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Comemoração do Natal no Brasil Tropical
Monsenhor Severino Leite Nogueira

Em 1223, em Greccio na Itália, S. Francisco de Assis iria criar na
Igreja e nos costumes de todos os povos cristãos uma nova modalidade
de celebração do Natal: a representação da cena de Belém na
reconstituição representativa do lugar, dos elementos e dos
personagens. Foi o presépio. Era a manjedoura, o Menino, Maria,
José, os Pastores, os Magos, os Anjos e estrela e ainda o boi e o
burro. O evangelho canônico de S. Lucas não faz referência a estes
animais, presentes em todos os presépios que se pintaram ou se
esculpiram, desde S. Francisco até hoje.
E é até possível que a apresentação do burrico e do boi nos
presépios se deva ao evangelho apócrifo chamado Pseudo-Mateus onde
são eles mencionados. Como esta informação do evangelho apócrifo
concordam Origens, S.Gregório Nazianzeno, Santo Ambrósio e até mesmo
S.Jerônimo, não apenas pela verossimilhança, como também por uma
referência de Isaías no capítulo 1o de sua profecia:
"Cogno vitbos possessorem suum et asinus praesepe domini sui".
O fato é que o burrinho e o boi adquiriram nacionalidade na
iconografia e tradição cristã do Natal. Tornou-se tão universal e
célebre a representação do natal do Salvador em imagens que a
história registra a chamada Escola dos Nascimentos em Nápoles no
século XV e as Sociedades de "Pesebritos" em Barcelona e Valência,
que criaram entre outros Beléns famosos, ricas coleções fruto do
trabalho de grandes artistas, espalhados por toda a parte, hoje
conservadas como preciosidades raras pela história, pela arte e pelo
material de que são feitos.
Na Idade Média introduziu-se o costume de se fazerem nas igrejas
representações dos mistérios nos ofícios do dia. Eram os autos,
origem do teatro religioso em que o povo cantava, em língua vulgar,
ao som do órgão ou de instrumentos pastoris, suas loas populares.
Pernambuco amanheceu nos usos e costumes dos presépios, informa
Jaboatão, conforme citação de Pereira da Costa. Frei Gaspar de Santo
Antonio - o Primogênito, por ser o primeiro brasileiro franciscano -
introduziu no Convento de S. Francisco de Olinda "algum passo de
Deus menino em que dizia louvores e fazia devotas representações" já
nos fins do século XVI.
Os jesuítas, missionários e catequistas, encarregaram-se de plantar
na alma do povo que nascia os usos e costumes portugueses do Natal
de Jesus, tão intimamente ligado ao nome e título da Companhia.
Exemplares sobreviventes conservados atestam o valor daquelas obras
de arte como do da Vigia ou do Seminário da Cachoeira, atesta
Serafim Leite.
Eram tão vistosas e solenes as comemorações do Natal no Colégio da
Bahia, chamado de Jesus, que Blasquez, contemporâneo, escreveu em
1565: "Não sei se em muitas partes da Companhia se celebrariam
assim". Presença do Bispo, dos padres, dos irmãos das Aldeias, dos
índios, com música, procissão e cantos.
Padre Fernão Cardim, nas cartas enviadas ao Provincial em Portugal,
dando contas de Missão do Padre Cristóvão de Gouveia, informava:
"Tivemos (na Bahia em 1583) pelo Natal um devoto presépio na
povoação onde algumas vezes ajuntávamos como boa e devota música, e
o irmão Barnabé nos alegrava com seu berimbau".
E no ano seguinte falando do Rio de Janeiro: "Neste Colégio tivemos
o Natal com um presépio muito devoto que fazia esquecer os de
Portugal. O irmão Barnabé Telo fez a lapa, e às noites nos alegrava
com seu berimbau".
