Pedro Franco

 MAMÃE E SAUDADES

A imprensa informa que a Leiteria BOL vai fechar. Lembrei-me de muitos anos atrás e com terna saudade, quando ia às compras no Centro com mamãe. O Rio era outro. Pegávamos o ônibus do Grajaú depois do almoço e, usualmente, eu dormia no trajeto. Ao chegar ao centro da cidade, era acordado, estava estremunhado e percorria de início as casas comerciais meio sonado. As senhoras, quando iam às compras, andavam de cansar criança, apesar dos saltos altos e chapéus. A cidade, no caso, era o centro desta mui leal e sofrida São Sebastião do Rio de Janeiro. Ruas do Ouvidor, Gonçalves Dias, Uruguaiana, Largo da Carioca e adjacências. Havia os bairros da Zona Norte, da Zona Sul, os subúrbios, a Zona Rural e as ilhas. Nem se falava na Barra da Tijuca e multo menos no Recreio dos Bandeirantes. Pasmem os mais novos, não havia shoppings! Voltemos às senhoras, acompanhadas de outra, ou de filho, pois uma senhora não andava só e maridos não faziam compras. Especulavam preços e, multas vezes, voltavam à primeira loja visitada. Eu me vestia no Príncipe, "o que veste hoje o homem de amanhã". Um tio conhecia o dono do "Príncipe" e havia a chamada diferença no preço.

Quando as pernas começavam a doer e os sorrisos minguavam, mamãe olhava-me e vinha a frase salvadora:
– Vamos lanchar na BOL?
Casa de lanches, estreita, comprida e sempre com os mesmos garçons. Sei que entrar nesta casa de lanche era uma festa para os pés e farra para a barriga. Chocolate gelado e sanduíche de presunto. Cadeiras estreitas, embrulhos nas outras duas que sobravam. Lembro-me que as paredes da BOL eram espelhadas e havia pormenores avermelhados.

Depois, continuávamos a andança. Íamos ver papai na Tesouraria da Caixa Econômica Federal. Ouvi muito "como está crescido!". E muitas senhoras tinham o mau hábito de apertar-me as bochechas. Havia, quase sempre, uma passagem em casa de brinquedos, ou na Loja de Dois Mil Reis, que virou depois Lojas Americanas. De acordo com o orçamento ganhava brinquedo, ou jogo. E como vibrava! Andávamos principalmente nas ruas do Ouvidor e Gonçalves Dias. Crianças da classe média ganhavam menos presentes do que as de agora, não tinham computadores, e arrisco-me a dizer que eram mais crianças e mais felizes no geral.




Direção e Editoria
Irene Serra