EM NOME DO PAI

Milton Ximens Lima

Ergo o baú das minhas infantis lembranças. Abro a tampa, deixo escorrer sobre a mesa minhas narradas papeladas de memórias. Examino-as e tento ordená-las numa possível ressurreição dos acontecimentos e fatos da minha vida.

E miro, então, na vazia primeira página do primeiro volume da enciclopédia do Tesouro da Juventude, ainda preso à ortografia de então, dezoito volumes a distribuir muitíssimos ensinamentos do mundo cultural da época, uma espécie de exibição semelhante à hoje produzida, de modo cibernético, pelo gigantesco “google”.

Lá está sua bela e artística assinatura de desenhista, ao lado da de minha mãe, também bonita, como seria obrigatório às boas professoras daqueles tempos. Este, meu primeiro “contato” com Ele.





Seguem-se fotos, poucas, em família, nas ruas do Rio de Janeiro e nos trabalhos de arquiteto/fiscal da Prefeitura de Cachoeiro de Itapemirim (ES). Vejo-me, também, primeiramente, dominando o comando de automóvel infantil, que, presumo, ter-me presenteado.

Acrescentou-me a mãe: gostava de, a pé, por algumas ruas próximas à sua casa, exibir o seu primeiro filho. Nestes passeios, não tendo temperamento muito religioso, não apreciava eu insistir em adentrar numa igreja...

E chegou o momento necessário de ele ter que se deslocar para o Estado do Rio, cidade de Cabo Frio, porque deixou de cair na graça de um novo e nomeado prefeito, que, diziam, era bom administrador, mas implacável em suas perseguições administrativas e políticas.

Não mais o vimos, nem nos frequentamos: foi sepultado naquela cidade, o que tomamos conhecimento posteriormente. Aqui, alcanço um episódio familiar: um primo, parte “Lima”, conheceu-o, lá nos ares de Cabo Frio, e veio dizer à mãe:

- Conheci o Tio “Geninho”, lá em Cabo Frio... É uma pessoa muito querida lá!

A mãe foi rápida, não perdoou:

- É mesmo? Se era tão reconhecido assim, porque o enterraram como “indigente” ?

O falecimento repentino dele, em sete de agosto de mil novecentos e quarenta e sete, nos alcançou, os três filhos, em fase pré-escolar. Estava eu, então, atravessando o primeiro ano primário do Grupo Escolar Graça Guárdia, as irmãs, mais novas, a caminho, enquanto a mãe se desdobrava, como professora estadual, para suprir o orçamento familiar, assumindo também substituições de colegas, aulas particulares e até encomendas de costuras.

Meu pai ainda nos visitou “espiritualmente”, quando se mostrou à frente da claridade de uma janela da cozinha da nossa casa da rua Don Fernando 163, acompanhado do também falecido avô meu, Mario, ordenando à nossa “segunda-mãe”, Elvira, eficiente auxiliar doméstica da minha mãe, que ela copiasse um endereço (rua Joaquim Palhares... etc), sede de um cartório onde poderia ser encontrada a certidão de nascimento da irmã Maria Eugênia, há muito procurada, sem sucesso, por minha avó, no Rio, para fins de inscrição dela no curso primário em Cachoeiro.

Informação verificada, confirmada, certidão lavrada!

Mais tarde, li: o historiador e professor Manoel Gonçalves Maciel, no seu livro “Voltando ao Cachoeiro Antigo”, volume I e, pessoalmente, o Nelson Sylvan, membro do teatral grupo “Galikôko” da época, deixaram entrever que meu pai colaborou, como desenhista, dos cenários de algumas peças, a partir de março de 1929, e participou, também, da seleção de pessoas para blocos carnavalescos e bailes, nos clubes e nas casas de família, animados pelo grupo musical “Teatro de Cachoeiro”, que veio a substituir o Golikôko.

Ouvi também, de familiares, que teria contribuído no projeto arquitetônico da sede do Yole Club, destinado às competições náuticas (remo etc). Fez parte, como Secretário, da diretoria da Liga Sportiva do Sul do Estado (Livro: Cachoeiro, uma história de lutas/ 2004, do escritor Evandro Moreira). Esteve entre os arrolados-acusados injustamente de “comunistas”, que, na verdade, conforme esse livro, eram assim nomeados todos os anti-integralistas (página 185 do II volume do mesmo livro). Elaborou o Mapa de Cachoeiro, localizando todas as regiões produtoras (vol. II, pg.60).

Me parece que exerceu atividades de jornalismo. Não descobri o título do jornal, mas juntando dados históricos, concluo que, nesta atividade, colocou-se à serviço eleitoral do futuro senador Atilio Vivacqua, que o presenteou, no final das eleições, com a máquina impressora das notícias dos acontecimentos de campanha e que, durante algum tempo, esteve guardada nos porões da casa do seu irmão, e meu tio, Ary Lima, futuro prefeito da cidade.

Em 1976 foi publicado o Livro “Edição Histórica: Cachoeiro de Itapemirim, onde, na página 38, destacamos informação do escritor Levy Rocha, a saber: “invoco a figura de Eugênio Lima, catando e escolhendo tipos grandes de madeira, para títulos e cabeçalhos dos jornaizinhos que ele gostava de fundar. Escrevia, compunha, imprimia, agenciava anúncios, e ficava no bar Belas Artes, fiscalizando, de longe, os meninos a apregoarem a venda do jornal”.

Fechando o baú das revelações, só me resta agradecer a Ele a vida que ele me gerou, e à sua presença familiar, quando possível foi.

Descanse em paz, meu velho!

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