MEU PAI, MINHA RAIZ MAIS FIRME

Irene Serra


Arthur, meu pai, era conhecido como "Enciclopédia Ambulante", tal seu conhecimento em diversas áreas. Uma de minhas grandes emoções foi, ao visitar Ponte Nova (MG), um de seus amigos me levar ao Colégio Dom Elvécio, onde me dei de frente, logo à entrada, com um quadro enorme, ocupando o centro da parede, com sua foto e um texto de gratidão a ele, assinado pela diretoria.

Fomos, todos, abençoados com sua presença, sem distinção a quem. Ele se dividia sem demonstrar cansaço, sempre a mesma atenção.

Quando eu estava na faculdade de Psicologia, ele me orientou em um ensaio abordando Yung, em que tirei, não só a nota máxima, como foi impresso pelo professor e distribuído à turma para estudo. Quando na Faculdade de Foniatria, ele me trazia livros que achava prepoderantes e debatíamos a largo o conteúdo explanado. E, ao estudar, por horas, alguns dos Sonetos de Petrarca - Liszt, para uma aula com Miguel Proença, papai (por inverossímel que pareça) chega à porta da sala e diz "não se esqueça de recolher as notas que caíram embaixo do piano, porque darão uma sinfonia". Imagino que, com tantos porquês com os quais eu ia atrás dele, devo ter sido uma chata de galocha.

Eu o observava dançando com minha irmã, uma pé de valsa que queria aprender bolero; móveis da sala afastados, para que pudessem deslizar. Era um encanto! Acompanhou e ficou por meses com um dos filhos, recém-formado em Administração de Empresas, a Belo Horizonte, onde ocuparia um cargo profissional. Acompanhava e vibrava com os estudos do caçula em Engenharia. Ensinava xadrez a uma tia que morou conosco alguns anos. Alfabetizou minha babá, cuja mãe trabalhava para minha avó, e a avó era escrava da minha bisavó. Tirava seus momentos à noite para minha mãe, sem deixar de lado seu gosto pela música clássica e a escrita de sonetos.

Quando se aposentou, foi morar no sítio em Teresópolis, e de lá também tenho vivas lembranças. Quem mais iria passar ferro quente sobre minha roupa de cama, para que eu deitasse no quentinho? Quem, nas manhãs, faria um cafezinho antecipado para nos receber ao acordar? Quem a servir um whisky e ficar conversando horas na varanda? Sua calma em nossos momentos de dificuldade nos trazia à realidade e a certeza que, com ele, encontraríamos a saída. Momentos de braveza... certamente! Mas quem não os tem?

Seu último abraço fui eu que recebi. Expondo seu cansaço, fui ajudá-lo; ele colocou a cabeça em meu ombro e se foi...

Meu pai ensinou que amor não precisa de palavras complicadas. Basta um gesto, um olhar, o cuidado repetido de sempre, como quem sabe que a rotina também é carinho. Hoje, nos dias em que sinto sua ausência, ainda ouço seus passos lentos no corredor, como se viessem me lembrar que estou segura. Que o mundo pode até mudar, mas aquilo que um pai oferece com amor dura para sempre.

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