Antonio Nahud
A ILUSÃO VIAJA DE TREM |
|
para
Diógenes da Cunha Lima “Para onde vão os trens, meu pai? Para
Mahal,Tami, para Camiri, espaços no mapa, e depois o pai ria: também
para lugar nenhum, meu filho, tu podes ir e ainda que se mova o trem tu
não te moves de ti” (Qadós, Hilda Hilst)
Tomei o trem em
direção a Fez, pretendendo visitar o amigo Rachid Bendai, um escritor dono
de uma loja de alumínios. Conheci o simpático beribéri anos antes, ao
perder-me no bairro judeu em busca da fonte Najjarine, e nunca mais
deixamos de trocar cartas fraternas, quase surrealistas na sua mistura de
espanhol, francês e português. Fez, uma das cidades mais lúdicas que
conheci nos muitos anos de viajante, não tem nada do glamour afetado da
novela “O Clone”. É espiritual, simplória, perdida no tempo. Instalei-me
na cabine espaçosa, decadente, resquício da luxúria abusada dos
colonizadores franceses. Do corredor, surgiram cabeças, olhos, animais,
policiais sebosos, traficantes de haxixe, balbúrdia. Como a viagem seria
longa, aproveitei para rabiscar considerações poéticas para um suplemento
literário argentino. Sendo eu mesmo poeta, entendi que não podia escrever
tal artigo, afinal há inúmeras formas de trabalhar versos, e cada qual usa
aquela que se harmoniza com a sua sensibilidade e preferência, escrevendo
da maneira que julgar mais correta.
Pensava numa saída, quando um
homenzinho nervoso e asqueroso sentou-se na poltrona em frente.
Apresentou-se em espanhol, e depois de um olhar ambíguo contou sua
história: “Sou marroquino, mas vivo na Andaluzia. Estou de volta para o
casamento de um primo. Serão três dias de festas, os homens numa casa e as
mulheres noutra. Três dias de muita comida, dança, canto e haxixe. Você é
meu convidado”. Nada respondi, percebendo os sinais anunciadores da
presença do mau-olhado. Fechando os olhos, fingi um sono improvável,
concentrando-me no barulho das rodas nos trilhos. Na primeira vez que
tomei um trem, dos cafundós da Galícia para Lisboa, senti um prazer vivo,
um perfume quente subindo por todo o corpo. Os vagões lotados de
barulhentos pracinhas, que cantavam e falavam alto, como num antigo
musical. Não era o trem que levava os milhares de judeus para os fornos
crematórios da infame Segunda Guerra Mundial, tampouco o que esmagou a
beleza insatisfeita da heroína Anna Karenina. Seria mais fácil encontrar a
cantora Sugar Kane de Marilyn Monroe atravessando os corredores e
provocando assobios com o seu rebolado único. Sempre gostei de filmes
passados em trens, como o de Buñuel, o de Chéreau, o de Hitchcock com o
pacto dúbio entre os protagonistas. Abri os olhos e Hadj Mohamed – sim,
era o nome do infeliz – tinha o meu livro de Tahar Ben Jelloun nas mãos.
Pedi o livro de volta, revelando de supetão a língua portuguesa.
Devolveu o livro, jurando amor eterno pelo futebol brasileiro. Não gosto
de jogos, escapam-me alguma coisa. É uma paixão que não compreendo. Não me
animo nem com as copas e suas centenas de bandeiras estampadas em corpos
morenos, penduradas nas janelas dos prédios e agitadas por meninos que nem
sabem ler ou escrever. “É comovente esse amor à pátria”, escreveu um
familiar. Resmungo entediado contra esse patriotismo fajuto, rasteiro, se
existe patriotismo de outra espécie. Basta ver no que deu o fervor nazista
ou a ira dos norte-americanos contra os afegãos. Não é tempo de bandeiras,
é tempo de solidariedade e descobertas. Tenho algumas vezes a curiosidade
de saber o que fazem depois com tantas bandeiras e camisetas
verde-amarelas. Continuarão usando-as nas praias, shopping-centers,
semáforos ou estarão condenadas a pano de chão? Considero aborrecida e
primitiva essa onda de patriotismo que varre certas mentes. É uma máscara
imposta para esconder dificuldades terríveis, o caminho mais curto para
apoiar a demência de insanos como Bush. “Não me interesso por futebol”,
deixei claro para o estranho.
O manhoso Mohamed continuou falando
sem parar, exaltando a beleza da sua terra, a sua cultura, as suas
referências e os inúmeros pintores e escritores que passam temporada nela.
Uma fala incansável, lenta, talvez uma oração, uma hipnose, sempre
afirmando “Você irá para a festa do meu primo”. “Tenho pessoas à minha
espera em Fez”, rebatia, nunca lhe chamando pelo nome. Nomeá-lo seria
reconhecê-lo e respeitá-lo. A tal celebração matrimonial aconteceria numa
cidadezinha, Asilah, no início do trajeto que eu pretendia. Ele desenhava
verbalmente a magia do lugar, as praias exuberantes, o oásis de palmeiras
e laranjeiras. Sabia da sedução da branca Asilah, mas repetia dominado por
uma leve febre e lassidão: “Muito grato, irei para Fez”. O sol torrava
inclemente o deserto visto através da janela. Surgiam também ilhas verdes
com soberanas palmeiras. Representantes da lei examinaram o meu