Em 1678 a Oficina da Universidade de Évora publicava o livro "Escola
de Bethlem - Jesus nascido no Presépio" da autoria do Padre
Alexandre Gusmão, com uma gravura representando o presépio, feita
por Richard Collin, em Antuérpia. E em 1685 o mesmo autor publicava
em Lisboa "Arte de criar bem os filhos na idade da puerícia,
dedicada ao menino de Belém Jesus Nazareno". Serafim Leite considera
esta obra o primeiro e grande monumento da pedagogia brasileira. Era
esta a pedagogia, este era o modelo, pelo qual se formava nosso
povo. Loreto Couto em Desagravos do Brasil e Glórias de Pernambuco
refere-se a um autor de poesia, nascido no Recife em 1716, professor
no Colégio Jesuíta do Recife em 1745, Diretor da Congregação
Estudantes (deveria funcionar na hoje abandonada Igreja da
Congregação) que deixou inéditos 500 "epigramas ao nascimento do
Menino Deus" com que celebraria as festas do Natal. Miguel Ribeiro,
era seu nome, morreria senhor de Engenho novo no Cabo, depois de
deixar a Companhia.
Em Vida social no Brasil nos meados do século XIX, escreve Gilberto
Freyre: "O Natal era comemorado com muitas festas. Era pelo natal
que se trocavam, patriarcalmente, presentes, não só de perus e de
bolos como de porcos e até de escravos. Era pelo natal que se
exibiam pastoris e armavam presépios". Câmara Cascudo classifica
estes pastoris quanto as suas origens, natureza, autores e
estrutura, desse modo: "O nosso Pastoril é legitimamente português
em sua origem, ampliado e modificado no Brasil pela assimilação
inidentificável de outros autos perdidos, recitações religiosas que
seriam declamações sacras, dentro das igrejas, tão citadas pelos
viajantes dos séculos XVII e XVIII".
Este teatro dentro das igrejas, vinculado geneticamente à liturgia
cristã, começou desde a Idade Média, e em toda parte, a se afastar
pouco a pouco da sua devoção primitiva e tender progressivamente
para sua secularização, como haveria mesmo de ser. Cedo também
começaram as autoridades da Igreja a coibi-lo. No século XVIII os
estatutos do arcebispado de Braga proibiam a introdução de cantos e
danças, jogos e representações, nos atos do culto. Algum tempo
depois a mesma autoridade abria uma exceção para a "representação
devota como é a do Presépio ou dos Reis Magos ou outras
semelhantes".
Em 1534 as Constituições do Bispado de Évora proibiam nas igrejas
"representações ainda que sejam de Paixão de N.Senhor ou da Nascença
de dia ou de noite, porque de tais atos se seguem muitos
inconvenientes". Parecidas eram as determinações do bispado do
Porto. Quando, em 1707, o arcebispo da Bahia promulgou, no seu
Sínodo Diocesano, as Constituições do Arcebispado ocupou-se, no
título XXX, com estas representações e danças nas igrejas e nos seus
adros citando a propósito, abundantemente, decretos e leis da Igreja
e Reino portugueses. Referem-se estas leis e regimentos a uma velha
e enraizada tradição que iria culminar no século XVI, com os autos
hieráticos ou de devoção de Gil Vicente quase sempre "endereçado às
matinas do natal". Pereira da Costa pretendeu descobrir influência e
semelhança de uma jornada, na versão pernambucana, com o teatro
vicentino.
Para a revista Arquivos, da Prefeitura do Recife, escreveu, em 1943,
Ascenso Ferreira, com ilustrações de Lula Cardoso Ayres e melodias
registradas pelo musicista João Valença, um bom estudo sobre
"Presépios e Pastoris". Apresenta aí Ascenso o pastoril de João
Bernardo de Rego Valença, avô de João e Raul, encenado pela primeira
vez no Recife em 1865 e continuado até 1900 pelo filho, até que os
netos passaram a encená-lo primeiro ao ar livre em tablados, e,
finalmente, em teatro do Bairro e no Santa Isabel. Não são apenas
cantos, loas e jornadas mas todo um autor unido por enredo,
encadeando os episódios do nascimento e dos Magos com seus
personagens, o Demônio, Herodes, o Pastor, as pastoras, os cordões
encarnado e azul, até a queima da Lapinha no dia de Reis.
