Dos rincões que pisei fora do Amazonas, nenhum deixou sulcos mais
profundos na minha alma que o Ceará. Ainda reencontro, nos labirintos da
memória, galerias de sonhos achados e perdidos que quase posso tocar, mas
se desvanecem como as asas brancas das jangadas que os meus olhos infantis
viam acenar entre dois infinitos...
Praias de esmeralda e água
morna, areias em banho-maria, temperadas por marolas, algaços e queixumes
do quebra-mar...
Dunas alvíssimas albergando siris buliçosos e de toca em toca
fugidios...
Coqueiros sáfaros - palmas esgrouviadas em adeuses
eternos - distendendo o tronco como se arremedassem o movimento dos arcos
tijipiós outrora dominadores...
Os seriguelas maduros, nos pomares
dos quintais, por entre nuvens de folhas pálidas e que a meninada zurzia
no afã de chegar primeiro que os sanhaçus...
A "chuva do caju"
abençoando o solo enodoado pela resina viscosa do cajueiral...
O
estalar das castanhas nos fogareiros de boca larga e o fumo que dali se
esvaía sintonizado com a minha imaginação...
Para além dos espigões
que a vista alcançava, os sertões se esgoelando ao céu...
Meu Ceará
da cajuína, do murici, do jerimum, dos pajeús e carnaubais, da brisa
contralto no teatro desértico dos juremais...
(Em "Memórias da
Liberdade", 1985, Ed. Achiamé, Rio de Janeiro)
RT, CooJoornal Ano 16 - Número 834
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Carlos Trigueiro é escritor
e poeta
Pós-graduado em "Disciplinas Bancárias".
Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para “O Livro dos Ciúmes” (Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (2000), categoria romance, para “O Livro dos Desmandamentos” (Editora Bertrand Brasil).
RJ
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