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20/04/2002
Nº 255
Arquivo
Antonio Nahud
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Antonio Nahud Júnior
KAZUO ISHIGURO: "NÃO ENTENDO KAFKA PERFEITAMENTE"
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É
uma criação clara, excêntrica e arriscada. Um dos principais escritores da
nova narrativa britânica. Cheio de metáforas orientais. Nascido no Japão,
em Nagasaki, Kazuo Ishiguro reside desde os seis anos na Inglaterra e
obteve o Brooker Prizer com sua terceira novela, Os Vestígios do Dia
(1989), que foi filmado com grande sucesso por James Ivory, com Anthony
Hopkins fazendo o mordomo Stevens. Irritado com a projeção excessiva
gerada pelo filme, escreveu seis anos depois, Os Inconsoláveis, uma novela
que rompe com as obras anteriores do autor, recebendo críticas negativas:
num país imaginário, um pianista famoso enfrenta a complexidade do mundo
atual, na economia e na política, e as frustrações humanas.
Seus
dois primeiros livros, Pálida Luz nas Colinas (1982) e Um Artista do Mundo
Flutuante (1986) foram número um em vendas em seu país, assim como todos
os outros. Aos 48 anos, a fama parece não tê-lo afetado, passando uma
nítida sinceridade, além de tranquilidade e inteligência precisa. Em
Barcelona para o lançamento de Quando Fomos Órfãos (2000), falou de
literatura, dos ingleses e do sucesso. A obra narra as aventuras de um
detetive inglês, nascido em Shanghai, angustiado com as recordações do
desaparecimento dos seus pais, sequestrados a um quarto de século, que
resolve voltar a cidade chinesa para localizá-los. Mas como toda a criação
de Ishiguro, vai muito mais fundo do que uma inquietante história.
Antonio Nahud – Quando Fomos Órfãos reafirma o valor da memória, do
passado. É um questionamento fundamental para sua obra?
Kazuo
Ishiguro – A memória é um dos meus temas preferidos. É um filtro muito
interessante do nebuloso. Normalmente as pessoas negam o passado ou tem
leituras muito particulares dele. É impressionante como a gente mente para
si mesmo. Com os meus personagens procuro desvendar esse conflito com o
passado. Examinando as recordações de alguém, encontramos o que quer
esconder e o que está mais orgulhoso, o que é e o que gostaria de ter
sido. Penso que grande parte do que aconteceu na nossa infância permanece
em nossos corações para sempre. Escrevi esta novela interessado no passado
como algo que permanece dentre de nós e nos aprisiona.
AN – Então o
que busca é a memória real, absolutamente sincera? Porque existem fatores
além da nossa compreensão que vetam o retorno dessa imagem na sua real
exatidão.
KI – Evidente, principalmente quando houve um passado
sofrido, duro. Muita gente nunca consegue analisar completamente a sua
própria história e outros ficam na dúvida se vale a pena ou não
enfrentá-la, recordando apenas trechos. Eu acho que não importam os
fracassos que cada um teve, pois sempre há dignidade em encontrar a força
para enfrentar os próprios fantasmas. O detetive que protagoniza essa
novela, Christopher, é assim.
AN – A sua novela anterior foi
comparada a Kafka. Por que não aceitou a comparação? Não gosta de Kafka?
KI – Não é isso. Sou um admirador de Kafka, me parece interessante,
porém não o entendo perfeitamente. Não vejo sua literatura com claridade.
Portanto, como uma novela minha pareceria com o estilo kafkaniano? Talvez
tenha a ver com o espaço onde situo essa novela, um mundo onírico. Mas não
tenho nem os antecendentes nem a tradição de Kafka. Meus sentimentos não
são kafkanianos. Em minhas primeiras obras me compararam com os escritores
japoneses porque escrevia sobre o Japão e, nas novelas posteriores a
outros contemporâneos porque narrava a sociedade inglesa. São comparações
pouco consistentes.
AN – Qual o escritor que se sente mais próximo?
