Antonio Nahud
SENTADO EM UM BARRIL DE PÓLVORA |
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O inacreditável aconteceu. A paciência do
pacato sangue brasileiro acabou. De uma hora pra outra. Sem sinais, sem
sintomas. De forma avassaladora, desproporcional. Assustadora. Algo
aconteceu. Uma faísca acendeu um barril de pólvora que parecia estar
eternamente molhada. Não estava. Ontem, finalzinho de tarde, na baiana de
acarajé, falava-se sobre política. Hoje, cedinho, na padaria, discutia-se
o mesmo. Há uma repentina conscientização política. Até pouco tempo atrás,
esse bafafá somente acontecia na boca das eleições. Agora, em qualquer
esquina ou ocasião, fala-se com indignação da corrupção nas altas esferas,
dos impostos injustos que pagamos, da farsa da Copa do Mundo, da astúcia
do voto obrigatório, das artimanhas maquiavélicas do governo petista, do
caos na saúde etc.
O boca a boca cresce a olhos vistos. Se nessa
insatisfação generalizada surgirem líderes carismáticos com poder de
aglutinação social será o estopim de manifestações, passeatas, greves,
vandalismos e até, quem sabe, uma guerra civil. Quem viver verá. A coisa
tá feia. E já repercute lá fora, e vai repercutir ainda mais. O mundo está
vendo. E não vai reconhecer o carnavalesco Brasil. Aquele país
paradisíaco, em que o povo aceitava passivo mandos e desmandos, já não
parece ser o mesmo. A revolta é imprevisível, é verdade. Mas a curto
prazo, vai crescer. Alô politicada. Apertem os cintos. O piloto sumiu.
Imagem: “Teseu e o Minotauro”, de Étienne-Jules Ramey (1796-1852).

Antonio Nahud,
escritor, poeta, jornalista e fotógrafo.
Autor de Ficar Aqui Sem Ser Ouvido Por Ninguém entre vários outros livros RN
https://www.ofalcaomaltes.blogspot.com.br
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Serra

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