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Luiz Carlos Amorim
LIVRARIAS E BIBLIOTECAS
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Acabo de ver, num desses bons canais de tv a cabo, que não são muitos, um
programa sobre uma livraria, em Londres, onde o dono, além de vender livros,
novos e antigos, ainda hospeda pessoas, quase sempre escritores, que dormem
ali, enquanto escrevem seus livros, em troca de alguma ajuda na manutenção da
loja. Uma livraria com uma cama em cada sala, para que escritores pudessem
pernoitar por uma semana, duas, três, meses, talvez, numa região onde a diária
de um hotel não é, absolutamente, barata. Que cabeça iluminada a desse
livreiro, vocês não acham? Dessa maneira, ele praticamente não precisa de
empregados, mas quantas pessoas ele beneficia! E muito mais, talvez, do que é
beneficiado.
Isso me faz lembrar das nossas livrarias no Brasil – que
são poucas – onde quase não entramos, talvez com medo dos preços. A maneira
que encontraram, por aqui, para atrair e para fazer com que os frequentadores
fiquem mais tempo dentro delas, foi conjugá-las com serviço de bar e café. As
más línguas dizem que, na verdade, os donos tiveram que diversificar, porque o
ramo estava ficando cada vez mais difícil. Qualquer que seja a verdade, a
arranjo pode ser bom, pois em um lugar assim é bom encontrar pessoas para
conversar, falar sobre livros, trocar sugestões, fazer indicações e até
comprá-los.
Acho bom que possamos contar com lugares assim, onde
possamos nos encontrar para trocar ideias, comentar obras, sugerir e pedir
sugestões, falar sobre livros, enfim, ou sobre o que quer que seja, pois nas
bibliotecas não podemos conversar. Já mencionei, em outra crônica, que uma das
mudanças que deveria haver em nossas bibliotecas é justamente criar-se uma
sala onde se possa falar, fazer comentários, trocar experiências, conhecer
outras pessoas que gostam de ler, sem aquele policiamento e aquele “psiu”
irritante perseguindo a gente. Tanto nas bibliotecas municipais, quanto na
outras – de escolas, de associações, clubes, empresas, etc.
Aliás, uma
coisa implica na outra, e já que falamos nas bibliotecas das escolas, isso me
lembra que nem todas as escolas, neste nosso imenso Brasil, têm bibliotecas. É
inconcebível, mas é verdade. Sei disso porque já ajudei a iniciar bibliotecas
em algumas delas, doando muitos livros, pois cada vez tenho menos espaço para
os meus, infelizmente – percebo isso a cada mudança que faço - e não vejo
melhor abrigo para eles do que numa biblioteca, onde alguém, com certeza, vai
apreciá-los tanto quanto eu.
O governo brasileiro alardeou, neste
início de ano, que o Ministério da Educação – MEC, estará distribuindo, a
partir de abril, uma coleção de livros para os quase nove milhões de
estudantes de quarta e quinta séries do primeiro grau montarem bibliotecas em
suas escolas.
Se a distribuição realmente acontecer, alcançando o
objetivo de não haver mais escola sem uma biblioteca iniciada, será um grande
feito. O governo, segundo o MEC, gastará em torno de sessenta e sete milhões
de reais na compra de obras de autores da literatura universal, como Homero e
Victor Hugo e de autores brasileiros como Lygia Fagundes Teles, Machado de
Assis, Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade, Gonçalves Dias, inclusive
contemporâneos como Pedro Bandeira, Ana Maria Machado, João Ubaldo Ribeiro e
outros. Os livros serão comprados de grandes editoras, como Ática, FTD, Nova
Fronteira e outras, um grande negócio para elas que pode se transformar num
grande negócio também para os leitores em formação, os estudantes, que terão a
sua disposição livros para formarem o hábito pela leitura.
(março 2002)
Luiz Carlos Amorim - Escritor, editor e revisor, cadeira 19 na Academia SulBrasileira de Letras,
Fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br
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