16/11/2025
Ano 29
Semana 1.483





ARQUIVO
FILMOSCÓPIO


 




O Teatro da Vida: Tragédia e Comédia de Grande Otelo


Daniel de Boni


Sebastião Bernardes de Souza Prata nasceu em Uberlândia, Minas Gerais, em 1915. Na infância, perdeu o pai, assassinado a facadas, e a mãe, uma cozinheira que mantinha o copo de cachaça ao lado do fogão, acabou se casando novamente. Aos oito anos, o menino inquieto e precoce foi entregue para adoção, mas não se conformava com o destino imposto. Fugiu de casa diversas vezes, até que, durante a visita de uma companhia de teatro mambembe à cidade, aproveitou para escapar de vez. A diretora do grupo, Abigail Parecis, o adotou “de papel passado” e o levou para São Paulo.

No novo lar, sua tarefa era acompanhar a filha de dona Abigail às aulas de piano. Mas o garoto fugiu novamente e, após várias passagens pelo Juizado de Menores, foi adotado pela família do político Antônio de Queiroz. Dona Eugênia, esposa de Queiroz, havia ido ao juizado em busca de uma menina para ajudá-la na cozinha. Saiu de lá com o “negrinho fujão que sabia declamar, dançar e fazer graça”. Sob a guarda dos Queiroz, o menino estudou no Colégio Sagrado Coração de Jesus, dirigido por padres salesianos, até a terceira série ginasial. A disciplina formal, porém, nunca conteve o artista nato que, de fato, era.

Nos anos 1920, integrou a Companhia Negra de Revistas, cujo maestro era Pixinguinha. Em 1932, entrou para a Companhia Jardel Jércolis, onde adotou o nome artístico que o consagraria. Chamado de “Pequeno Otelo”, uma referência à ópera Otelo, de Verdi, que ele gostava de cantar na infância, ele traduziu para o inglês, apresentando-se como ‘The Great Othelo’, até abrasileirar o pseudônimo mais tarde. Em 1935, estreou no cinema, iniciando uma carreira que duraria quase seis décadas, marcada por talento, resistência e carisma.

A consagração veio nas chanchadas da Atlântida, ao lado de Oscarito, formando uma das duplas mais queridas do cinema brasileiro. Mas, enquanto o público ria, sua vida pessoal atravessava tragédias. Em 1949, durante as filmagens de “Carnaval no Fogo”, sua esposa matou o filho de seis anos e se suicidou. Otelo, que naquele dia rodava uma cena cômica com Oscarito — ele de Julieta, o parceiro de Romeu —, filmou sem saber de nada. Só assistiria àquela sequência quase trinta anos depois. Mesmo devastado, seguiu adiante, encontrando na arte o único refúgio possível.





Nas décadas seguintes, tornou-se um símbolo da cultura popular, com atuações memoráveis no teatro, no cinema e na televisão. Mas foi em “Macunaíma” (1969), de Joaquim Pedro de Andrade, que ele entregou uma das performances mais celebradas da história do cinema brasileiro. No fim da vida, Grande Otelo acumulava prêmios e homenagens por sua contribuição à cultura nacional. Em 1993, a caminho da França, onde seria homenageado no Festival de Nantes, sofreu um infarto fulminante. Partiu como viveu: em trânsito entre a dor e o brilho, entre a comédia e a tragédia — o homem que Orson Welles um dia chamou de “o maior ator do mundo.”




Pesquisa e redação: Daniel de Boni
Músico e criador do projeto Filmoscópio
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Revista Rio Total