseguira valorizar
o elemento humano, colocando o calor das
relações pessoais acima da frieza institucional
e da vetusta burocracia que estigmatizavam a
empresa pública - uma coisa de todos, mas também
de ninguém. Reconhecia, agora, as invisíveis
forças de interação que regiam as pessoas
independentemente dos cargos que ocupavam e,
melhor ainda, os pontos de afinidade entre
colegas do mesmo nível hierárquico. Ah! A magia
do intervalo para o cafezinho - ocasião em que
ora anedotas, ora desabafos sobre relações de
trabalho desanuviavam pesadas atmosferas. As
saborosas gozações das segundas-feiras que
tingiam de mofa os comentários apaixonados sobre
o clássico de futebol jogado domingo; os
bate-papos regados a chope com aura de espuma
generosa, após o expediente das sextas-feiras -
quando se desfiavam posições opostas aos
leguleios da Repartição, em lengalengas
entremeadas de tira-gostos picantes e histórias
luminosas nos bares do Centro. Os processos
urgentes que vez ou outra levava para casa nos
fins de semana. Enfim - pensava - tudo aquilo,
ou seja, o seu dia a dia lhe tinha sido
arrebatado com o advento da aposentadoria.
Enxugou o rosto às apalpadelas com a toalha
de pelo arrufado, soprou a umidade que dominava
as lentes dos óculos e tornou a encarar-se no
espelho. Já barbeado e dispersando perfume,
penteou a cabeleira lívida e inquiriu ainda uma
vez a própria imagem, agora desfocada pelo uso
incorreto das lentes. Corrigiu o ângulo da visão
e avizinhou-se do espelho tentando equilibrar as
hastes dos óculos sobre as orelhas a fim de
aparar com uma tesourinha os pelos que emergiam
do nariz. Inquiriu-se fundo, mas com respostas
rasantes - e que, em verdade, eram as mesmas
perguntas, como fazem os que querem se desculpar
a si mesmos. "Que tinha ele na vida? Pouco."
"Mulher? - Já nem se lembrava do divórcio."
"Filhos? - Casaram e sumiram pelo Rio Grande do
Sul." "Netos? - Só os conhecia por fotos e
imagens de vídeos." "Parentes? - Talvez elos
perdidos lá pelo interior." "Um apartamento
modesto de três cômodos? - Não valia grande
coisa." "Um pedaço de terra escondido pelas
bandas da Mantiqueira na divisa com Minas Gerais
e que recebera por quitação de dívida; ora, que
poderia valer aquele rincão? - Pouco, muito
pouco." "Haver atingido o último posto da
carreira há mais de vinte anos? - Aquilo valia
uns trocados, nada mais que isso." "Amigos? -
Ora, esses, em maioria, pertenciam aos quadros
da repartição, foram transferidos para outros
departamentos, outras cidades, ou foram se
aposentando, desaparecendo, morrendo disso e
daquilo." "Experiência da vida? - sim, tinha
bastante, mas de validade duvidosa em termos de
aplicação em outrem." "Conhecimento da
burocracia do serviço público? - Nisso era
doutor, mas para que lhe serviria tal sabedoria
como aposentado?" Enfim, o ciclo de perguntas e
respostas fechava-se sobre si mesmo. E a
conclusão de tudo e por tudo era insofismável.
Tudo o que realmente havia construído durante a
vida inteira, acumulado de grão em grão, minuto
a minuto, como a mais fabulosa das fortunas era
o dia a dia. O fruir do dia a dia. E aquilo lhe
fora tomado. E pior, sob auspícios da lei.
Meteu-se no terno mais novo. Comprara-o em
prestações um ano antes da aposentadoria.
Vestiu-se com sobriedade, mas com ar magnânimo -
como se ainda fosse trabalhar. Decerto, tinha
encontro importante. Trabalhava agora para sua
causa. Sob a égide da lei e tutela da
democracia. Sim, estava recorrendo. Constituíra
advogado e ingressara em juízo contra o Estado.
A experiência da vida e o recente sentimento de
indignação instigaram-lhe o espírito. Pensava,
enfim, "justiça não é só lei, é também
(sobretudo em alguns casos) interpretação da lei
- o Estado não podia, dentro dos fiéis
princípios democráticos, aniquilar seu único bem
verdadeiro, o qual carregara como um filho
marsupial durante meio século, isso, isso mesmo,
o Estado não lhe podia tomar o dia a dia."
Recendendo a perfume brejeiro, fechou a porta do
apartamento e tomou o rumo do encontro com o
advogado.