KI – Emocionalmente me sinto mais próximo de Nabokov.
AN – Fica
ferido com críticas negativas ou confusas?
KI – Não, inclusive
prefiro que as críticas a respeito das minhas novelas não sejam unânimes,
para ver meus erros. Sinto pena dos autores que só recebem críticas
positivas e, em consequência, ficam prisioneiros dessa reação benéfica.
AN – Gostou da adaptação cinematográfica de James Ivory para Os
Vestígios do Dia?
KI – Gostei muito. Quando pediram para filmá-lo,
pedi apenas que fizesse o melhor possível e conservassem o título do
livro, mas não acreditava no resultado. Pensava que ninguém poderia levar
às telas o mundo interior dos meus personagens. E Anthony Hopkins o
conseguiu. Agora já não sei o que dizer. O filme também é bastante fiel ao
livro. O que não gostei foi da popularidade a que fui lançado, apesar de
passar a vender muito mais.
AN – Por que faz questão de mudar o
processo criativo de um trabalho para outro?
KI – À medida que
envelhecemos, as coisas mudam. Eu não quero ter a sensação de estar
utilizando as coisas que funcionaram numa obra anterior, principalmente
porque os anos passaram e já sou uma pessoa diferente, o que quero dizer é
diferente. Não pretendo tornar-me um escritor folgado que utiliza as
mesmas coisas.
AN – Se queixa da popularidade alcançada depois de
Os Vestígios do Dia e relatou o pesadelo do sucesso em Os Inconsoláveis.
Acha realmente difícil conviver com a fama?
KI – É que se gasta um
tempo excessivo com esse processo, um tempo que poderia ser voltado para a
própria criação literária. São muitas entrevistas, muitas viagens para
promover a obra. Exatamente isto que estou fazendo agora. Nos Estados
Unidos, é quase uma obsessão. Alguns escritores levam quatro meses fazendo
esse tipo de trabalho. Por exemplo, a escritora Amy Tan me disse que o seu
editor enviou-a para uma série de viagens de divulgação de sua obra por
seis meses. Estava cansada, sem ânimo, e além do mais tinha um contrato
para entregar uma nova novela no final desses seis meses. Quer dizer,
escrevia aos pedaços, no tempo livre. Uma loucura! Não quero fazer parte
desse círculo vicioso, além do mais agora que descobri que autores como
Tolstoi e muitos outros escreveram seus clássicos antes dos 40 anos. Eu,
depois do sucesso de Os Vestígios do Dia, não me deixei influir pelos
editores para escrever anualmente uma nova obra e perder meses
divulgando-a. Quero fazer a minha obra com tranqüilidade e profundidade,
sem ganância ou superficialidade.
AN – A nova narrativa inglesa tem
nomes fortes como Martin Amís, Hanif Kureishi e você, claro, entre outros.
O que pensa dela?
KI – Me sinto orgulhoso de ser colocado junto a
outros bons autores, mas creio que não temos nada em comum. Acho também
que os ingleses pensam que a Inglaterra é o centro do universo literário,
e até certo ponto já o foi. Só que hoje a coisa é diferente, muito
diferente, e a principal influência intelectual sobre a Inglaterra vem de
escritores de fora, desde Gunther Grass a Gabriel García Márquez.
AN – Faz parte do grupo de escritores que acredita que o livro vive os
seus momentos finais?
KI – Nem pensar, muito pelo contrário.
Existem livrarias em todos os lugares, ou seja, existem compradores de
livros. Essa história que as pessoas estão deixando de ler e só se
interessam por vídeo ou internet não é verdade, o número de leitores é
imenso. Um livro ainda pode influenciar muita gente.
de Barcelona (20 de abril/ 2002)

Antonio Nahud Júnior,
escritor, poeta, jornalista e fotógrafo.
Autor de Ficar Aqui Sem Ser Ouvido Por Ninguém entre vários outros livros RN
https://www.ofalcaomaltes.blogspot.com.br/
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Direção e Editoria
Irene
Serra

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