A edição de 3 de janeiro de 1848 do Diário de Pernambuco anunciava
também no Teatro Público "Grande Presépio". O Presépio era encenado
em 10 récitas sob o regime de assinaturas, e os atores eram
crianças. Na edição de 29 de janeiro de 1870, o Jornal do Recife, na
seção de Anúncios dá notícia, no Teatro da Capunga de um "Grande e
variado espetáculo Pastoril sob a direção do conhecido artista
dramático Santa Rosa e música do maestro Colás Filho". Acrescentava
que o espetáculo já tinha sido representado no "Santa Isabel em 1863
onde tantos aplausos mereceu".
Pereira da Costa cita um trecho do historiador pernambucano Antonio
Joaquim de Melo que, depois de se ocupar enternecidamente com a
lapinha e os presépios, trata da evolução e transição do presépio em
pastoril.
Em "A Carteira" de 24 de dezembro de 1855, no Diário de Pernambuco,
Antonio Pedro de Figueredo, referindo-se às mudanças que se foram
introduzindo no Pastoril, diz que ele se transformou em "completas
saturnais". "Praticavam-se aí enormes imoralidades", diz ele. Por
isso, já no começo do século, o Bispo Azeredo Coutinho reclamou ao
governo "contra a função das chamadas pastorinhas" tendo como
resposta a promessa de que iriam ser empregados os meios necessários
"para extinguir esse abuso à Santa Religião". Ainda em 1840, o
Carapuceiro celebra com entusiasmo os presepes em que "as
pastorinhas cantam e dançam em louvor de Cristo recém-nascido". "É
uma folgança endêmica do nosso Pernambuco", diz o padre mestre. Em
se aproximando o Natal surgem de todas as partes os presépios, sendo
a cidade de Olinda o lugar mais abundante desse gênero. Na primeira
metade do século passado a Sociedade Natalense se encarregava de
encenar o presépio na Igreja do Espírito Santo. A capela-mor era o
cenário e o corpo da Igreja a platéia. A sociedade Nova Pastoril de
1841 se propunha os mesmos objetivos.
Verdade que em 1868 o bispo D. Francisco Cardoso Ayres dirigia ao
chefe de polícia em ofício, reclamando intervenção nas desordens e
abusos cometidos no Presépio do Poço da Panela.
Ascenso Ferreira se refere à transformação do auto religioso em
profano, ou, como ele diz. "Os ricos satisfazendo seus desejos de
conquista, cortejando as coristas das companhias líricas do Santa
Isabel ou as artistas de variedades do Cine-Teatro-Helvética. O
grosso da massa popular, buscando as meninas do Pastoril de
Herotides em Santo Amaro, do de Antônio Gaiola na Torre, do da velha
Marocas lá pras bandas do Zumbi".
Melo de Morais Filho, narrando a Noite de Natal da Bahia, cita
algumas loas do baile pastoril;
A barra do dia
já vem clareando
que belo Menino
na lapa chorando
segundo ele, no salão festivo, diante do presépio e antes do autor,
poetas improvisavam quadras e trovas. Eram o próprio autor, Laurindo
Rabelo, Muniz Barreto, Franklin Dória (que depois foi governador de
Pernambuco) "poeta de religião, da pátria e da família" como os
chama.
O jornal "O Paiz", de 30 de dezembro de 1970, narra "um rancho de
Reis organizado por Melo de Morais Filho na casa do casal Clóvis e
Amélia Bevilaqua, reunindo Viriato Correia, Rocha Pombo, Henrique
Castriciano e Nestor Vitor, entre outros, seguindo-se os cantos e as
danças de a Borboleta, o Pinica pau, o Bumba-meu-boi e a Náu
Catarineta".
No dia de Reis encerravam-se as lapinhas e os pastoris com a queima
e os autos tradicionais bumba-meu-boi, chegança, fandangos e congo.
