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01/02/2026 Ano 29 Número 1.493

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BRUNO KAMPEL

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Bruno Kampel
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1.- Inspiro-me. Talvez porque passa no céu uma nuvem com forma de elefante, ou
porque soa ao longe o sino do sorveteiro da praça da minha infância, ou porque
o vento mexe sensualmente o cabelo da mulher que caminha na minha frente, ou
porque me deixo envolver pelo aroma do passado que sai de uma janela numa
esquina na qual espero a chegada da luz verde para poder atravessar, ou outra
coisa pelo estilo, ou todas essas coisas juntas.
2.- Entro numa
lanchonete, sento-me e peço um sanduíche e um café, e o primeiro que faço
enquanto espero é tratar de construir mentalmente a frase que me atropelou
quando procurava inspiração na lembrança do cabelo da mulher que caminhava na
minha frente, ou quando adivinhei nas bocas de quase todos os fregueses o
assovio característico do sorveteiro oferecendo-me uma angina de chocolate e
morango.
3.- A toalha de papel da mesa - branca como una virgem da
idade média - adivinhando que eu andava à procura de um tema e das palavras
que melhor o descrevessem - olha-me sedutoramente, e um lápis que escrevia
apática e religiosamente preços e menus sobre a fumaça de um milhão de
cigarros que flutuava entre as bandejas, olha para a imaculada toalha e aposta
tudo numa carta, propondo-lhe um encontro que ela aceita sem vacilar, e eu,
para não perder o hábito, traduzo os acontecimentos a palavras - desde o voo
rasante da nuvem paquidérmica até o idílico encontro do lápis e da branca
toalha de papel - e as organizo numa frase que se ajoelha na ponta da minha
imaginação e me implora que a escreva:
"... somar muito a pouco, restar
importância aos fracassos, adicionar um pouco de esperança ao saldo da conta
corrente da minha vida..."
4.- Logo depois, quando a taquicardia bate o
relógio de ponto e começa a trabalhar e o primeiro que me diz é que estou no
bom caminho, aproveito o pequeno espaço entre uma mordida no sanduíche e um
olhar perdido nos desenhos que a fumaça de mil cigarros desenha a caminho do
teto, para compor a minha obra prima - como são todas as ideias antes de que
as reduzamos a uma pura e simples realidade. E assim continuo, procurando e
encontrando palavras, mastigando e engolindo olhares, escutando e gravando
silêncios, até que finalmente acabo asfaltando o caminho que frase a frase me
conduz ao ponto final.
5.- Já em casa, e depois de depositar todos os
haveres no ventre do computador, olho na telinha o que escrevi e retoco aqui e
acolá, tirando de algumas frases o gosto do café requentado e de outras
algumas manchas de sorvete que se misturaram entre os adjetivos, e depois de
engraxar as frases e pentear o estilo me digo condescendentemente satisfeito:
tá bom!... tá muito bom!... Ma-ra-vi-lha!...
E é assim que o meu texto ou
meu poema, sim, MEU TEXTO ou MEU POEMA, e não de outros, e não da mulher do
cabelo sensual nem do sorveteiro nem do dono da lanchonete nem do fabricante
de café, está terminado, parido, nascido, vivo.
6.- Abro o programa de
correio, digito o endereço eletrônico de alguns amigos virtuais, copio o texto
ou o poema, o releio, o acaricio, despeço-me dele com um par de lágrimas
virtuais, e ENTER.
7.- Um segundo depois o robô do servidor de correio
já o lê com o rabo dos olhos. Alguns minutos mais tarde um de vocês o recebe,
o abre, o lê, o mastiga, e se gosta ou detesta, o engole ou o cospe.
8.- Nesse exato momento o meu texto ou poema, gerado enquanto uma nuvem com
trompa de elefante passeava pelo céu, gestado no útero de uma lanchonete,
alimentado com um misto quente regado com o requentado sangue do café, e
parido sobre uma toalha de papel com a indispensável colaboração de um lápis
apaixonado, deixa de ser meu e passa a ser de todos.
9.- Fiz-me
entender agora?... Meus textos ou poemas são nossos, não meus. E isso acontece
por mostrá-los.
10.- Valha a ressalva: o único que realmente me
pertence é o exercício de pescar ideias a partir das quais desenhar o próximo
texto ou modelar o próximo poema. Isso sim que é meu, como minha é a angústia
de não encontrar a palavra justa ou o desespero da página em branco. Bom, mas
essa é outra história.
Rio Total, 01 de março/2003
CooJornal nº 304.
Bruno Kampel
Advogado, escritor
Direitos Reservados.

Direção e Editoria
Irene Serra |
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