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01/07/2026
Ano 29 - Nº 1.513

ARQUIVO
CARLOS TRIGUEIRO

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1. Quando o presidente
Ronald Reagan confundiu-nos com nossos irmãos bolivianos, o episódio,
além de enriquecer o anedotário diplomático, provocou um beicinho no
orgulho nacional e relançou à polêmica o pouco caso dos norte-americanos
sobre o que se passa ao sul do Rio Grande.
2. Hoje, diante da
cognominada transição brasileira, com fortes matizes do caos político e
econômico que caracterizaram a Bolívia tanto tempo, o anedotário carioca
bem poderia resgatar a imagem de Reagan, reconhecendo-o como "homem de
visão", capaz de enxergar não só além do Rio Grande, mas também do Rio
Guaporé - e constatar (sorry!) que por estas plagas do Cone Sul não ha
grandes diferenças.
3. À parte esses meandros anedóticos, a
transição brasileira implica desafio que transcende puramente a
reestruturação dos sistemas político e econômico, aspectos suscetíveis
aos olhos do Poder, ainda que a propaganda do governo apregoe "tudo pelo
social".
4. E necessário chamar a atenção para um fenômeno
surgido na célula da sociedade durante os últimos anos e que vem
demonstrando o seu potencial desintegrador. Sua ação é sistêmica e
escalar. Agride indiscriminada e impunemente todos os grupos sociais,
todos os cidadãos.
5. Em verdade, cessados os efeitos anestésicos
do milagre econômico, da euforia da redemocratização e do aumento da
permissividade nos costumes, a sociedade brasileira parece imergir em
uma crise de anomia - na acepção sociológica de Durkheim - ou seja, em
um processo de desintegração das normas sociais.
6. Qualquer
cidadão comum pode constatar que estamos atravessando um período de
enfraquecimento de valores em todos os níveis, de tal sorte que as
normas sociais se deterioram, subvertem e desintegram.
7. O
impacto desse tipo de fissão em cadeia atinge o padrão, a regra, a lei e
o costume. Refaz a ética e desfaz a moral. O que não se altera caduca ou
fenece. O anômalo torna-se normal. 0 permanente rareia enquanto o
transitório fica. Institucionaliza-se a transição.
8. Sob a égide
da transição desmedulam-se a ordem e a autoridade, e surge uma moral
imprecisa, inconsciente sem condições de estabelecer uma disciplina
perene, porque as manifestações da vida coletiva vem sendoo despojadas
da ação moderadora da regra.
9. Nessa devastadora anomia, nessa
desestruturação de normas e valores é que se instala e pulula a
impunidade Os exemplos estão em toda parte e ao alcance das mãos: na mão
que apedreja o presidente da República; na que se compromete em
campanhas eleitorais; na que empunha pistola clandestina para a
guerrilha urbana do dia a dia, na que vasculha o bolso do contribuinte
ao decretar e desdecretar impostos; na que cobra ágio ao consumidor ou
na que corrompe as concorrências públicas. Naturalmente que nos
segmentos econômicos da sociedade, onde a moral é mais flexível, a
anomia tende a se propagar com maior celeridade.
10. Quando
impera a anomia, qualquer ponderação de valores é caótica, e uma febril
compulsão tende a germinar na vontade individual e com anuência
coletiva. Tanto faz burlar uma fila, desrespeitar um semáforo,
inadimplir crédito interno ou externo, descumprir padrões industriais de
qualidade, justiçar na urbe ou no campo, leiloar verbas e cargos
públicos. A anomia é uma patologia social que atinge o corpo e a alma da
sociedade.
11. A gravidade excepcional desse estado de coisas é
que um processo de contínuo desregramento plasma a aparência pluralista
das liberdades democráticas, mas na realidade superalimenta o embrião
das áspides totalitárias, sempre dissimuladas nas sociedades sem
maturidade política ou em processo de desorganização econômica.
12. Segundo Durkheim, para que a anomia tenha fim é necessário que
exista ou se forme um grupo onde se possa constituir o sistema de regras
que faz falta. Não houvesse o sociólogo alsaciano apresentado essas
ideias no século dezenove, diríamos que os seus ensaios sobre a anomia
inspiravam-se na situação brasileira dos nossos dias, onde temos até uma
assembleia constituinte que poderia ser o grupo salvador.
13. No
caso do momento brasileiro, não é que faça falta um novo sistema de
regras, como muitos querem crer, para se impor uma Constituição mágica,
capaz de substituir o empírico pelo formal, a realidade pelo modelo, a
pobreza pelo desenvolvimento. Todos sabemos qual o destino da nossa
miríade de leis, códigos e regulamentos, desde a mais elementar regra de
trânsito às linhas mestras da carta magna.
14. Sob o ângulo da
moral econômica, não há dúvida de que o maior problema da atualidade
brasileira é a dívida externa, eis que ameaça cercear a sociedade como
um todo. Como as repercussões da anomia ultrapassam as nossas
fronteiras, os banqueiros credores preferiram esperar a implementaçãoo
de um novo sistema de regras e governo no país, para poderem definir a
renegociação da dívida.
15. Essa atitude leva-nos à reflexão de
que a pujança do sistema financeiro internacional foi construída não só
com capitais, mas sobretudo com outro componente básico: um sistema de
regras - antítese da anomia - embora se saiba que a moral econômica
regente tenha sido flexionada em via de mão única.
16. Durkheim
entendia a sociedade como um conjunto de ideais alimentados por
indivíduos que fazem parte dela. Esses ideais seriam movidos por uma
potência moral capaz de impor respeito à regra. No Brasil, não é um novo
sistema de regras que faz tanta falta, mas sim uma supremacia moral que
discipline a liberdade individual e a ordem coletiva. Essa supremacia
moral é que poderia ser o legítimo antídoto para a anomia brasileira,
mesmo tendo de admitir que, nas estruturas capitalistas como a nossa,
sem liberdade econômica (poder aquisitivo), tanto o indivíduo como a
sociedade possuem apenas liberdade nominal.
(Em MEU BRECHÓ
DE TEXTOS Ed. Imprimatur – 2012 – Rio de Janeiro/RJ)
(RT, 30/08/2013 Ano 16 - Número 855
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Direção e
Editoria
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