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Luiz Carlos Amorim
O CONTEÚDO DOS LIVROS
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Numa crônica sobre livrarias, recentemente, falando sobre
a grande variedade de títulos publicados nos últimos anos,
deixei para falar do conteúdo dos livros mais tarde, num
texto especificamente sobre este assunto.
Um amigo
escritor comentava comigo, outro dia, sobre a sua decepção
com feiras, bienais e lançamentos: publica-se muito, mas a
qualidade de grande parte dos livros é mínima. Divulga-se
quantidades cada vez maiores de livros vendidos nos
grandes eventos, mas a parcela maior dessas vendas é de
livros infantis, vendidos a um, dois ou três reais, sem se
levar em conta que muitos desses livros para crianças são
aquelas fábulas tradicionais que já não exigem o pagamento
ao autor (direitos autorais).
Outro tipo de livro
que se vende muito em feiras e bienais são os esotéricos,
de auto-ajuda e até os religiosos. Aliás, descobriu-se, há
poucos anos, uma fórmula que é sucesso garantido: combinar
fotos, de preferência de animais e crianças, com máximas,
pensamentos, ditados populares e/ou citações. Os livros
deste tipo vendem como água.
Livros literários
parecem ser os que menos vendem. A não ser os de autores
consagrados. E a oferta é grande. Há um sem número de
livros de autores novos sendo lançados todos os anos e o
gênero mais praticado é a poesia. Em menor escala existem
também o romance, a crônica, o conto, o ensaio. Mas o
conteúdo dessas obras nem sempre valem o que se paga por
elas. A poesia nem sempre é poesia – há casos em que é
apenas prosa colocada em forma de verso – e ruim. Outras
vezes há a pretensão de que para se fazer poesia deve-se
usar a rima e aí o resultado é desastroso, pois a rima
pobre, com um tema mal desenvolvido e um mau domínio da
palavra não pode ajudar em nada, pelo contrário. Há,
ainda, aqueles que acham que empregar palavras “difíceis”,
substituir palavras comuns e inteligíveis por palavras
fora de uso, resulta em maior qualidade do seu texto. Este
ultimo caso existe tanto na poesia como na prosa, para
desgraça dos leitores.
Em se falando do livro
literário, o gênero mais popular, mais lido, é o romance,
até porque tem mais representatividade, digamos que é tido
como padrão, com autores consagrados que vendem pelo
próprio nome. E também é um gênero que produz muitos
títulos novos todo ano. Como as grandes editoras
dificilmente publicam obras de escritores novos, muita
coisa sai como edição do próprio autor. E aí reside um
grande problema, que é a seleção, a avaliação apropriada
para se saber se esta ou aquela obra está pronta para ser
publicada, se vai agradar a um mínimo de leitores. Não que
as editoras também não cometam erros, pois há livros com o
selo de casas publicadoras conhecidas, que pecam por falta
de qualidade no conteúdo.
Quando se faz uma edição
própria nem sempre o autor entrega os originais para um
bom revisor, talvez por inexperiência ou até por segurança
em excesso. E isto é fundamental. Também é preciso que os
originais sejam lidos por pessoas habilitadas a dar
opinião sobre a qualidade do texto, sobre o estilo,
linguagem, enredo, se eles estão de acordo ou não.
Porque se não fizermos isso, corremos o risco de gastar
dinheiro com a publicação de uma obra que não está madura
o suficiente para ir a público. E é o que tem acontecido,
e muito, não só nas edições próprias como também nas
editoras ligadas ao poder público ou à política.
Publica-se “obras” deste ou daquele figurão apenas para
engordar currículo, gastando o dinheiro do contribuinte
com coisas ruins.
Existem também obras de contos e
crônicas de autores que talvez precisassem ler mais e
praticar muito mais a sua escritura para selecionar textos
que pudessem compor um livro. Sei bem como é porque já
cometi este erro. Meu primeiro livro de contos eu nunca
teria publicado, se tivesse esperado um pouquinho mais.
Mais do que nunca, temos que saber escolher o que ler.
Infelizmente, só poderemos ter opinião formada sobre um
livro depois de lê-lo.
(RT, 13 de fevereiro/2004)
CooJornal no 355
Luiz Carlos Amorim - Escritor, editor e revisor, cadeira 19 na Academia SulBrasileira de Letras,
Fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br
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Direção e editoria
Irene Serra
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