01/03/2026
Ano 29
Semana 1.497





ARQUIVO
FILMOSCÓPIO


 
















Highlander



Daniel de Boni


Quando Sean Connery chegou ao set de 'Highlander' (1986), tudo já estava milimetricamente cronometrado: sete dias de filmagem, um milhão de dólares e um certo ceticismo no ar. Ele mesmo duvidava que fosse possível concluir todas as suas cenas nesse prazo apertado. Mas o diretor Russell Mulcahy, experiente nos videoclipes, tinha senso de urgência e olhos velozes. Cumpriu o desafio. E Connery, com todo seu charme, pagou o que devia: perdeu a aposta, mas saiu com o bolso cheio e a honra intacta.

Christopher Lambert passava as manhãs treinando com um instrutor de dialeto e as tardes empunhando espada com Bob Anderson, ex-dublê de Darth Vader. Clancy Brown mergulhou tanto no papel do vilão que chegou a assustar colegas e quase feriu Connery com uma espada errante e um candelabro despencando do teto. Os figurantes ganhavam 25 libras por dia, mais dez se trouxessem cavalos, e uma garrafa de uísque. Dormiam ao relento, bebiam metade da noite e ainda voltavam no dia seguinte, como se fosse natural.

Enquanto o filme tratava de imortais, nos bastidores tudo era deliciosamente caótico. Cada solução técnica parecia um truque de mágica com fita isolante. Fios alimentados por baterias de carro, presas às pernas dos atores, soltavam faíscas reais quando as espadas se chocavam. Para a cena do veado, chifres postiços foram colados no animal, que acabou evadindo o set e foi encontrado dias depois, a 40 km do set, vagando pelas estradas do interior, livre dos chifres postiços.

Foi então que entrou o Queen. Inicialmente convidada para compor uma única canção, a banda viu uma versão inacabada do filme e não resistiu. Brian May criou “Who Wants to Live Forever” ainda tomado pela emoção, num táxi de volta para casa. Roger Taylor capturou uma frase solta de Connery — "It’s a kind of magic" — e transformou em um hino. No fim, compuseram uma trilha sonora que pulsa como o coração da própria trama. Poucos casamentos entre imagem e som soaram tão orgânicos e duradouros.

A fantasia guerreira fracassou nas bilheterias, mas sobreviveu. Viajou no tempo como seu protagonista, ganhou status de cult, desdobrou-se em sequências, séries, debates e reverências. O que era para ser só mais uma fantasia dos anos 80 se tornou eterno. Talvez porque ali houvesse algo que o público reconheceu, mesmo que instintivamente: a força de um mito e uma verdade que ninguém mais ousa questionar: "só pode haver um"..





Pesquisa e redação: Daniel de Boni
Músico e criador do projeto Filmoscópio
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Direção e Editoria
Irene Serra
Revista Rio Total