Irene Serra

 DOIS CORAÇÕES


Tive a honra e a sorte de ter duas mães. Diferentes em quase tudo: fisicamente, no estudo e saber, em gênio, humor... Mas carinho, dedicação, amor se igualavam, o que trazia, inclusive, certo ciúme entre ambas.

Enquanto minha mãe biológica ia para o trabalho (coordenadora pedagógica nos colégios Eliezer Steinbarg, Max Nordau e Mello e Souza) e os irmãos mais velhos estavam na escola, a mãe do coração fazia suas atividades com olhos vigilantes a tudo, e eu, ao seu lado, recortando figuras de revistas para presentear quando mamãe chegasse em casa. Que festa esta fazia! E eu sentia que estava lhe dando os melhores sabonetes e perfumes. Ah, Cashmere Bouquet!

Fins de semana, após praia, cinema, passeios – os piqueniques no Alto da Boa Vista e no Parque da Cidade são inesquecíveis –, a noite era para os pais saírem e se divertirem. E lá ia minha mãe, linda, perfumada e formosa com seu galante marido.

Quem ficava conosco? A babá, a mãe do coração. Sua humildade era impressionante! Não se intrometia nas conversas da família, mas estava sempre a um passo para ajudar no que fosse necessário. Protegia-me de tudo, mesmo quando eu estava errada; todas as tardes, após horas de estudo, lá vinha com uma laranjada "para  refrescar a cabeça, você estuda muito". Olhava-me como ninguém, aquele olhar de fidelidade incondicional, uma batidinha de cabeça quando queria que eu a seguisse para contar algo; presentes que não condiziam com sua realidade, mas que fazia questão de dá-los. Sei o que é ser mimada, e como sinto falta...

As cartas mais lindas recebi da minha mãe e as guardo com carinho. Ela era comedida, não se extravasava em carinhos aparentes. Muitas vezes, quando sabia que iria se emocionar, escrevia e deixava embaixo do meu travesseiro. E, geralmente, começavam com "quisera ter o dom da escrita para lhe fazer poemas como seu pai..." Trago sua tenacidade, força de vontade e o nunca esmorecer diante de qualquer dificuldade.

Duas personalidades opostas e que moldaram o que sou. Estivemos, por toda vida, sempre ao lado uma das outras, e não sou merecedora de tudo que delas recebi. Só queria ter alguém, em minha morte, que estivesse comigo como eu estava com elas.






Direção e Editoria
Irene Serra