16/10/2025
Ano 29
Número 1.479





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BRUNO KAMPEL
 



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Bruno Kampel


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Esta madrugada despi todas as minhas fantasias, uma por uma. Primeiro a de sabe-tudo, depois a de indispensável, a seguir a de importante e logo depois a de prepotente. Descansei um pouco e continuei. Tirei a de diretor, e a de poeta, e a de escritor, e por último a de capitalista e explorador.

Corri cheio de curiosidade até o espelho, e lá dei de frente com um grande dedo acusador que me apontava com cara de poucos amigos, mas o que maior impacto me causou foi constatar que o que sobrou de mim era o único que tinha esquecido que era.

Sim, por trás do grande dedo que não deixava de acusar-me sem palavras, aparecia refletida a imagem de um garoto cheio de anos, com uma bola de borracha embaixo do braço, uma atiradeira na mão, um sorriso virgem nos olhos, um futuro brilhante aos seus pés, uma esperança enorme não cabendo-lhe nos bolsos, a frente sem rugas, o corpo sem marcas, a vida sem dores.

Sim, foi isso que vi, até que de repente acordei, e ao procurar-me entre as dobras das horas noturnas não pude encontrar-me por mais que o tentara.

Agora, quando o dia acabou de transformar a madrugada em simples pretérito, só sei que não sei muito bem onde estou e que apenas suponho quem sou, e por isso o único que posso e faço e começar a procurar-me. Iniciarei a investigação pelo espelho, e se lá não me encontro irei até uns vinte anos atrás, e se tampouco me acho, então não terei mais remédio que encostar-me nas horas que passam e pacientemente esperar até que eu volte quando voltar e venha de onde vier.


Rio Total, 01 de março/2003
CooJornal nº 304.



Bruno Kampel
Advogado, escritor

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Irene Serra