Vamos, companheiras, vamos
vamos todas a Belém
para queimar as palhinhas
onde Nasceu nosso bem
Adeus pastorinhas
Adeus que me vou
Até para o ano
Se eu viva for.
Nuno Marques Pereira no Compêndio Narrativo do Peregrino da América
publicado nos começos do século XVIII, trata dos usos e costumes da
festa dos Santos Reis: "saíram uns homens com vários instrumentos
pelas portas dos moradores de uma vila cantando para lhes darem os
Reis, em prêmio do que lhes davam dinheiro, doces e frutas".
Percorriam os cantadores as ruas da Bahia cantando, de memória,
versos como estes:
Ó de casa nobre gente
Escutai e ouvireis
Que das bandas do Oriente
São chegados os três Reis.
No Recife celebravam os pretos carregadores de mercadorias
organizados em companhias dirigidas por um capataz. Escravos ou
livres não trabalham na véspera de Reis. "Reunidos pela manhã
formando um numeroso cortejo, um deles sentado sobre um caixão
empunhando uma bandeira e carregando aos ombros pelos companheiros,
partiam cantando seus versos, em toada de marcha, e dirigiam-se à
casa dos fregueses para dar-lhes as boas-festas a todas a quais, em
agradecimento pelo presentes recebidos, erguiam vivas ao estourar de
foguetes:
Viemos dar as boas-festas
E também cantar os Reis
Viemos ver os nossos brios
Que alguma coisa nos deis
Viemos dar as boas-festas
A estes nobres senhores
Que já nasceu o menino
Em Belém entre pastores.
Em Sobrados e Mucambos refere-se Gilberto Freyre à celebração dos
Reis em Ouro Preto entre negros forros, operários da indústria do
ouro. Chefiados por Chico Rei, os negros organizavam-se para
conseguir alforria e terminaram donos da mina da Encardideira ou
Palácio Velho. Reuniram-se em uma irmandade de Santa Efigênia e
levantaram uma igreja. "Aí dia de Reis celebravam com muita assuada
sua festa antes Africanas do que Católicas, presidida pelo valho
chefe vestido de Rei. Ouviram missa, mas o principal eram as danças,
ao som de instrumentos africanos. Danças de rua defronte da Igreja.
Danças de negro. Sua organização era religiosa, mas não católica".
Reisado era isto: grupos que cantam e dançam na festa do Natal e
Reis. É muito rico o nosso folclore nas suas manifestações
artísticas em torno do Natal ou por ocasião das festas do Natal.
Muitos são os autos populares em que se conserva uma rica tradição e
cultura que cumpre preservar. Não será cada um deles objeto deste
estudo, cujo objetivo é apresentar o Natal nas suas comemorações no
trópico brasileiro. Os autos aos quais já nos referimos ou aqueles
com os quais vamos ainda nos ocupar fazem parte desta exposição
enquanto são comemorações do Natal entre nós. Este é o objeto formal
sob o qual o consideramos aqui.
Nem teríamos a veleidade de fazer um estudo abrangente de todo esse
multiforme folclore natalino, cada um desdobrando-se em várias
modalidades, tema um por um de vasta e opulenta bibliografia, nem a
pretensão de fazer-lhes a interpretação não só impertinente para a
oportunidade, como altamente ambiciosa a quem faltam os créditos da
especialização folclórica ou da ciência antropológica.
Aí vem a barca nova
Que dos céus lançou-se ao mar
Nossa Senhora vem dentro
Ai tirolê alê alô
E seus anjinhos a remar
Nosso Senhor é o capitão
S. José é o piloto
E Maria mãe da graça
Ai tirolê alê alô
É o nosso seguro porto.
São versos do nosso Fandango como o apresenta Pereira da Costa. É
uma espécie de chegança representada no tempo do natal.
A chegança, dança portuguesa do século XVIII se transformou no
Brasil em auto popular. Conhecem-se duas espécies entre nós - a dos
Marujos ou Marujada e a de Mouros também chamadas Cristãos Mouros.
