LINHAGEM

Lilian Maial



Meu pai vendia tecidos.
De porta em porta oferecia texturas,
histórias e sianinhas,
e nunca se vestiu de triste.
Trazia o dia num ombro,
o cansaço pendurado no outro.
A noite vinha numa caixa de saudade.

Outrora vendia bíblias.
Não sabia orar para deuses,
mas fazia preces para seus botões,
pedia pão e voz para o irmão.
Gostava de preparar a janta e as filhas para a vida;
pouco sabia de nosso sangue e humores,
cortava cebolas com a palavra afiada,
entoava cantigas de ninar resistência.

Meu pai adorava fazer rir
e seus pequenos dentes mordiam as cordas e os panos,
sua boca soletrava medos e beijos de boa noite.
Não entendia direito a luta,
não dominava punhos e engodos,
nem tinha os braços fortes.
Mas quando ele abria um sorriso e seus olhos se apertavam,
a terra brotava futuro, o mar se abria em certezas,
a chuva primaverava e soltava pingos de aves livres.

Ele se foi do jeito que veio, desconhecendo o ofício de rês.
Fugaz e mudo, não sabia arrancar mordaças,
nem viu seu amanhã prometido.

Menino tolo, só entendia de recomeços.


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