Daniel de Boni
“O Amante” (1992) ficou marcado por uma mentira que o diretor Jean-Jacques
Annaud alimentou de propósito. Ele insinuou à imprensa que as cenas de sexo
entre a garota de 15 anos e o chinês rico eram reais. O boato estampou as
primeiras páginas dos tabloides ingleses por dias. A vida da atriz Jane
March, então com 17 anos, virou um inferno. Ela adoeceu, sofreu um colapso
nervoso e fugiu para as Ilhas Seychelles. Anos depois, Annaud confessou: “É
claro que eles não transaram.” E nunca mais deu entrevistas na Grã-Bretanha.
A protagonista não veio de uma escola de teatro nem de um teste
convencional. A própria esposa do diretor folheava uma revista de moda
adolescente quando viu a foto de uma modelo britânica de 16 anos. Mostrou a
ele. Jane March nunca tinha atuado antes. Enquanto isso, nomes como Milla
Jovovich, Fairuza Balk e Samantha Mathis haviam feito o teste e perdido o
papel. March contou que, ao ver o filme pronto, sentou-se na sala de
exibição e chorou. “Foi o fim da minha aventura”, declarou. “O fim da minha
primeira escapada na vida.”
Antes de filmar, Annaud viajou ao Vietnã
em 1989 para conhecer os cenários do romance original. Achou o país
deplorável. No melhor hotel colonial, segundo ele, ratos enormes corriam
pelos corredores e aranhas tomavam conta de tudo. Ao abrir a torneira,
pingaram três gotas de água marrom. Ele desistiu na hora. Procurou locações
na Malásia, Tailândia e Filipinas. Nenhum lugar, porém, reproduzia aquela
decadência de museu. Um ano depois, voltou ao Vietnã. Era o único país que
entregava o que ele chamou de “Ásia eterna”.
A Motion Picture
Association of America deu ao filme a temida classificação NC-17, que proíbe
menores de 17 anos. A produtora cortou três minutos de longas panorâmicas e
entrou com recurso. Annaud entrou na briga com um argumento pessoal: “Tenho
duas filhas da mesma idade da garota na tela e queria que elas soubessem que
foram concebidas em um momento de intenso prazer.” Uma educadora sexual
ainda lembrou que “Instinto Selvagem” tinha conteúdo explícito e ganhara
classificação R. O recurso funcionou. “O Amante” foi rebaixado para maiores
de 17.
A história do amante de Marguerite Duras nunca foi uma só. Nos
cadernos de guerra, escritos na década de 1940, o amante era vietnamita,
acometido pela varíola, e o sexo aconteceu uma única vez. No primeiro
romance publicado, o pretendente chamava-se Monsieur Jo e era branco. Depois
veio o chinês milionário da adaptação de Annaud, inspirado em Huynh Thuy Le,
cuja mansão em Sadec existe até hoje. Anos mais tarde, na briga com o
diretor, Duras ainda inventou uma nova versão. Qual é a verdadeira? Nunca se
saberá.
O fato é que Annaud ambientou “O Amante” nas ruas de Saigon,
com seus sobrados, pontes e aquele ar de passado em suspenso. E o que
permanece na memória é o navio cortando o rio, levando a garota para longe.
Pesquisa e redação: Daniel de
Boni
Músico e criador do projeto Filmoscópio
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