| - |
Um Natal Bem Brasileiro
Gilberto Freyre
"É preciso que o brasileiro comemore seu Natal brasileiramente.
Dizendo não a Papai Noel, a neves, a trenós. E sim, ao Menino Deus,
a lapinhas, a pastoris, ao pastel da ceia de Natal."
A
beleza do Natal castiçamente brasileiro está em ser uma consagração de Deus
Menino ou de Menino Jesus. Em contraste com o Natal europeu, cuja figura central
é a de um bom e risonho Velho. O Deus Menino irradia esperança. Ilumina futuros.
Dá confiança no que está para vir. Papai Noel tornou-se um mito grandemente
comercializado e, ao mesmo tempo, a serviço de indústrias produtoras de artigos
para presentes. Um mito correspondente a uma fase da civilização européia, a
cuja criatividade industrial e vitalidade comercial na vêm faltando aspectos os
mais positivos. O Natal é um desses aspectos, quer através de cordial e até
fraterna troca de presentes entre adultos, quer das árvores de Natal com
presentes para adultos e crianças. E com Papai Noel, de barbas brancas e metido
em grosso casaco vermelho a resguardá-lo de neves, de frios não brasileiros, a
representar, para gente dos trópicos brasileiros e de outras terras tropicais,
uma navegação de verdes e dos verões como os do Brasil. O Menino Deus é um mito
romântico. E sobretudo, um mito ecológico. Trata-se de Menino Deus nascido entre
verdes quase tropicais. Quase brasileiros. Menino que teria crescido em
vegetação semelhante à brasileira.
É, portanto, figura muito mais nossa que o, aliás, bom velhote.
Muito mais capaz de nos animar, aos brasileiros, meninos e adultos, de
esperanças e alegrias. De regozijos em torno de sua figura. Regozijos em torno
de seu presépio. Pastoris, cantos e danças em seu louvor.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Um Natal bem brasileiro. Revista Bandepe.
Recife, p.4, dez. 1982.
|