DIA 21
Caríssima Giovanna, criei uma força monumental ao longo desses anos e
resolvi enfrentar-te. Saí da inércia. Do casulo. Marcho. Como Peter Ilych
Tchaikovsky nas circunvoluções-figurações auditivas da Marcha eslava; um
macho: conceber o demônio da guerra nas entranhas divinais da música. De
fora, sérvios e turcos, como dizia, resolvi. É que cansei. Fartei-me.
Vinte. Mais de vinte anos a dividir, viver, absorver desabafos, e a
conviver e sobreviver... com desabafos. Teus desabafos. Tenho sido
companheiro, amigo, irmão, padre, amante, analista, confidente. Um tudo de
pouco. E de muito também. Logicamente levando em conta minhas limitações.
Não rias, estou falando sério. No início havia o prazer do desconhecido, a
atração pela intimidade não revelada. Eras um tonel de segredos
inebriantes. Embriagava-me desvendar os túneis de tua mente. Os
labirintos. Aonde iam dar. Hoje não tens cabeça. No máximo ogiva. De
peruca.
Marcho. Começou em teu décimo quinto aniversario. Tempos
nostálgicos. A moral em Cuba. Houve festa, baile, valsa, bufê da Colombo,
penetras e cuba libre. Vim pelas mãos de uma amiga tua, a Andréa. Cheguei
sob os metais do Ray Conniff. Nossos cumprimentos mentais. Miraste-me
meio encabulada. Depois, sumi em meio aos outros. Daquela festa: o
alinhado desalinho dos topetes masculinos e a vã porosidade feminil dos
vestidos. Aliás, confidencio: mulher não veste, vapora. Por um fenômeno
qualquer, os vestidos se sustêm.
Terminaste o Clássico. Baile no
Hotel Glória. Orquestra do Waldir Calmon. Smokings do Rollas. Os primeiros
cigarros com filtro. Teu namorado chato, acadêmico das Agulhas Negras, o
Wellington. Que trocaste pelo Armando, estudante de Direito, nem bem a
batalha do amor começara. Armando, apesar do nome participial, tinha
futuro. Não sei no que armandeu, digo, no que o Armando deu. O baile.
Pelas três da manhã, o estribilho da Cidade Maravilhosa desfez laços e
refez abraços. Lá fora, mocidade e insetos notívagos. Alíferos. Cada
especie em seu gênero. E pares alvinegros foram estreitar-se dentro dos
besouros 80% nacionais da Volkswagen - era o marketing da moda -, conforme
me confessaste no dia seguinte. A tua frase tênue: "a cidade dormia sob o
ninar das estrelas" Naquele tempo a cidade dormia. E agora posso te dizer:
cidade que não dorme se torna neurótica, agressiva, violenta, angustiada,
ansiosa, repressiva. Bem, as linhas estão terminando. Mas ainda tenho
muito pra dizer. Volto depois de amanhã, dia 23. Assinado: Diário, ou como
preferes, "Di"
DIA 22
Abri hoje a página do dia 21 e
encontrei-a preenchida. Alguém entrou aqui, imitou a minha caligrafia, o
meu estilo, contou algumas antigas passagens e assinou "Diário".
Só pode ser brincadeira. De quem, se vivo só? A arrumadeira que vem três
vezes por semana é semialfabetizada como a maioria do "sistema" Não teria
capacidade para escrever aquilo. Realmente tive vontade de rir. Depois,
intrigaram-me algumas particularidades: os bailes, o bufê da Colombo, os
cigarros com filtro, ex-namorados. Bem, para não perder tempo nem página,
vou logo resumir o dia 21. Fui ao jornal e levei as duas crônicas para o
caderno especial. Preparei a matéria costumeira e sobrou tempo. O chefe
pediu-me para dar uma ajuda. O colega da coluna do hor6scopo não
aparecera. Caiu não sei de qual altura. Ou quadratura. Até que aprecio Astrologia. Não
entendo muito. Com o arquivo no microcomputador foi fácil. Mas não resisti
à tentação de permutar alguns presságios. Acho que fiz um bom trabalho.
Favoreci a conjuntura de todos os signos tanto no amor como nos negócios.
Quanto aos aspectos saúde e trabalho dividi meio a meio a partir da
balança, de modo inversamente proporcionais os bons presságios laborais de
uns e os salutares de outros. Na conjuntura geral agradei a todos. Lembro
do meu avo aos 88 anos, sentado numa cadeira de balanço e babando de rir
ao consultar o seu horóscopo diário: "hoje, sorte no amor... mudanças no
trabalho... viagens à vista" Era um cínico. O astrólogo não. Meu avô.
Ariano.
Ontem fiz uma coisa de antigamente. Fui ao cinema. Filme em
preto e branco. Não me lembro do título do filme. Entrei em meio à sessão.
Direção de um novato. Via-se logo pelos excessos. Engraçado. Todo
profissional começa devagar, mansinho: jornalista, fotógrafo, advogado,
economista, engenheiro, arquiteto, médico, diplomata - este não,
diplomata, pois sim, isso não é profissão, é masoquismo -, massagista etc.
Menos cineastas. Querem começar do fim. Acho que é a marca olímpica do
Orson Welles no Cidadão Kane. Todo mundo quer melhorar, vencer, logo no
primeiro. A trilha sonora era razoável. Visíveis os efeitos especiais.
Extra tela, o ambiente calmo. Bom. Tranquilo. Ar-condicionado à meia
força. Certa pacificidade no ar. A maioria da assistência, adolescente. O
filme - impróprio até 18 anos. Certa patifaria na tela. No foco da câmera,
além da poeira, aquela espécie de incenso. Invisíveis efeitos especiais.
Drogas leves. Acabaram quase simultaneamente - a sessão, as cessões e as
sezões. Peguei um táxi e fui ao Shopping Rio Sul. Comprei um CD clássico:
Nikolai Rimsky-Korsakov, na Russian Easter Overture op. 36. Cheguei a
casa. Um quarto para uma. Acendi. Bati na cama, não houve reclamações.
Apaguei. Amanhã resumo o dia 22. Assinado: "Gi"
(continua)
(Em O
CLUBE DOS FEIOS & outras histórias extraordinárias-
2ª edição - Editora
7 Letras)
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Comentários sobre o texto podem ser encaminhados ao autor, no email
carlostrigueiro28@gmail.com
Carlos Trigueiro é escritor
e poeta
Pós-graduado em "Disciplinas Bancárias".
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes” (Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (2000), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil).
RJ
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