Uma vez, li num texto de Clarice
Lispector esta frase: "Toda mãe de filha feia deveria prometer-lhe que
ela seria bonita quando a sabedoria do amor esclarecesse um homem."
Sublinhei a frase instintivamente. Isto foi há muito tempo. Agora
fui lá em
A maçã no escuro procurar a frase, e lá estava ela, intacta e
forte.
Recolho-a quando a questão da beleza, uma vez mais, vem
habitar ostensivamente nosso verão. É que existem vários tipos de
beleza. E a mais óbvia é a que todos veem. Por exemplo, a beleza
arrebatadora, avassaladora, que surge imperiosa e exige logo adoração.
É assim com certas mulheres e homens. Entram numa sala e passam a
ser o centro de gravidade dos olhares. Aparecem nas telas e capas de
revistas e nos hipnotizam. É assim também não apenas com pessoas, mas
com certos objetos na vitrina e museus: ficamos medusados diante deles,
em pura contemplação. É assim, ainda, com certas músicas que, ouvidas,
passam a fazer parte de nosso repertório existencial e nos harmonizam
nos desvãos do dia.
Mas a esse tipo de beleza se opõe um outro. O
da beleza que se esvazia, que vai se esmaecendo e se distanciando de si
mesma até ficar feia. É como se ocorresse uma metamorfose qualquer. E
não estou falando de velhice e desgaste físico, mas da beleza que se
esgota e se exaure. Pessoas que perdem o brilho sem que se saiba por que
e em que instante exato.
O fato é que a gente olha, de repente,
uma pessoa e repara que ela não apenas não está bela, mas já não é mais
bela. É como se a harmonia se interrompesse inesperadamente. Um modo de
olhar, a curva do nariz, uma expressão de mau gosto e a beleza se esvai.
Se esvai onde? Nela? Em nós? Sabe-se apenas que o que era vidro se
quebrou e o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou...
Diferente desses tipos um outro aparece e me intriga: o da beleza
envergonhada. A beleza acabrunhada de ser bela.
Existe? Existe.
Exemplo? Ei-lo.
Ela me confessou: quando menina era tão
bonita que já não suportava mais. A todo lugar que ia repetiam-se as
louvações carinhosas. Todos que vinham visitar a família desfilavam
incontidos elogios. Ao ser apresentada, lá vinha o galanteio. Saindo com
amigas, logo se diferenciava. No baile, a mais solicitada. Enfim, dizia
ela, um porre! um saco! Parecia que as pessoas queriam tirar pedaço de
mim. Outros elogiavam de uma maneira tal como se eu tivesse que fazer
alguma coisa para merecer ser bela.
Nesse caso, a beleza passou a
ser um ônus, uma cobrança, uma chateação. Daí que ela começou a enfear
sua beleza para ser comum como os outros. A tal ponto que hoje o marido
de vez em quando lhe diz: - Vê se te arruma um pouco, mulher...
Há, no entanto, uma beleza que não entra com clarins em nossa vida, nem
se estampa em silhuetas perfeitas nas páginas do dia. Não é a obra
sedutora, arrebatadora, exigindo imediatos adoradores.
Ela é
percebida aos poucos. Não se constrói linearmente. Um dia você observa
que o olhar dela não é tão banal. Que o sorriso irradiou uma mensagem
qualquer. Está pronto para descobrir que a pele tem a temperatura do seu
desejo. Um corpo que parecia tão igual-a-qualquer-um, súbito, ganha uma
delicada aura. A voz, que antes não tinha qualquer traço especial, agora
fica registrada na memória através de expressões banais, mas gostosas de
serem lembradas.
Você está começando a olhá-la e a pensar: se ela
não é tão deslumbrante como as outras, por que telefono, por que
facilito encontros e por que seu corpo extrai do meu surpresas e
maravilhas?
Como quem concede ou entrega um prêmio, como quem
deposita a alma no destino do outro, você está pronto a se dizer: é
bela, em mim, por mim, para mim. E isto basta. Eu te inventei na tua
beleza, que construímos.
Sim, a beleza (descobre-se) também se
constrói. Não exatamente (ou apenas) nas mesas de cirurgia plástica.
Como as casas se constroem, como as flores, que passam a existir, se
olhadas, a beleza se constrói. De nossas carências, de nossas premências
ela se constrói, e é um imponderável arco sobre a íris de quem ama.
É assim, meu amigo. E se isto está acontecendo com você, você há
muito começou a amá-la. E entre vocês dois está se operando mais que uma
profecia de mãe, uma metamorfose rara, que você deve curtir e prolongar.
(RT, 24 de março/ 2007)
CooJornal nº 521
Transcrição autorizada pelo autor

Affonso Romano de Sant'Anna, i.m.
escritor,
cronista e jornalista
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