|
O Teatro da Vida: Tragédia e Comédia de Grande Otelo

Daniel de Boni
Sebastião Bernardes de Souza Prata nasceu em
Uberlândia, Minas Gerais, em 1915. Na infância, perdeu o pai, assassinado a
facadas, e a mãe, uma cozinheira que mantinha o copo de cachaça ao lado do
fogão, acabou se casando novamente. Aos oito anos, o menino inquieto e
precoce foi entregue para adoção, mas não se conformava com o destino
imposto. Fugiu de casa diversas vezes, até que, durante a visita de uma
companhia de teatro mambembe à cidade, aproveitou para escapar de vez. A
diretora do grupo, Abigail Parecis, o adotou “de papel passado” e o levou
para São Paulo.
No novo lar, sua tarefa era acompanhar a filha de
dona Abigail às aulas de piano. Mas o garoto fugiu novamente e, após várias
passagens pelo Juizado de Menores, foi adotado pela família do político
Antônio de Queiroz. Dona Eugênia, esposa de Queiroz, havia ido ao juizado em
busca de uma menina para ajudá-la na cozinha. Saiu de lá com o “negrinho
fujão que sabia declamar, dançar e fazer graça”. Sob a guarda dos Queiroz, o
menino estudou no Colégio Sagrado Coração de Jesus, dirigido por padres
salesianos, até a terceira série ginasial. A disciplina formal, porém, nunca
conteve o artista nato que, de fato, era.
Nos anos 1920, integrou a
Companhia Negra de Revistas, cujo maestro era Pixinguinha. Em 1932, entrou
para a Companhia Jardel Jércolis, onde adotou o nome artístico que o
consagraria. Chamado de “Pequeno Otelo”, uma referência à ópera Otelo, de
Verdi, que ele gostava de cantar na infância, ele traduziu para o inglês,
apresentando-se como ‘The Great Othelo’, até abrasileirar o pseudônimo mais
tarde. Em 1935, estreou no cinema, iniciando uma carreira que duraria quase
seis décadas, marcada por talento, resistência e carisma.
A
consagração veio nas chanchadas da Atlântida, ao lado de Oscarito, formando
uma das duplas mais queridas do cinema brasileiro. Mas, enquanto o público
ria, sua vida pessoal atravessava tragédias. Em 1949, durante as filmagens
de “Carnaval no Fogo”, sua esposa matou o filho de seis anos e se suicidou.
Otelo, que naquele dia rodava uma cena cômica com Oscarito — ele de Julieta,
o parceiro de Romeu —, filmou sem saber de nada. Só assistiria àquela
sequência quase trinta anos depois. Mesmo devastado, seguiu adiante,
encontrando na arte o único refúgio possível.

Nas décadas seguintes,
tornou-se um símbolo da cultura popular, com atuações memoráveis no teatro,
no cinema e na televisão. Mas foi em “Macunaíma” (1969), de Joaquim Pedro de
Andrade, que ele entregou uma das performances mais celebradas da história
do cinema brasileiro. No fim da vida, Grande Otelo acumulava prêmios e
homenagens por sua contribuição à cultura nacional. Em 1993, a caminho da
França, onde seria homenageado no Festival de Nantes, sofreu um infarto
fulminante. Partiu como viveu: em trânsito entre a dor e o brilho, entre a
comédia e a tragédia — o homem que Orson Welles um dia chamou de “o maior
ator do mundo.”

Pesquisa e redação: Daniel de
Boni Músico e criador do projeto Filmoscópio
https://www.facebook.com/filmmoscopio
Direitos Reservados. É proibida a reprodução deste artigo sem autorização do autor.

|