Antonio Nahud
¡EL FLAMENCO VIVE! |
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O flamenco é um estilo musical e
um tipo de dança que se tornou um dos ícones da cultura espanhola. Dando
voz a raça cigana e guardando seus mitos, comumente é entendido como uma
feliz e colorida manifestação de música e dança, mas na verdade trata-se
de uma expressão artística do sofrimento e da angústia. Suas origens
remetem à linguagem e às tradições dos ciganos da Andaluzia, cujas crenças
e medos eram divulgados em uma performance que empregava uma complexa
mitologia para narrar a história de sua marginalização e as angústias
sociais advindas daí. De origem indiana, esses ciganos se ligaram aos
exércitos árabes que se deslocavam rumo ao norte da África servindo como
ferreiros, cozinheiros e animadores. Do Egito, de onde vem seu nome - em
espanhol, gitano é corruptela de egípcio -, partiram para a Espanha em
1462, enfrentando o racismo atiçado pela propaganda católica, que os
acusava de bruxaria e canibalismo. Foram perseguidos e escravizados.
Anistiados, foram viver na quente e fértil Andaluzia, prosperando como
adivinhos e músicos.
Mantendo relações cordiais com a população
local, ao mesmo tempo preservavam seus costumes, língua, música, dança e
tradições orais na intimidade de seus lares. Com base nas lembranças
indianas, os músicos, cantores e dançarinos ciganos desenvolveram um
estilo que superou a música folclórica tradicional. Em meados do século
19, profissionais se apresentavam nos palcos de cafés e tablaos
(restaurantes com palco). Durante a ditadura, houve um esforço para
impedir os ciganos de interpretar músicas e danças identificadas com a
cultura espanhola, mas, quando o flamenco e a música folclórica mostraram
ser inseparáveis, essa política foi alterada, e o governo passou a
reivindicar o flamenco como manifestação nativa da cultura espanhola. Após
a ditadura, o flamenco autêntico renasceu graças aos ciganos que migraram
do campo para os arredores de Madri e ao surgimento de figuras lendárias
como o cantor Camarón de la Isla; os violonistas Paco de Lucía e Tomatito;
os bailarinos Antonio Gades e Cristina Hoyos.
Originalmente, o
flamenco consistia apenas de canto (cante) sem acompanhamento. Depois
começou a ser acompanhado por guitarra (toque), palmas, sapateado e dança
(baile). Mais recentemente outros instrumentos como o “cájon” (uma caixa
de madeira usada como percussão) e as castanholas foram também
introduzidos. Na dança, os bailarinos genuínos quase não de movem do
lugar, acompanhando a música com movimentos de braços e mãos. É uma dança
eminentemente plástica, solitária, que expressa intensas paixões. É
necessário um grande senso de ritmo e um temperamento peculiar para
compenetrar-se e sentir a música. O que os flamencos chamam, com uma
palavra muito profunda, estar "interao". No flamenco contemporâneo, se
destacam o ídolo cantaor Enrique Morente e o guitarrista Vicente Amigo.
Nas vozes femininas, as tradicionais Niña Pastori e Carmen Linares, a
mourisca Estrella Morente e os ritmos contagiantes de Niña Pastori. Numa
fusão inovadora de flamenco com ritmos cubanos, brilham Bebo & Cigala, e
com sons árabes, Lole y Manuel – tão pop que figuram na trilha sonora de
“Kid Bill - Vol.II”, de Quentin Tarantino. Na dança, Carmen Amaya, Carlos
Vargas, Sara Baras Carmona e Joaquin Córtez seduzem nos tablados. Os
mitólogicos Cristina Hoyos e Antonio Gades dançaram juntos durante muitos
anos, filmando também êxitos de Carlos Saura: “Bodas de Sangre” (1981),
“Carmen” (1983) e “El Amor Brujo” (1986). Sem dúvidas, o flamenco é uma
marca indelével da criatividade e da beleza da arte espanhola.
(Fonte: Vicente Marrero, “El Enigma de España em la Danza Española’, de
Vicente Marrero, e “El Flamenco”, de Angel Alvarez Caballero)
(Rio Total, 31
de julho/2010) CooJornal nº 695.

Antonio Nahud,
escritor, poeta, jornalista e fotógrafo.
Autor de Ficar Aqui Sem Ser Ouvido Por Ninguém entre vários outros livros RN
https://www.ofalcaomaltes.blogspot.com.br
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