passaporte, perguntando o que fazia no Marrocos. “Sou jornalista, vim
visitar amigos em Fez e depois entrevistar o escritor espanhol Juan
Goytysolo em Marrakech”. Eles me deixaram em paz, mas os olhos da bizarra
figura brilharam. “Não pense que tenho dinheiro, que sou um jornalista
famoso. Sou um duro, o meu país é tão pobre como o seu. É por isso que
viajo neste trem em ruínas”, exagerei. Mohamed calou-se por alguns
minutos, examinando a situação. Aproveitei o silêncio repentino para
lembrar-me de uma viagem de trem pelos Alpes Suíços, no Bernina Express,
percorrendo 145 km.
Uma das viagens de trem mais impressionantes do
meu histórico aventureiro. Em seu trajeto, passei por 102 pontes, túneis,
precipícios, belos vales, névoas, densas florestas, lagos e no ponto mais
alto da estrada de ferro, o imponente mundo das montanhas, com seus picos
cobertos de neves. Partimos de Chur, uma das mais antigas cidades da
Suíça, com cerca de cinco mil anos. Como fui feliz! Imitando Hercule
Poirot em “Assassinato no Expresso do Oriente”, examinei minuciosamente
cada passageiro. Um sonho realizado, pois nunca compreendi o extermínio
dos trens no Brasil, um país com distâncias tão longínquas. Quando
criança, atravessando os trilhos da cidade natal, perguntava a babá onde o
trem se escondia, e ela respondia: “Partiu para o infinito de Deus e
perdeu-se, não conseguindo encontrar o caminho de volta”. Acreditava
piamente. Na região de Graubunden, conhecida pelos vinhos de excelente
qualidade, o Bernina Express parou por 15 minutos. Ao seu lado, o Glacier
Express, vindo de Zermatt em direção a St. Moritz. Tirei uma fotografia do
jovem cobrador, e sorridente ele convidou-me para tomar chocolate. Segui o
louro de olhos verdes até um dos escritórios da estação. Fiquei observando
as paredes decoradas por cartazes turísticos dos Alpes Suíços. Ele serviu
o chocolate, sentou-se numa cadeira rústica do outro lado da sala, abriu
as pernas e a braguilha, e masturbou-se, sem dizer uma palavra. Tomei o
chocolate quente, assistindo ao espetáculo inusitado. O primeiro sinal de
partida anunciou-se, agradeci a oferta e voltei para o Bernina. Horas
depois, ao encontrá-lo, fez de conta que nunca tinha me visto. Achei
divertido, mais uma história para o meu diário. Mohamed despertou-me das
lúbricas recordações, puxando-me pelo braço, avisando que havíamos
chegado, enquanto retirava a minha mochila do bagageiro. Tomei-a de volta
e, sonolento, segui para uma das saídas, ao lado da cabine.
As
descer, avistei a estação semi-abandonada, um dromedário coberto de
moscas, arriado no chão, e um táxi negro, dos anos 50. O trem partiu
deixando-me na solidão do deserto. O vigarista atrás de mim. “Onde
estou?”, perguntei. “Asilah”, respondeu com um sorriso cínico. “Não
estamos em Asilah. Não sou tolo. E o mar?”. “Logo ali, vamos tomar um
táxi”, disse apontando as areias escaldantes, sem nenhum sinal de
edificações ou do mar. “Vou para Fez”, afirmei decidido, entrando no
prédio num finalzinho de tarde. O próximo trem só passaria às 5 da manhã.
Em pânico, vivenciei uma das minhas piores noites. Muitas horas não
perdendo a mochila de vista, recusando ofertas de hospedagem do bandido,
repetindo que não tinha dinheiro. A pequena cidade que se passava por
Asilah era horrível, pobre e suja, com apenas uma pequena Medina. Não
encontrei turistas, consulados ou hotéis. Depois de três ou quatro horas
tendo Hadj Mohamed como sombra, consegui escapar assim que entrou num
banho público para falar com um parente. Corri como um louco pelas ruas
labirínticas, escondendo-me no jardim das Bruxas à saída da cidade. Não
consegui pregar os olhos, atento aos ruídos noturnos. A memória reavivava
casos de pessoas desaparecidas de uma hora para outra no Marrocos e nunca
mais encontradas. Faltando pouco para o amanhecer caminhei até a estação,
pegando carona no caminho com um carroceiro muitíssimo idoso. Ainda
filosofei sobre a velhice, tratando-a como um mal-entendido entre o corpo
e o espírito, entre o corpo e o tempo, mas o coração pulsava forte,
temendo a visão do magro e diabólico grilo falante. Quando o trem surgiu,
teve o mesmo efeito de um milagre. Chorando, ajoelhei-me na areia áspera e
agradeci ao Profeta Maomet, teria mais algum tempo para viver entre
pessoas cheias da sua importância, contentes delas próprias, bem
instaladas nas suas certezas e na sua mediocridade. Logo voltaria para o
Brasil, antes, eu e a ilusão continuaríamos a viagem de trem para Fez e a
seguir, Marrakech.
(01 de março/2003) CooJornal nº 304

Antonio Nahud,
escritor, poeta, jornalista e fotógrafo.
Autor de Ficar Aqui Sem Ser Ouvido Por Ninguém entre vários outros livros RN
https://www.ofalcaomaltes.blogspot.com.br
Direitos Reservados. É proibida a reprodução deste artigo sem autorização do autor.

Direção e Editoria
Irene
Serra

|