O causídico era um sujeito
experiente, e conhecia bem tanto os textos
legais quanto a matreirice do ofício. Poderia
ter recusado a inusitada causa logo na primeira
conversa com o Sr. Junqueira, há coisa de três
meses. Na ocasião, explicara ao inconformado
ex-servidor que nas lides envolvendo o Estado
qualquer processo era muito demorado, e que a
própria natureza da causa só teria razão de ser
se houvesse solução imediata - o que implicava
dizer já ir avançando em idade o reclamante. Mas
o advogado - Dr. Justiniano - sabia ser inútil
tentar demover o aposentado logo de início.
Conhecia bem a estrutura psicológica dos homens
de terceira idade - ele que já entrado nos
setenta, havia se defrontado com tantas birras e
teimosias. Preferiu acatar o pedido e esperar
que a 1ógica da vida, muito mais ampla que a da
justiça, trouxesse paz ao espírito do Sr.
Junqueira. Enquanto isso ia dando-lhe notícias
sobre o andamento do processo. Por outro lado,
já havia visto e vivido o suficiente para
admitir que casos com solução extraordinária não
nasciam de questões ordinárias. O Sr. Junqueira
parecia-lhe uma pessoa, no mínimo, diferente. As
pessoas diferentes podiam não fazer o mundo
melhor, mas tiravam-no da indiferença. O que de
pior há no mundo (pensava) é a indiferença das
igualdades. Por isso simpatizara com o cliente.
Além do mais, aquela questão de perder o dia a
dia também lhe vinha acenando há algum tempo.
Era bom ter escolhido uma profissão liberal como
a de advogado. Cumpria os recolhimentos legais
para o fundo de pensão do Estado e contribuía
para dois outros de natureza particular, com o
intuito de compensar as parcas projeções do
primeiro. A condição de profissional liberal
proporcionava-lhe certa independência quanto ao
momento de aposentar-se. Se quisesse isso,
claro. Também poderia trabalhar até morrer. Se
necessitasse trabalhar, obviamente. Ou poderia
ir parando aos poucos. Uma causa aqui, outra bem
adiante. Só causas escolhidas. De preferência,
inusitadas. Nesse aspecto, considerava haver
abraçado uma profissão privilegiada. Dependia de
si mesmo. Até quando seria capaz de advogar? A
rigor, nem precisava de muita estrutura no
gabinete. A biblioteca era rica e as assinaturas
dos periódicos especializados supriam-no de
atualizações indispensáveis. Por telefone,
acionava antigas amizades nos tribunais e
cartórios a fim de inteirar-se do andamento dos
processos. O escritório no Centro era à moda
antiga, como na Europa, ocupando uma parte da
própria residência. Não tinha necessariamente de
locomover-se, não dependia de transportes, de
condições de trânsito, nem de exigências
climáticas. Não sofria de desgastes emocionas.
Tampouco de transtornos viscerais. A governanta,
que também servia de secretária, encarregava-se
de prover diariamente a mesa, periodicamente a
despensa e de modo esporádico o leito conjugal.
Isso desde que enviuvaram. Ele e ela. De per si.
Cada um perdeu seu par. Com diferença de
semanas. Fazia as refeições ali mesmo. Muito
raro ia a algum restaurante, e quando acontecia
era sob especial inspiração. Tinha um dia a dia
estável o bastante para dedicar-se à leitura, ou
a ouvir música, quando bem lhe aprouvesse. Não
havia se questionado a fundo sobre o sentido ou
destino do dia a dia até conhecer o Sr.
Junqueira. Desde então, o assunto espicaçava-lhe
o espírito. Tinha vontade de receber o
aposentado mais uma vez. Conversar um pouco
sobre aquela questão do dia a dia, não tanto do
ponto de vista jurídico, mas, sobretudo sob a
ótica do ser humano que envelhece, mais e mais,
e aproxima-se do desconhecido e que, a rigor, a
rigor, é por todos bem sabido e reconhecido. Por
isso, no dia seguinte, iria receber o insólito
cliente outra vez. Afrouxou-se na poltrona e
relaxou a respiração. Pálpebras pesadas fizeram
o resto.
(continua)
Do livro "O Clube dos
Feios", Editora 7 letras, 2ª edição, 2013.

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carlostrigueiro28@gmail.com
Carlos Trigueiro é escritor e poeta Pós-graduado em "Disciplinas Bancárias".
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes”
(Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (200ó), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil).
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Direção e
Editoria
Irene Serra

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