| - |
Árvore de Cristo, o Presente de Nickerl

Francisco José Rolim
Era um anseio que decidira pôr em prática naquela noite, antes que
minha mãe chegasse à cozinha para preparar a refeição natalina. Eu
ouvira falar muito a respeito da celebração do Natal nas cidades;
devia-se colocar sobre a mesa um pinheirinho, verdadeira arvorezinha
do bosque; afixar velazinhas em seus ramos e acendê-las; e depositar
embaixo dele presentes para as crianças, esclarecendo que havia sido
o Menino Jesus que os tinha trazido.
Então pensei em montar uma árvore de Cristo para meu pequeno irmão,
Nickerl. Mas tudo em segredo (isso fazia parte do procedimento).
Depois de já ter clareado o dia, saí em meio ao nevoeiro gelado.
Este protegeu-me do olhar das pessoas que trabalhavam em torno da
casa (...)
Logo fez-se noite. A criadagem estava ainda ocupada nos estábulos ou
nos quartos da casa, onde, segundo o costume da Noite Santa, lavavam
a cabeça e se vestiam com trajes de festa. Na cozinha, minha mãe
fazia os sonhos (doce) para o dia de Natal. E meu pai, com o pequeno
Nickerl, percorria a propriedade para abençoá-la, levando para isso,
num recipiente, carvões incandescentes; sobre eles espalhava o
incenso... a fim de incensá-las enquanto rezava em silêncio.
Enquanto o pessoal se ocupava em suas tarefas lá fora, eu preparava
na sala grande a Árvore de Cristo. Tirei a arvorezinha do meio da
lenha e coloquei-a sobre a mesa. Depois cortei de um maço de cera
dez ou doze velazinhas e coloquei-as sobre os pequenos galhos.
Embaixo, aos pés da arvorezinha, depositei um pão doce.
Ouvi então passos lentos e suaves na parte de cima da casa. Eram meu
pai e meu irmãozinho que já estavam lá e abençoavam o sótão. Logo
chegariam ao salão. Acendi as velazinhas e me escondi atrás do
forno. A porta se abriu e eles entraram com seu recipiente de
incenso. E ficaram parados.
- O que é isto? perguntou meu pai com voz baixa mas prolongada.
O pequeno Nickerl ficava emudecido. Nos seus olhos grandes,
redondos, espelhavam-se como estrelinhas as luzes da árvore de
Cristo.
Meu pai avançou devagar para a porta da cozinha e chamou baixinho:
- Mulher, mulher! Venha ver um pouco.
E quando ela apareceu:
- Mulher, foste tu que fizeste?
- Maria e José! - exclamou minha mãe. - O que deixastes sobre a
mesa?
Logo chegaram também os criados e criadas, vivamente impressionados
com a inédita visão. Então um rapaz que viera do vale fez a
suposição:
- Poderia ser uma Árvore de Cristo!
Seria realmente verdade que os anjos trazem do Céu tal arvorezinha?
Eles a contemplavam e se admiravam. E a fumaça do incenso enchia a
sala inteira, de modo que era como um delicado véu que pousava sobre
a arvorezinha iluminada.
Minha mãe procurou-me na sala, com o olhar:
- Onde está o Pedro?
Julguei então ser o momento de sair do canto do forno. Tomei pelas
frias mãozinhas o pequeno Nickerl, que continuava emudecido e
imóvel, e levei-o para junto da mesa. Ele quase resistiu. Mas eu lhe
disse, em tom profundamente solene:
- Não temas, irmãozinho! Olha: o querido Menino Jesus te trouxe uma
Árvore de Cristo. Ela é tua!
O menino estava contentíssimo. E juntou as mãos como fazia na igreja
para rezar.
Nota do autor: A narração de Pedro Rosegger figura
numa obra sobre a vida popular na região da Estíria (Áustria), no
século passado.
A “Árvore de Natal” é conhecida em algumas regiões da Europa como a
“Árvore de Cristo”, desempenha papel importante na data comemorativa
do Nascimento de Nosso Senhor. Os relatos mais antigos que se
conhecem a cerca da Árvore de Natal datam de meados do século XVII,
e são provenientes da Alsácia, encantadora província francesa.
Descrições de florescimentos de árvores no dia do nascimento de
Nosso Senhor Jesus Cristo levaram os cristãos da antiga Europa a
ornamentar suas casas com pinheiros no dia do Natal, única árvore
que nas imensidões da neve permanece verde.
A “Árvore de Natal” é um símbolo natalino que representa
agradecimento pela vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.
O costume de preparar este belo complemento do presépio foi passando
de vizinhança em vizinhança, alcançando hoje até países onde a neve
é um fenômeno desconhecido.
Fonte: Revista Catolicismo
(Dezembro de 1994)
|