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12/07/2003
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Antonio Nahud

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Antonio Nahud
A ALEGRIA DE VIVER |
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Nunca fui de rir muito. Na primeira juventude, não me
interessava por piadas ou humorísticos de tevê, nem ria de doidos, bichas,
bêbados, inválidos e anões como a maioria dos cruéis meninos provincianos
e, no cinema, somente me esbaldava com antigas comédias sofisticadas, de
Howard Hawks a Billy Wilder, ou um ou outro filme italiano. Mas não faço
pose de sisudo, tenho um certo humor sutil e para o meu júbilo sou capaz
de gozar de cerimônias de casamento, formaturas, velórios, discursos
políticos, reality shows e dos meus desacertos e paixões. Nunca tive
favoritismo por escritores bem humorados, mesmo bons como João Ubaldo
Ribeiro ou Henry Fielding, embora goste religiosamente das crônicas
divertidas de Sérgio Augusto ou da acidez hilária de Dorothy Parker,
Mencken e do nosso Paulo Francis. Passei adiante todos os livros de Luis
Fernando Veríssimo que ganhei de presente e o Xangô, do Jô Soares, não
consegui ler mais de cinco páginas. Acho o Jô um chato. Organizando minha
biblioteca, com o propósito de dispor os autores por gênero literário e
ordem alfabética, encontrei a fotografia da jornalista Mayra Lemos tirada
em Barcelona e, imediatamente, admirando o riso escrachado da amiga, numa
selvagem alegria quase impossível, refleti sobre o pouco que rimos. Então
decidi rir um pouco mais. Estou cansado e aborrecido de enfrentar com
severidade a própria vida.
Deus não ri nunca. Talvez ridicularize
na sua intimidade com a estupidez de suas criaturas, como fica claro nos
Provérbios: “também eu darei risada de vossa calamidade” (1,26). Na
Bíblia, o poderoso não dá nenhum maldito riso de alegria, creia-me meu
caro leitor. Tampouco os seus profetas, anjos e santos. O curioso é que
Jesus Cristo também não ri. Em nenhum fragmento dos Evangelhos há rastro
de sorrisos do homem que desejou ser homem: nada, nem mesmo um daqueles
sorrisos de canto de lábios para consolar o melodramático fiel cristão. E
o cômico é uma experiência fundamental e universal dos seres humanos, não
existe nenhuma cultura que não use e abuse dele, até mesmo os portugueses
com a sua dor perpétua sabem sorrir. Todos os homens, inclusive os de bom
coração, já riram alguma vez. Sendo assim, Cristo deveria haver-nos
deixado seu sorriso, já que não pensou duas vezes em deixar para a
posterioridade sua humana cólera e seu humano pranto.
Há toda uma
tradição filosófica e literária de descrédito da risada, muito mais
enraizada que o contrário. Aristóteles, num texto conhecido na Antiguidade
Romana como “De Partibus Animalium”, já fazia observação sobre o riso.
Apesar do riso dos deuses homéricos, que não viam grandes
incompatibilidades entre a gargalhada e as obrigações de seu cargo, vingou
a idéia que a risada, assim como a fantasia, tem um papel perturbador que
o torna inconveniente para o perfeito funcionamento não só para a
República dos homens como para o próprio Paraíso de Deus. O riso durante
muito tempo foi marginalizado, convertido em algo que nos aproximava dos
animais. Médicos estudaram o fenômeno, como o francês Laurent Joubert, que
escreveu em 1579, “Tratado do Riso”. Descartes analisou o lugar do riso
entre as emoções e autores humanistas enfatizaram que o riso é sinal de
desprezo. Baudelaire extraiu uma conclusão mórbida: se Deus não ri, o
riso, sem deixar de ser profundamente humano, está envolvido com o
satânico. Não é necessário ser tão radical, o riso diabólico dos ateus
Gregório de Mattos e Ivan Karamazov não é o único riso possível. Cervantes
ensinou que devemos gracejar de nós mesmos, da nossa peculiar e ridícula
condição humana. Já Mona Lisa (1503-06), a Gioconda de Da Vinci, desde o
Renascimento vem divulgando o sorriso mais enigmático e célebre da
história das artes.
No início da época moderna, o sorriso foi
considerado nobre e o riso vulgar, ou seja, neste último há sempre a
