Milton Ximenes Lima

 ALÉNS E AQUÉNS DO MEU CORAÇÃO

Estou não sei onde. Talvez numa outra dimensão. À minha frente um litoral imenso, ondas de muitas solidões se debruçam calmamente sobre as areias líquidas. Ao longe, uma pessoa-alma vem na minha direção. Bem mais perto, identifico o vulto da Maria Luiza de muito tempo atrás, lá em terras do Espírito Santo, mais precisamente na paisagem rural de Cachoeiro de Itapemirim, onde, normalista recém-formada, teve que se deslocar, de trem-de-ferro e lombos de muares, para a as fazendas do interior do Município: Barra de Capivara (16.05.1928), Fazenda do Oriente (17.03.1929), da Barra do Mutum (01.05.1932), São João de Viçosa (09.02.1934), Duas Barras (20.04. 1934). No retorno à sede municipal, passagens, a partir de 06.04.1937, pelos Grupos Escolares Graça Guárdia e Bernardino Monteiro. Neste último, foi uma das fundadoras do inédito Curso Noturno de Alfabetização de Adultos, nele também lecionando. Colaborou na Campanha de Alfabetização, sob o comando da famosa Professora Zilma Coelho Pinto, que, por isto, recebeu prêmio de Honra ao Mérito, patrocinado e divulgado para todo o Brasil pela então “poderosa” Rádio Nacional! Trabalhou também na Escola da Serraria Atílio Vivacqua, instalada no salão do Clube Cruzador Brasileiro. Nessa ocasião, recebeu o impacto da notícia do falecimento do seu marido, engenheiro-arquiteto Eugênio Lima, então trabalhando na cidade fluminense de Cabo Frio. Ficou então, já com três filhos, com a responsabilidade da administração familiar. Em cansaço existencial e cultivando ausências tantas, abraçando tristezas tantas, desaprendeu a sorrir! Também, a saúde oscilou, alguns anos mais tarde, quase lhe abreviou o existir (mastectomia). Ao do magistério juntou ganhos da confecção (noturna) de chapéus para bebês. Em casa, tinha ajuda da Elvira, praticamente uma segunda mãe de criação para nós. Aposentando-se pelo Estado, manteve, com êxito, de 1951 a 1960, um curso preparatório para exames aos ginásios, que somou a presença de 369 alunos, a maioria hoje inserida na sociedade cachoeirense. Logo depois se preocupou, então, com seu último magistério: a vigilância quanto ao destino dos filhos Milton (advogado) Maria Eugênia (economista) e Maria José (médica), aos quais sempre seriamente alertava: “Pobre não tem padrinho, só se constrói sozinho!”

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Minha irmã, Maria José, não se recorda, mas a única vez que a ouvi cantando, foi logo após o seu luto: “Tão longe, de mim distante – Onde irá, onde irá seu pensamento?” Grato, querido maestro Carlos Gomes! (Quem sabe?)!

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Volto à praia, tentando permutar, ansiosamente, pensamentos irreais, mas... fortemente saudosos... Espírito e carne: não nos tocamos, porque essa era uma impossibilidade existencial. Angústias do não mais, definitivamente..., mas acolhendo no peito o orgulho e a alegria de ser filho de personalidade tão guerreira!
Assim, só desejo que Deus a abrace e a envolva com a força de suas energias espirituais finais! Onde ela estiver! Obrigado, mãe!
Acresço, enfim: em 25 de junho de 2019, a Prefeitura Municipal de Cachoeiro de Itapemirim lhe concedeu o diploma de “Cachoeirense in Memoriam”, destinado a quem, não nascido no Município, contribuiu para os desenvolvimentos cultural e econômico da cidade. Ela era de Macaé, Rio de Janeiro.






Direção e Editoria
Irene Serra