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Luiz Carlos Amorim
SAUDADES DE OUTRAS PÁSCOAS
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A Páscoa está chegando mais uma vez e chega bem a
propósito, pois o mundo está precisando de renovação, de
renascimento, de libertação, tudo o que ela significa. O
mundo está por demais conturbado, com mais guerras
surgindo a cada dia, o ser humano está perdendo a sua
essência e a violência e o ódio estão tentando calar a voz
da paz, da harmonia, da tolerância. Então precisamos,
todos, refletir sobre o sentido da Páscoa e procurar o
caminho da renovação deste nosso mundo, o caminho da união
e do perdão, da capacidade que ainda temos de sermos
generosos, da conscientização de que precisamos mudar.
Apesar de tudo isso, Páscoa me traz a lembrança, mais
uma vez, do meu avô Lúcio.
Digo que a Páscoa faz
com que ele se faça mais presente na lembrança, porque ele
morava em Corupá, quando eu era criança, mas quando eu
tinha uns 6 ou 7 anos ele mudou-se para Joinville. Ele era
ferroviário, assim como quase todos na família, e a imagem
dele chegando a nossa casa com uma cesta de vime pendurada
no braço direito não me sai da memoria.
Nossa casa
ficava distante da estação ferroviária, em Corupá, mais ou
menos uns dois quilômetros. Mas lá vinha ele, a pé, com a
cesta cheia de guloseimas para nós, os netos. Ele trazia
aquelas balas grandes e coloridas, do tamanho de um ovo de
galinha, que hoje já não existem mais, trazia coco, um
coco amarelo do tamanho de um ovo de galinha, também, com
duas amêndoas dentro, do tamanho de uma castanha do Pará,
talvez, coisa que já não vejo há décadas, infelizmente, e
que na verdade se chama babaçu. Trazia tucum maduro – uma
fruta parecida com butiá, mas preta - a gente come a casca
e o coquinho que tem dentro. Trazia goiabas, trazia
maria-mole, trazia aquelas balas coloridas que eram
cortadas em fatias grossas, que tinham um desenho no
interior, nem sabia mais se elas ainda existiam, mas
encontrei-as em Bruxelas, na Bélgica, recentemente.
Era uma festa a chegada do meu avô a nossa casa em
Corupá. Acho que ele ficava colecionando todas essas
frutas e doces para encher a cesta e, num seu dia de
folga, tocar para Corupá para entregar tudo aquilo pra
gente. Coisas simples, mas que eram oferecidas com carinho
e tinham um valor incomensurável. Tinham um gosto de
Páscoa, pois ele provava e renovava o seu carinho pelos
netos.
Hoje os avôs não dão, absolutamente, esse
tipo de presente. Hoje os avôs dão brinquedos eletrônicos,
como jogos, smartfones, tablets, consoles, etc. Mas
aqueles tempos do meu avô eram felizes e dá uma saudade
muito grande.
Não lembro mais do rosto do meu avô,
só lembro que ele era careca, tinha apenas uma coroa ao
redor da cabeça. Acho que lembro disso porque também estou
ficando careca e talvez fique igual a ele. E, engraçado,
apesar de não lembrar do rosto dele, eu ainda o vejo
chegando com a cesta no braço, cheia de oferendas. Como se
fosse a Páscoa chegando. Saudade.
Luiz Carlos Amorim - Escritor, editor e revisor, cadeira 19 na Academia SulBrasileira de Letras,
Fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br
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Direção e editoria
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