Luta simulada entre Cristão e Mouros, realizava-se com os
representantes montados a cavalo, como observou Saint-Hilaire em
Minas Gerais, ou a pé conforme a pitoresca descrição feita por Henry
Koster do espetáculo em Itamaracá no século passado.
A chegança dos marujos ou Marujas, denominada Fandango, representada
no natal, com personagens vestindo fardas de oficiais de marinha e
marinheiros cantando e dançando ao som de instrumentos de corda, é
um auto indiscutivelmente brasileiro, apesar da boa porcentagem
temática portuguesa das odisséias marítimas distinguindo-se a nau
Catarineta, e da influência européia da música. "Não há em Portugal
conjunto semelhante" é a afirmação de Câmara Cascudo.
"Representa-se com um batalhão de rapazes vestidos à maruja que
conduzem um naviozinho. Cantam seus versos e fazem múltiplas
evoluções. Depois de fingirem luta vão cozer ou forrar o pano:
Sobre arriba gageiro
E ferra o pano
Que esta tormenta assim
Nos causará muito dano.
Cantam então os versos da Nau Catarineta, que na versão pernambucana
de Pereira da Costa tem esta quadra célebre:
Sobe arriba gageiro
Meu gageirinho real
avista terras de Espanha
Areias de Portugal
O extremamente curioso e culto Henry Koster descreve também, no seu
livro delicioso já citado, um fandango pernambucano na ilha de
Itamaracá em 1814.
Gira o auto em torno do romance português da "Nau da Catarineta".
Esta celebra em seus versos o naufrágio por que passou em 1565,
Jorge de Albuquerque Coelho, nosso 3o donatário. P. da
Costa sugere, na falta de outro como autor da "Nau Catarineta",
Bento Teixeira a quem chama Pinto. Hoje, depois dos estudos
definitivos do Historiador José Antônio Gonçalves de Mello sobre a
autoria da "Relação de naufrágio" e a Prosopopéia, sabe-se que o
autor da Relação do naufrágio foi o piloto Afonso Luís. O autor da
Prosopopéia, que não era Pinto, viveu entre 1561 e 1600, caindo
assim por terra a hipótese de P. da Costa, que era a de que bento
Teixeira teria viajado no navio náufrago de Jorge de Albuquerque e
poderia ser autor dos versos da Nau Catarineta. São relativamente
recentes os estudos de José Antonio. Já em 1927, porém, Gilberto
Freyre sugeria que o autor da Prosopopéia seria Bento Teixeira
denunciado nas Denuncias do Santo Ofício na Bahia, o que hoje a
melhor crítica histórica confirma.
No seu Folclore Mágico do Nordeste; Gonçalves Fernandes dedica um
capítulo ao estudo de A barca, denominação paraibana do autor do
Fandango, e aponta as diferenças entre um e outro auto, confrontando
com os dados do "Folclore" de P. da Costa. Com o nome da Barca
também é praticado no Ceará e na Bahia, onde ocorre, segundo
Cascudo, a presença de mouros que atacam a nau e são vendidos e
batizados, como na chegança de mouros.
De todos os autos populares profanos que celebram o ciclo do Natal,
parece que o Bumba-meu-boi é o mais tipicamente significativo e mais
genuinamente tropical e brasileiro, nordestino.
"Tirai da véspera de Reis o Bumba-meu-boi e ficai certos de que
roubareis à noite da festa o que ela tem de mais popular em todo o
norte do Brasil e de mais nosso, como assimilação de produto
elaborado", escreve Melo Morais Filho.
É o "folguedo brasileiro de maior significação estética e social"
afirma Renato Almeida. "O auto Bumba-meu-boi como existe no Brasil
não ocorre em paragem alguma do mundo" acrescenta Câmara Cascudo,
segundo o qual o auto nasceu e se formou no Nordeste: "O
Bumba-meu-boi no Brasil Central e Estados do estremo norte e sul foi
importação nordestina".
