Antonio Nahud
OS DEUSES E OS MORTOS: A SAGA DO CACAU |
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Recordados como saudosos heróis ou
sanguinários vilões, os coronéis - como eram conhecidos os grandes
proprietários de fazendas da época de ouro do cacau - não são frutos da
ficção engenhosa de Jorge Amado, Adonias Filho ou Euclides Neto.
Libertinos, violentos, desalmados, sagazes, impiedosos ou ambiciosos? Com
certeza tudo isso. No entanto, esses lendários e rudes homens que
desbravaram o sul da Bahia, no final do século 19, enfrentaram desafios
homéricos, lutando contra a natureza bruta, conhecendo a fartura e fazendo
história. Pela posse de terras, utilizaram o trabalho honesto, a dominação
pela força e regras acima das leis. Instigaram caxixes e tocaias, crimes
abomináveis, mas começaram pobres e sem instrução, subindo na vida pegando
no facão, na espingarda papo amarelo, alimentando-se de carne seca,
farinha e rapadura; embrenhando-se na floresta hostil, onde a desmatavam e
implantavam a monocultura em meio a Mata Atlântica; morando em casebres e
dormindo em redes, antes de atingir as pompas do coronelismo.
Em
“Terras do Sem Fim” (1942) e “Tocaia Grande” (1984), celebrados romances
de Jorge Amado, encontramos a descrição deste processo de ocupação, da
luta pela terra, da disputa entre vizinhos. Foi a partir desse clima de
contendas e desconforto, em meio ao perigo, aos índios, animais selvagens
e doenças, que surgiu a personalidade mítica dos destemidos coronéis.
Através deles e de milhares de humilhados ou massacrados, que não tiveram
a mesma sorte, vilas e cidades nasceram para a glória da região dos frutos
de ouro, como eram conhecidas as amêndoas do cacaueiro. Os coronéis
transformaram esses lugares em palco para seus mandos, se fazendo
obedecer, elegendo representantes políticos, usurpando propriedades,
manipulando as autoridades e, quando isso não saciava sua cobiça, mandavam
jagunços assassinar os pequenos cacauicultores em emboscadas, ou muitas
vezes esses acossados acabavam trabalhando para os próprios perseguidores,
e conseqüentemente perdiam as suas roças. Temidos, às vezes admirados,
eram ativos participantes da vida social grapiúna (*), líderes legitimados
pelo voto, quase sempre conquistado pela força do dinheiro, das armas ou
do domínio das instâncias públicas – como a justiça, a polícia e a
cobrança de impostos. Ao longo do tempo, tornaram-se também comerciantes,
juntando as duas principais atividades da exploração do cacau.
Eles
não tinham limite de gastos: bebiam champanhe francês nos bares como
aperitivo, perdiam fortunas na jogatina, freqüentavam cabarés, acendiam
charutos com notas de quinhentos mil-réis e bancavam luxuosamente
prostitutas estrangeiras. Sinônimo de prosperidade, seus palacetes eram
sobrados faustosos e mobiliados com requinte europeu. Viviam no mais alto
estilo. Os trabalhadores, vindos dos sertões da Bahia e de Sergipe,
ficavam assustados com tudo o que viam: da exuberância da natureza à
violência da conquista. Eram oprimidos de todas as formas: no salário que
mal recebiam e tinham que devolver quando compravam, a preços extorsivos,
gêneros de primeira necessidade no barracão do dono da fazenda; nas
jornadas excessivas de trabalho; na ausência de serviços básicos, como
educação e saúde.
A fama de Ilhéus e Itabuna correu mundo. Junto
com ela chegaram imigrantes, principalmente turcos e libaneses, que
sobreviviam como mascates, indo de fazenda em fazenda vendendo de tudo, e
imprimindo a culinária árabe como uma das características da região
cacaueira baiana. Os navios aportavam cheios de aventureiros em busca de
riqueza fácil. Outros se deslocavam em animais ou mesmo em longas
caminhadas, todos à procura do lucro certo, transformando a sociedade
grapiúna em um misto de sotaques. No auge da lavoura do cacau, o sul da
Bahia chegou a ser responsável por 40% da atividade financeira do Estado,
num lucro inegável. Hoje, os coronéis, ex-deuses, são relíquias do passado
e o cultivo do cacau passou da opulência à decadência. Porém, a saga dos
plantadores de cacau dificilmente será esquecida, graças aos populares
romances do itabunense Jorge Amado a aventura de uma pequena região se
tornou conhecida em todo o Brasil e no estrangeiro, numa narrativa
sedutora que relembra riquezas fundadas em episódios sangrentos, atentados
e arruaças.
(*) Grapiúna significa aquele que nasce no sul da
Bahia. A designação tem origem tupi, sendo corruptela de igarapé-una
(igarapé, pequeno rio; una, preta) ou de igaraúna (igara, canoa; una,
preta) com a queda da vogal e a contração das sílabas gara.
Saiba
Mais Sobre o Tema em: “Os Coronéis do Cacau” (1995), de Gustavo Falcón;
“Tensões do Tempo: A Saga do Cacau na Ficção de Jorge Amado” (2001), de
Antonio Pereira Souza
(Rio Total, 03 de julho/2010) CooJornal no
691

Antonio Nahud,
escritor, poeta, jornalista e fotógrafo.
Autor de Ficar Aqui Sem Ser Ouvido Por Ninguém entre vários outros livros RN
https://www.ofalcaomaltes.blogspot.com.br
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