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18 de maio, 2002
Nº 259
Arquivo
Antonio Nahud

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Antonio Nahud Júnior
Pequenas Histórias Sobre o Delírio Peculiar Humano
06.
OS ENGANOS DO CORAÇÃO
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Está cada vez mais próxima da avó que
morrera, aos 87 anos, depois de dois meses imóvel numa cama. Repetindo
atos domésticos da velha senhora, assusta-se, pois nesses momentos não
sabe bem se ela ou a avó é a viva. A irmã caprichosa disse-lhe que ela não
consegue resolver os traumas de infância, fermentando conflitos internos,
uma dor incalculável. Não respondeu-a, evitando polêmicas, mas meu Deus,
como está enganada! Os tormentos íntimos familiares estão longe, viraram
pó com a passagem do tempo, não há mágoa ou rancor. O fato é que atravessa
a terra estranha da não identidade, enxergando a vida com os mesmos olhos
da avó: uma solidão constrangedora, um vazio maior que o horizonte
longínquo. Evita as línguas mentirosas, os rostos repuxados, os
raciocínios que chicoteiam. Repele as palavras ridículas, movediças,
grotescas. Procura ignorar a condenação de todos, que arrastam pelos dias
uma competição interminável. Não está triste nem deprimida, subitamente
descobriu que os autênticos tem êxito somente na solidão.
Voltou
do Rio de Janeiro vinte anos depois da partida, como uma Tieta revisitada,
com os olhos bem abertos, disposta a conquistar a todos os que amava, e
constatou em poucas semanas que nada é para sempre, não há retorno, e o
pior, com o passar dos anos os sentimentos são atropelados, restando
interesses privados. A desarmonia e a mesquinhez dos tios paternos,
resultando em mortes inesperadas e falências profissionais-psicológicas
individuais, se repetem entre seus irmãos indiferentes, embora
comportem-se como se tudo estivesse perfeitamente bem, e quando abrem a
boca para apontar a falha de um outro, não doam o coração para qualquer
espécie de alívio. Derramam-se em ambíguas oscilações e vibrações de
simpatia. Estão dilacerados pela cobiça, curiosidade inoportuna e desejos
fúteis.
A chegada inesperada dela deixou-os "arrepiados" e se não
expressaram verbalmente o desencanto, foi por temer ofendê-la, pois mesmo
sendo uma prostituta aposentada tem bons relacionamentos. Não ficou na
cidade natal para não estar próxima da família ou dos antigos amigos.
Seria incômodo para todos. Não pediu nada. Chegou; não foi aceita. Está
satisfeita com a liberdade da solidão, não se arrepende de nada que fez.
Perto deles ela é uma inconveniente, um ser das trevas, uma mulher
escultural que vendeu-se. Findou-se o amor pelas sete criaturas do seu
próprio sangue e nada fará para voltar a vê-los, mesmo desejando o melhor
para as suas vidas direcionadas para a moral e a aparência.
Antes
amava profundamente os dois mais novos, Angélica e Giancarlo, seres
frágeis e inteligentes, mas esses seguiram um caminho espinhoso,
tornando-se irreconhecíveis, estranhos, habitantes de um mundo incrível
onde só cabe os dois e mais ninguém. Um clube cheio de regras, códigos e
perfeições, proibido para sócios falhados. Giancarlo é incapaz de abrir a
boca para falar sobre a sua homossexualidade, como se a irmã fosse uma
tola, e mesmo assim prega a sinceridade. "Que contraditório!", crê.
Angélica pede-lhe que não deixe escapar para os parentes, o passado de
luxúria, vícios e dificuldades. Olhou-a com compaixão. Num mundo à beira
do caos, ainda há gente preocupada com valores hipócritas.
Como a
avó magra e energética, deixou de confiar em possíveis amizades. Todos os
amigos amados desapareceram. Não houve brigas, é uma mulher calma, apenas
enxergou o mesmo visto no espírito dos irmãos: ninguém gosta
desinteressadamente de ninguém. O que havia dentro deles de luz, de
chispas brilhantes, não mais chega à superfície. Reencontrou um antigo
namorado de juventude, Julião, em pleno carnaval, e passaram a trocar
correspondência eletrônica. Falam de amor, solidariedade e o ex promete
uma visita dentro de semanas. Não se entusiasmou, embora lembre
perfeitamente como ele cuidava dela, incentivando o seu talento natural
para a pintura e procurando vê-la sorrir. Não casou; disse que nunca a
esqueceu, e ela sorriu irônica, incrédula de uma existência com toques de
novela de tevê. Passa horas solitárias na casa à beira mar, aprendendo a
falar com as plantas, a noite, o mar, o sol e as estrelas. Apaga do
coração a convivência humana e se vê meio fantasma. Sem queixas, conta
suas sensações para um desconhecido sem rosto encontrado num chat. Não
quer morrer de melancolia como a avó, e luta contra essa característica da
sua natureza. O problema é que não se conforma com os valores
materialistas e nada solidários dos homens. "Não há a consciência da nossa
passagem efêmera , não olham para trás, repetem os mesmos erros de
gerações anteriores", escreveu num caderno de notas. Depois do fogo da
juventude, encontra relíquias dela mesmo por todas as partes. Não tem
individualidade e não é completa. O mundo está exposto e ela também, de
modo que caminha sem disfarces. Num acesso de emoção contempla a paisagem
azul e chora, uma paisagem distante, um horizonte abstrato não maculado
pela corrupção dos valores regulamentados e falsos. É quando acredita que
existe um mundo imune às transformações. Os homens que roubam a beleza
passam, o frescor natural permanece.

Antonio Nahud Júnior,
escritor, poeta, jornalista e fotógrafo.
Autor de Ficar Aqui Sem Ser Ouvido Por Ninguém entre vários outros livros RN
https://www.ofalcaomaltes.blogspot.com.br/
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Direção e Editoria
Irene
Serra

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