Braz Chediak
CARTEIROS TRICORDIANOS
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Não
sei se foi a música, que na época todos cantarolavam, - “hoje, o carteiro chegou
e meu nome gritou com uma carta na mão...” - ou o grito das crianças anunciando
sua chegada que ouvi primeiro na minha infância na Rua da Cotia. Mas os dois
estão gravados, para sempre, em minha memória.
Três Corações andava
devagar, a Cotia andava devagar, como devagar andava seus carteiros e, ainda
criança, eu não imaginava quantas histórias de amor, de despedidas, de encontros
e desencontros foram transportadas em segredo, em suas sacolas. Não imaginava
quanto da geografia da cidade seria traçada debaixo de seus pés que percorriam
ruas descalças levando e trazendo notícias de partidas e de regressos, de
amantes e seus desejos, de amores contrariados e de amores realizados, de mortes
e de nascimentos. Eu não sabia que ali estava jorrando a vida.
Quantos
carteiros havia em Três Corações? Não sei. Só sei que, às vezes, um deles se
encontrava conosco na rua, na praça ou na ponte e nos entregava uma carta ou
telegrama para nossas famílias.
Em nossa casa esse era um dia de alegria.
Os libaneses da vizinhança, e até mesmo do centro, que era chamado “a cidade”,
logo apareciam curiosos, pois a notícia se espalhava, boca-a-boca, antes mesmo
de a carta chegar, e se reuniam em volta da mesa pobre mas onde havia sempre os
pães sírios e os quibes que eram passados de mão em mão.
Recordo-me do
envelope branco sendo aberto com uma pequena espátula – naquele tempo havia
espátulas –, o papel pautado desdobrado com mãos trêmulas e de todos, atentos,
ouvindo meu avô, Seu Zé Turco, lendo alto, solene, parágrafo por parágrafo,
repetidas vezes, numa língua que só os adultos compreendiam.
Minha avó,
da porta da cozinha, perguntava se tinha notícias de seus irmãos e, mergulhada
no passado, dizia como eram belos, como se eles estivessem ali, materializados
pela carta. Contava causos acontecidos em sua terra distante e cada um descrevia
detalhes de sua cidade natal, de um membro da família, numa mistura de português
e árabe... Depois meu avô guardava a carta com carinho e, durante dias, a relia
sozinho, às vezes sorrindo, às vezes com lágrimas nos olhos, mas sempre me dando
a certeza de que era daqueles estranhos signos desenhados no papel que ele
extraia a força que os imigrantes têm para continuar. E continuava.
Para
mim, criança, o carteiro era um personagem mítico. Quantas janelas se abriam à
sua passagem, quantas esperanças despertavam trazendo ou levando a novidade da
qual é feita a vida, principalmente em uma cidade que nascia e na qual tudo era
novidade!
Meus avós se foram, como se foram seus amigos e seus filhos.
Agora, eu também já velho, compreendo aqueles sentimentos de esperança que
sentiam neste país que construíram para nós e que hoje é meu país. Compreendo o
quanto foram importantes aqueles carteiros. Sei que, ainda hoje, são esses
poetas silenciosos, símbolos da generosidade, que de mãos estendidas nos ajudam
a escrever e ler, diariamente, nossa história. Por isto escrevo esta crônica com
ternura, após ter acompanhado, durante todo o ano a “baixinha” Lucivania,
enfrentando o sol escaldante ou chuva torrencial para trazer, também a mim, um
pouco de minha própria história. A ela, e seus companheiros de trabalho, minha
gratidão.
Acho que foi o carinho que me fez divagar tanto, mas o que eu
quero registrar é minha admiração pelos carteiros tricordianos, que foram
considerados os melhores do Brasil. Quero dizer que meu coração e minha alma
estarão com eles em Brasília, dia 12 e 13, quando receberão as homenagens
oficiais, com a presença do Ministro das Comunicações Hélio Costa e do
Presidente Luís Inácio da Silva Lula. Quero dizer que são eles, os homenageados,
o verdadeiro povo brasileiro, a prova viva de que este é um país generoso e que
sua gente é uma brava gente que nos enche de alegria e, principalmente, de
orgulho.
Serão dias gloriosos. E que esta glória se espalhe por nossa
cidade, nossas ruas, nossas casas e todos os recantos por onde andam os
carteiros tricordianos com sua eficiência e seu prazer de ver o dever cumprido.
A eles nosso reconhecimento. E obrigado, muito obrigado.
(RT, 11 de fevereiro/2006)
CooJornal nº 463
Braz Chediak, cineasta e escritor
Três Corações, MG
brazchediak@gmail.com

Direção e
Editoria
Irene Serra

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