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16/8/2025 Ano 28
- Nº 1.471
Arquivo
Antonio Nahud

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Antonio Nahud Júnior
RETRATOS EM PRETO & BRANCO Nº 18
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O rapaz é alto, um metro e noventa, branco, olhos verdes e
demonstra mais idade da que realmente tem. Há um traço de astúcia, de
destreza contida no seu rosto. É romeno, um artista que fazia habilidades
na corda em sua terra. Comunica-se misturando espanhol com italiano, pois
antes de morar em Madri vivera em Firenzi, onde ganhava dinheiro
contrabandeando pedras semi-preciosas. Parte da pequena fortuna mandou
para a mulher e a filha de dois anos que nunca saíram de Bucareste, e o
resto gastou em cocaína. Denunciado, deixou a Itália minutos antes de ser
agarrado. Chegou ao centro madrilheno sem nada nos bolsos, esfomeado, uma
exaustão nervosa num corpo de vinte e cinco anos. Durante meses
prostituiu-se na Puerta del Sol, das seis às oito da tarde, recebendo
quatro mil pesetas por cliente. Inicialmente encostava-se na entrada do
metrô, sério, o cabelo banhado de geo, esperando um convite, e com o tempo
tornou-se voraz, laçando rapidamente lamentáveis senhores. Conheceu Jorge
numa dessas tardes de caça, olhando-o como um gato ao desejar um rato, e
passaram a sair uma vez por semana. Um mês depois, ele prometeu ajudá-lo a
deixar aquela vida, poderiam morar juntos. O manso espanhol beira os
sessenta e cinco, os cabelos pintados de um negro graúna como o Dirk
Bogarde de Morte em Veneza, um corpo magro indolente e uma disciplina
rigorosa em relação à moral e aos bons-costumes – ele sempre preservou as
aparências. Casado, pai de uma menina de catorze anos, viveu durante anos
a dupla história de eficaz funcionário público, marido dedicado &
colecionador de “chulos” nos finais de tardes. Cansado da repetição
fatigante, resolveu arriscar sua reputação com um novo e admirável mundo.
O romeno aceitou provar a vida em comum, fazer parte de um matrimônio
moderno abençoado pelas sociedades civilizadas. Não gosta de homens, mas
também não pensa um minuto sequer na mulher e na filha que nem tem
notícias. Jorge abandona a família, deixando um apartamento confortável em
Chamberí, para alugar uma minúscula moradia em frente a uma igreja e,
enquanto trabalha, o amante dorme, vê televisão, joga no computador, vai
ao ginásio, recebe os colegas de profissão. Não é capaz de se interessar
por nada profundamente além dele próprio. O asfixiante apartamento é
triste, desorganizado e impessoal como um quarto de pensão sem cuidados. A
esposa colocou-o na justiça, reivindicando uma alta pensão para a filha, e
o manhoso funâmbulo sufoca-o com pedidos constantes de roupas de marcas e
férias em balneários na moda. O empregado correto que vive como uma
formiga, só esquece a companheira de trinta anos que trocara por um
estimado concubino, quando deita-se, fecha os olhos e o estrangeiro de
nome difícil, que sempre esquece, joga a coxa pesada sobre seu corpo,
dizendo antes de arrancar o seu velha pijama de seda azul: “Minha
mulherzinha, vem cá para o seu homem”. Ansioso e senil, se aproxima da
carne jovem e adormece.
(1996, publicado em Retratos em Preto &
Branco – Contos Góticos de Madrid) (14 de setembro/2002)
CooJornal no 276

Antonio Nahud Júnior,
escritor, poeta, jornalista e fotógrafo.
Autor de Ficar Aqui Sem Ser Ouvido Por Ninguém entre vários outros livros RN
https://www.ofalcaomaltes.blogspot.com.br/
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Direção e Editoria
Irene
Serra

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