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01/10/2025 Ano 29
- Nº 1.477
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Antonio Nahud

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Antonio Nahud Júnior
EU SÓ CONHEÇO ESSE CAMINHO DO PARAÍSO
SER UM VIAJANTE NUMA ESPANHA DE LORCA (13)
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Não conheço ninguém, ninguém me conhece. Como não conheço ninguém e
ninguém me conhece, é quase como não existir. Sou um estranho em uma
grande cidade, flechado por uma sensação assustadora de saber que posso
cair duro no meio da rua e nem uma só alma local notará a ausência.
Assustadora é a sensação do não conhecimento. Atravesso ruas, praças,
bairros, esquinas, becos, viadutos e avenidas, observando os espanhóis,
mentalmente escrevendo um tratado de costumes. Eles não são arrogantes
como os franceses ou esnobes como os ingleses, porém não sabem lidar
solidariamente com o estrangeiro, não foram educados para tal, e voltam-se
integralmente para a ambição de possuir carros, apartamentos; passar
férias na praia ou em um país exótico; sofrer pelas tragédias divulgadas
nos telejornais, o mais distante possível do cotidiano. Como os desejos
burgueses e a defesa emocional não satisfazem o espírito, bebem e fumam
feitos condenados, perdidos como animais domésticos que não sabem o que
fazer depois de bem alimentados. É um povo simpático e pouco profundo com
o próximo, cada um vivendo o seu próprio mundo cinzento, e mesmo a
importância que dão à família merece compaixão, pois não trocam
confidências, não se tocam, não são generosos com as coisas do coração.
Acredito que o contato físico e amoroso, sem entrega total, não vale a
pena. Não gosto do mundo obscuro das emoções divididas. Procuro o claro, o
transparente, a simplicidade. A razão não pode ajudar a decidir o que é
correto, ou possível de fazer. O melhor é seguir o instinto.
Ainda
assim, sou como Ava Gardner, que abandonou o brilho de Hollywood para
viver em Madri por 18 anos, e amo profundamente esse país, consciente das
dificuldades emocionais de uma raça que passou poucas e boas, sobrevivendo
ao rigor católico e à ditadura franquista. Minha fixação pela Espanha é
algo inexplicável. Sinto-me bem aqui. A luz tem um encanto especial, o
idioma sedutor e gutural, o jeito maravilhoso de andar das pessoas. Talvez
procure o cosmos e o que acredito ser a essência do homem: “a natureza
interior”, como costumo chamar. Estou em Madri e não conheço ninguém.
Ninguém me conhece em Madri. Observo cada espanhol, escrevendo mentalmente
um tratado de costumes. Gordos, jovens pintadas, drogados, tatuados,
solitários, executivos insossos, gays ansiosos, senhoras conservadoras,
casais sem amor. Repetem os mesmos atos porque não sabem fazê-lo
diferente.
Estou em Madri e não conheço ninguém e ninguém me
conhece, meu caro leitor. Ilegal, procuro quarto para alugar através de
anúncios em universidades e livrarias, e o resultado é frustrante:
apartamentos sujos, sem iluminação, sufocantes; proprietários neuróticos,
intratáveis, autistas, com uma série de regras fascistas. Estou em Madri e
não conheço ninguém e ninguém me conhece, com o dinheiro contado (minhas
economias e o computador portátil foram roubados em um trem). Todas as
últimas vezes que estive nessa cidade, fiquei em pousadas, e as pessoas
que conhecia, ao morar aqui em 1995, não mais encontro. Elegante,
perfumado, educado, procuro emprego como cozinheiro, garçom ou modelo de
escolas de Belas Artes. “Sinto, o seu perfil é perfeito, porém nada posso
fazer se não tem permissão legal para trabalhar”, dizem. Sigo o caminho,
cruzando os olhos com os olhos de peruanos, colombianos, africanos,
argentinos, búlgaros, russos e toda a gente em busca do paraíso isolado
como insetos nocivos. Estar em Madri é como estar outra vez em Londres, o
peso do cinzento, do vazio interior, o ar asfixiante e pegajoso, o céu que
só muito raramente mostra a cor azul, as estrelas que mais parecem
imitações de péssima qualidade; dia após dia, esse fardo se torna
insuportável.
Para sufocar o grito entalado na garganta, entro em
uma das maravilhas do mundo contemporâneo: o Museu del Prado. Revejo as
salas de escultura clássica grega e romana; a coleção suave de Goya, e
também Velásquez, El Greco; o primeiro Renascimento, Caravaggio, Lucas
Cranach, Duhrer, a pintura flamenca. Encho os olhos de lágrimas com a
visão inacreditável de “O Jardim das Delícias”, de Bosch, e “Sao
Sebastiao”, de Guido Reni. Deixo o Prado e entro no La Reina Sofia.
Procuro “Guernica”, de Picasso; o Brasil representado por Tarsila do
Amaqral; os “riscos de emoção” de Miró; e duas exposições temporárias,
“Roy Lichtenstein: All About Art” e “Luís Buñuel y su Entorno”.
Dos
museus, como uma súbita revelação, parto para Barcelona. Chego em plena
festa de la Mercè, a Virgem padroeira da cidade. No Correfoc (Cospe-fogo
em catalão), trinta e tantos grupos vestidos de dragões, gigantes,
demônios e outros monstros mitológicos, soltam faíscas de fogo.
Transporto-me a um poético filme oriental. Logo 99 barcos, durante 20
minutos, disparam fogos de artifício, em um espetáculo mágico de luz, cor
e música. Foi como nunca. As flores de fogo, as bestas medievais, um sopro
de alívio no coração e a benéfica Barcelona. Nela conheço pessoas
delicadas e algumas pessoas delicadas me conhecem, e novos amigos virão e
um bom novo amigo serei. Ninguém sabe que eu escrevo, que amo e não sou
correspondido, que sou um cigano com o coração em chamas. Estou no meio
das pessoas, sozinho com meu português e comigo mesmo. Agora é lua cheia e
a lua cheia no céu e dentro de mim. Sou todo ondas de luz. Não há porque
perguntar “Onde estão todos? Onde se escondeu a gente que eu quero e que
me quer?”. São perguntas estúpidas. O importante é não perder as
referências, reconhecer o caminho do paraíso; as boas intenções. E assim
sigo, meu caro leitor. Vendo belezas, e emocionado, muito emocionado. Ei,
gente! Ei, mundo! O coração de cristal, rachado, existe. Em outras terras
o paraíso é apenas um sonho. Aqui cada estrela parece surgir de repente,
como um presente dos Anjos, dessa enorme imensidão azul corpo adentro. E
eu vivo para o que der e vier.
de Barcelona (Espanha)
(05 de fevereiro/2005) Rio Total, CooJornal nº 406

Antonio Nahud Júnior,
escritor, poeta, jornalista e fotógrafo.
Autor de Ficar Aqui Sem Ser Ouvido Por Ninguém entre vários outros livros RN
https://www.ofalcaomaltes.blogspot.com.br/
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Direção e Editoria
Irene
Serra

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