Antonio Nahud
IMIGRAÇÃO CLANDESTINA:
A IMITAÇÃO DA VIDA |
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Por toda a
Espanha se assiste a crescentes reações de xenofobia contra os imigrantes.
Mas quais as razões que justificam essa repulsa? Analisando algumas
declarações descobri que o medo em suas diversas facetas é o tema mais
recorrente. O medo da perda da identidade nacional devido a um possível
predomínio dos estrangeiros. O medo da concorrência profissional, já que
os imigrantes realizam todo o tipo de serviço, mesmo em condições
precárias e recebendo vencimentos mais reduzidos. O medo das máfias que se
dedicam ao tráfico de mão-de-obra clandestina, prostituição, comércio de
droga, etc. O medo da imigração clandestina que muitas vezes resulta no
aumento da criminalidade, roubos, comércio de drogas etc. Mas, na verdade,
estamos perante um vasto leque de problemas que ultrapassa a questão do
medo do outro (o diferente). O problema da imigração envolve hoje a
questão do modelo de sociedade globalizada que está sem saída. Todos a
sentem como inevitável, mas desconhecem-lhe os contornos e resultados, por
isso a receiam.
As profundas desigualdades provocam contínuos
fluxos de seres humanos dos países mais pobres para aqueles onde as
condições de vida são melhores. Estas disparidades de desenvolvimento, ao
contrário do que seria de esperar, não têm diminuído a nível mundial, mas
aumentado. O que se reflete no crescente número de clandestinos nos países
mais ricos. Este drama é particularmente sentido na Espanha. Todos os anos
muitos morrem afogados quando tentam atingir a Andaluzia ou as ilhas
Canárias vindos do Norte de África, num tráfico humano mortal que como
negócio começou nas costas do Marrocos e hoje atinge o litoral da Argélia,
de onde partem barcos (cayucos ou pateras) lotados. A travessia do
Estreito de Gibraltar é uma viagem de 13 quilômetros entre a costa
marroquina e o litoral sul espanhol. A ilha de Forteventura das Canárias,
outro destino freqüente, dista 120 quilômetros, e o deslocamento por barco
dura entre 14 horas a três dias. Os ilegais são originários de toda a
África, mas, sobretudo do Marrocos e dos países sub-saarianos.
Calcula-se que entre 800 mil e 1,2 milhões de imigrantes ilegais vivem em
Espanha. Esse número não para de aumentar, por mais medidas repressivas
que sejam tomadas. A maior parte destes imigrantes são equatorianos,
marroquinos, chineses, colombianos e peruanos. Existem também outras
comunidades importantes tais como a brasileira, a guineense-equatorial,
romena e filipina. Todos sobrevivem da economia paralela e são muito mal
pagos, vivem e trabalham em péssimas condições. Muitos são escravizados
por máfias. Os brasileiros, geralmente pertencentes à classe média,
aceitam trabalhos inaceitáveis no país natal, mas cujos salários local
ultrapassam a remuneração brasileira. Entre o salário e o status, vence o
primeiro. Boa parte tem dúvidas quanto ao retorno e buscam a legalização.
Essa realidade do imigrante brasileiro indica como principais causas do
deslocamento, a falta de oportunidades no nosso país e redes sociais que o
amparam de alguma forma no ponto de chegada. Dados mais precisos do
Instituto Nacional de Estatísticas afirmam que predominam os homens entre
os imigrantes que chegam à Espanha (53%) e têm entre 16 a 44 anos (44%).
Assim, o predominante é o jovem do sexo masculino.
Ainda segundo o
Censo, um em cada seis vizinhos nas grandes cidades espanholas é
imigrante, ilegal ou não. A Espanha se transformou no país da União
Européia onde mais aumentou o número de imigrantes, principalmente porque
vários setores da economia espanhola dependem da imigração. A população
nativa também tem envelhecido gerando poucos nascimentos. É comum
encontrar idosos que moram sozinhos, muitas vezes morrem entre quatro
paredes e só se fica sabendo dias depois. Porém, estão acontecendo
mudanças que garantirão a sobrevivência da nação. Graças aos imigrantes.
Mas existe o medo, a fobia derivada do diferente, do desconhecido. Eu vivi
muitos anos em Barcelona, Madri e Cádiz. Tive sorte e oportunidades como
poucos. Desde o meu primeiro ano por lá, em 1994, na capital espanhola,
que o fenômeno da mão-de-obra estrangeira me chamou a atenção. Garçons,
atendentes de lojas, trabalhadores em ciber-cafés, cozinheiros, outros
empregos do setor terciário, geralmente eram estrangeiros ou descendentes.
O mesmo acontecia em qualquer outra parte do país. Em Barcelona
identifiquei paquistaneses como proprietários de lojas de souvenires, e
romenos com seus filhos lendo a sorte nas ruas mais movimentadas. Ao longo
dos anos, conheci um advogado gaúcho que trabalhava como garoto de
programa; uma enfermeira mineira que sobrevivia fazendo serviços
domésticos; uma colombiana que vendia flores; uma argentina hábil em
caricaturas feitas em praças públicas; um barman argentino; uma cartomante
mexicana etc. Tantas vidas, tantas esperanças, tantos fracassos. Uma
verdadeira imitação da vida, nunca uma vida como realmente deveria ser. No
entanto, amo a Espanha com fervor, sou um mix da Bahia com o Rio Grande do
Norte e a terra cintilante de Almodóvar. Publiquei dois livros louvando-a
e denunciando o ingrato destino da maioria dos imigrantes brasileiros
ilegais que lá vivem: “Retratos em Preto & Branco – Contos Góticos de
Madri” (1996) e “Se Um Viajante numa Espanha de Lorca” (2005). Ambos
esgotados, mas finalizo “Homem Sem Caminho”, que também tem como pano de
fundo a imigração clandestina.
O presente artigo deveu-se aos meus
olhos estrangeiros diante do que vi.
(Rio Total, 24 de julho/2010) Nº
694

Antonio Nahud,
escritor, poeta, jornalista e fotógrafo.
Autor de Ficar Aqui Sem Ser Ouvido Por Ninguém entre vários outros livros RN
https://www.ofalcaomaltes.blogspot.com.br
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