Informa Sílvio Romero que o auto popular mais apreciado em
Pernambuco era o cavalo-marinho. Pereira da Costa pretende que é de
origem pernambucana e em apoio de sua hipótese cita a quadra que ele
anota na versão pernambucana do auto:
Cavalo marinho
Dança bem baiano
Bem parece ser
Um pernambucano
E pela quadra declamada pelo endiabrado vaqueiro Mateus quando
verifica que o boi estava morto:
Meu boi morreu
Que será de mim
Mande buscar outro
Lá no Piauí,
conclui que o auto nasceu nos fins do século XVII, ao tempo da
colonização do Piauí. Cascudo acha que foi nas últimas décadas do
século XVIII. Ascenso Ferreira, que estranha a informação de Pereira
da Costa, para quem o Bumba era representado também no Carnaval,
cita na sua versão os seguintes versos que situam o auto dentro do
ciclo natalino:
"Meu galante, meu Jesus
Aceitai os meus louvores
Eu também vou adorar
Os Anjos que são cantores
Os anjos que são cantores
No trono da divindade
Eu também velho adorar
Canto sua eternidade
Ilustre e nobre auditório
Tão decente como honrado
Naquela noite excelente
Nasceu para nossa glória
Jesus Cristo onipotente
Adeus igreja temporal
Do tempo de Salomão
Foste feita com redenção
Para todos adorar
E dentro dela boas obras de fez
O galo cantou três vezes
Vamos todos adorar
O divino Santo-Reis.
Esta descrição do Bumba, apresentada no estudo de Ascenso Ferreira
para "Arquivos" da Prefeitura, com as músicas registradas por João
Valença e ilustrado também com os desenhos de Lula Cardoso Ayres, é
a do Bicho Misterioso, de Afogados, contemporâneo do Autor e que foi
escolhido por Gilberto Freyre como parte de um programa, na recepção
por ele oferecida, na despedida do Recife, aos oficiais da Marinha
norte-americana.
Na versão de Samuel Campelo o Valentão canta:
Naquela excelente noite
Aquela noite resplandecente
nasceu Jesus na Glória
Jesus cristo é um potente.
Também assim era na Bahia
Oi! de prata e de ouro
Se faz o metal
Oi! a sala dos Reis
É para nós festejar
Esta loa na versão apresentada por Melo de Morais Filho abre e fecha
o auto, na Bahia.
No "Coronel Macambira", Joaquim Cardozo fez o Capitão cantar, já no
fim do auto, quando o boi ressuscita:
"Hoje é a noite de Festa
Hoje é a missa do galo".
Comparando-se o número e participação de figurantes desde 1840, com
o Carapuceiro, através de Pereira da Costa até Samuel Campelo e
Ascenso Ferreira, o que se observa no Bumba é que não há
homogeneidade no auto que se recompõe cada ano, numa renovação
temática que dramatiza a curiosidade pondo à prova a inteligência
popular, mas não prejudicando a "essência dinâmica do interesse
folclórico", como a chama Cascudo. Deste é esta lição magistral: "O
Bumba meu boi é um auto de excepcional plasticidade e o de mais
intensa penetração afetuosa e social. Foi o primeiro a conquistar a
simpatia dos indígenas que o representam, preferencialmente, como os
Timbiras do Maranhão, e é difundido pelo Sul através da memória fiel
dos nordestinos emigrados. O negro está nos Congos. O português no
fandango ou marujada. O mestiço, crioulo, mameluco, dançando,
cantando, vivendo, está no Bumba-meu-boi, o primeiro auto nacional,
na legitimidade temática e lírica e no poder assimilador constante e
poderoso".
Haverá diferença entre as comemorações do natal nas diversas regiões
da terra? É exatamente a esta questão que este estudo pretendeu
responder, tratando das comemorações do Natal no Brasil tropical.
O Natal foi desde os primórdios do culto cristão, a festa mais
popular, criando por isto, cada povo, de acordo com suas tradições e
culturas, suas comemorações próprias. Permanecendo dentro do
contexto histórico do episódio bíblico poderemos dizer que assim
como os Santos Reis trouxeram, de um Oriente remoto e não nomeado,
para o Menino de Belém seus presentes tirados das riquezas naturais
de suas regiões, assim também todos os povos da terra trazem, para o
Presepe do Nascimento, as riquezas características das suas
tradições, costumes diversos, e diferentes culturas.