intenção de escárnio ou zombaria. O primeiro definiu-se como inteligente e
elegante, já o segundo não era considerado de bom gosto. Autores cômicos
como Ben Johnson, Molière, John Ford ou Shakespeare, levavam o público ao
delírio cômico satirizando avarentos, hipócritas e vaidosos. Em um dos
livros do Lord Chesterfield, este recomenda a seu filho que evite a risada
porque é um sinal de grosseria, longe do que se espera da gente bem
educada. Uma austeridade absurda que exigia o homem como figura artificial
e estática. A risada só adquiriu o seu pedigree no romantismo. Liberado e
santificado, tornou-se subversão contra os podres poderes, protesto contra
as tristezas do cotidiano, o verdadeiro chute no pau da barraca. Um dos
padrinhos do riso moderno foi o Zaratustra nietzscheano, para quem toda
verdade é falsa se não vem acompanhada ao menos de um sorriso, um
procedimento muito mais eficaz que a ira. O jornalista iconoclasta H. L.
Mencken (1880-1958), escrevendo colunas semanais de 1904 a 1948, além de
publicar dois a três livros por ano, provocou muitas risadas ao criticar o
homem comum norte-americano, escravizado por ambições baratas,
superstições e medos.
O sorriso é uma expressão natural de prazer
e, especialmente, de cumplicidade. É o sinal de uma certa jovialidade e um
certo ânimo alegre que o homem sente no interior de sua mente. O sorriso
pode inclusive expressar amor. Todos sabemos que existem diferentes tipos
de riso. Pode-se rir por desespero, como alguns personagens de Beckett,
por incredulidade, por desprezo, por medo, por pura alegria. Tenho uma
amiga, Corina, que ri até as lágrimas, mas nunca sei se realmente está
feliz ou é um descontrole grotesco do espírito. À caminho do trabalho,
venho no mesmo automóvel que um gordo engenheiro, e ele me surpreende com
o seu perpétuo bom humor, mesmo enfrentando uma série de problemas de
saúde e financeiro. Não sei de quê ou porque estava rindo a bela Mayra na
fotografia que provocou esse passeio pelo sorriso. Porém, confesso, nesses
tempos de mediocridade e ignorância generalizada, tenho vontade de rir um
pouco mais. Na realidade, e pedindo perdão pela tristeza, tenho encontrado
a humanidade tão risível, tola e ridícula, que eu mesmo riria da minha
própria cara. Como disse o sociólogo Edgar Morin “Não sou otimista nem
pessimista. Penso que caminhamos para prováveis catástrofes, mas pode ser
que o improvável aconteça, como já foi muitas vezes o caso na história”. E
terminando estas linhas, deixo para você caro leitor, o meu sorriso, mesmo
não garantindo o gracejo de bom humor e benevolência. Talvez tenha o
temperamento frio e seco e, portanto, “dotado de coração pequeno e duro”,
como teorizou o médico Laurent Joubert, diagnosticando que é especialmente
benéfico incentivar a alegria nos indivíduos de tal atitude. Está correto?
Pode ser, mas quero o que toda a humanidade quer: a alegria de viver. A
única maneira de alcançar esse objetivo será sentir-me comovido com o
mundo a minha volta. Só assim virá o sorriso e não só o riso.
Referências Sérgio Augusto: O Lado B. Companhia das Letras, 2001.
Charles Baudelaire: “Da Essência do Riso/De l´essence du rire et
généralement du comique dans lês arts plastiques”. 1855. Richard
Burton: A Anatomia da Melancolia. 1621.. Ruy Castro: “A Mente
Iconoclasta” em O Livro dos Insultos. Círculo do Livro. São Paulo. Lord
Chesterfield: The Letters of the Earl of Chesterfield to His Son. Ed.
Charles Strachey. Methuen, Londres, 1924. Descartes: As Paixões da
Alma. 1648. Henry Fielding: Joseph Andrews. H. L. Mencken: O Livro
dos Insultos / A Mencken Chrestomathy. Círculo do Livro. São Paulo.
Daniel Piza: O Dicionário da Corte de Paulo Francis. Companhia das Letras,
1997. François Rebelais: Pantraguel. 1533. Quentin Skinner: “A Arma
do Riso”. Mais!, Folha de S. Paulo, 2002..

Antonio Nahud,
escritor, poeta, jornalista e fotógrafo.
Autor de Ficar Aqui Sem Ser Ouvido Por Ninguém entre vários outros livros RN
https://www.ofalcaomaltes.blogspot.com.br/
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Direção e Editoria
Irene
Serra

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