E a Igreja vê nessa variedade a força própria da sua universalidade
e da sua ecumenicidade já que pode adorar o Divino Salvador
recém-nascido no louvor de tantas línguas diferentes, nos usos e nas
formas de tantos grupos humanos, étnicas e culturalmente
diversificados. E em um decreto do último concílio ecumênico ela o
afirma como quem estabelece norma oficial de conduta e orientação
doutrinária: "Recebem as igrejas dos costumes e das tradições dos
seus povos, da sabedoria e da doutrina, das artes e das disciplinas,
tudo aquilo que pode contribuir para confessar a glória do criador,
ilustrar a graça do Salvador e ordenar como convém a vida cristã". E
ainda: "Toda a aparência de sincretismo e de falso particularismo
excluída, a vida cristã conformar-se-á bem ao gênio de cada cultura
às tradições particulares e as qualidades próprias de cada nação,
esclarecidas pela luz do Evangelho, serão assumidas na unidade
católica".
Todo o estudo da natureza do que aqui foi apresentado deve chegar a
um resultado, que é a conclusão final do estudo. E a conclusão final
deste estudo está no Manifesto lançado em 1926 por Gilberto Freyre
no Congresso de Regionalismo do Recife que foi o primeiro desta
espécie no Brasil e nas Américas.
Analisando neste Manifesto, já hoje célebre, na história de nossa
evolução espiritual, cultural e literária o gosto ou a mania de
imitação do que é de fora com desprezo e prejuízo do que é nosso
refere-se Gilberto Freyre a "esse carnavalesco Papai Noel como
escreve ele que esmagando com suas botas de andar em trenó e pisar
em neve, as velhas lapinhas brasileiras, verdes, cheirosas, de tempo
de verão, está dando uma nota de ridículo aos nossos natais de
família, também enfeitados agora com arvorizinhas estrangeiras
mandadas vir da Europa ou dos Estados Unidos pelos burgueses mais
cheios de rique-fifes e de dinheiro".
Encomendou a Júlio Bello para a edição comemorativa do centenário do
Diario de Pernambuco, declara ele no Manifesto, um estudo sobre
bumba-meu-boi, as cheganças, os pastoris, os mamulengos dos engenhos
da região.
"É pelo Natal, escreve Gilberto Freyre, nada de Papai Noel, descido
de chaminés que as casa não tem entre nós a não ser nas cozinhas,
mas o velho presepe ou a velha lapinha armada para pequenos e
grandes ao lado do restaurante: centro de toda uma realidade
regional".
Faço minhas, na conclusão deste trabalho, as palavras do fundador e
coordenador deste Seminário. No meio da desolação e da morte do
inverno da Europa central, somente se conserva verde o pinheiro
("Tannenbaum"), escolhido então para simbolizar o mistério do Cristo
vivo no meio da desolação e da morte do pecado. No Brasil perde a
árvore de Natal que os emigrantes europeus para aqui trouxeram seu
simbolismo próprio. É nesta estação do ano que nossas árvores são
mais perfumadas e seus frutos mais saborosos. Temos, portanto, que
dar ao mistério do Natal simbolismo apropriado e compreensível, até
do ponto de vista pastoral, ao nosso ambiente e à nossa realidade
socio-cultural.
Fonte: NOGUEIRA, (Monsenhor) Severino Leite. Comemoração do Natal no
Brasil Tropical. In: SEMINÁRIO DE TROPICOLOGIA: Trópico & problemas
de conciliação do moderno com o ecológico Tropical, desenvolvimento
industrial, valores Tropicais de cultura ante o impacto
desenvolvimentista, minerais, Maurício de Nassau, alguns
naturalistas europeus, gado caprino, comemoração do natal, 1975,
Recife. Anais... Recife: Fundaj, Massangana, 1982. p.210-221.
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