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Quando Capra fez da dor a moeda da esperança

Daniel de Boni
Por trás do rosto
desesperado de George Bailey, havia uma alma em frangalhos. Ao voltar da
Segunda Guerra Mundial, James Stewart carregava o peso do estresse
pós-traumático. Não por acaso, as crises de raiva e angústia de seu
personagem em A felicidade não se compra (1946) funcionaram como uma catarse
para essa dor real. A cena em que ele, no bar, reza até soluçar foi tão
visceral que Frank Capra reenquadrou o plano para capturar aquele rosto
devastado. Naquele momento, a linha entre a ficção e a vida se dissolveu,
emprestando ao filme uma autenticidade trágica.
Essa não era uma dor
alheia ao homem por trás da câmera. Frank Capra viu em George Bailey um
espelho de seus próprios demônios. Assim como George, ele se considerava um
fracasso por anos, incapaz de aplicar sua formação em engenharia. Em sua
narrativa, os irmãos Sam Wainwright e Harry Bailey – que fizeram fortuna com
'plásticos' e vidro – eram ecos de sua própria carreira abandonada. Até os
imigrantes Martini, que levavam na bagagem uma cabra e o próprio sobrenome
'Capra', carregavam nas veias o DNA siciliano de seu criador. Esta era a sua
fábula pessoal.

No entanto, a obra-prima de Capra foi elaborada não
apenas pela autorreferência, mas pela sabedoria de ceder ao acaso. Para a
cena em que Donna Reed joga uma pedra na janela, um atirador havia sido
contratado para quebrar o vidro. Para espanto de todos, a própria atriz, uma
ex-jogadora de beisebol, fez o serviço com um arremesso preciso e vigoroso.
Capra, visionário, usou a tomada. O mesmo instinto o fez manter o tropeço
genuíno do Tio Billy e o beijo impulsivo de George na tia que pediu "17,50".
A perfeição, notou, residia no acidente. Para abrigar tanta verdade
humana, foi necessário erguer uma ilusão colossal. Bedford Falls, uma das
maiores ruas cenográficas já construídas, nasceu em um rancho de quatro
acres. Para a sequência invernal, a equipe revolucionou os efeitos
especiais, produzindo uma neve silenciosa de espuma, sabão e açúcar que
substituiu os barulhentos flocos de milho. Seis mil galões dessa mistura
cobriram o set, criando o cenário gélido para o desespero quente de George.
A fé, afinal, precisava de alicerces de aço e química. Ironia das
ironias, este pilar da cultura americana estreou em fracasso. Mesmo com
cinco indicações ao Oscar, foi recebido com críticas mornas, chamado de
"horrível" por seus roteiristas e investigado pelo FBI como "propaganda
comunista". O legado de Capra murchava, até que o domínio público o liberou
na televisão, onde a rotina de exibição natalina forjou seu status de
clássico. Nascido das angústias de seus criadores, A felicidade não se compra
converteu-se, afinal, no maior presente de esperança que o cinema
poderia dar ao mundo.
Pesquisa e redação: Daniel de
Boni Músico e criador do projeto Filmoscópio
https://www.facebook.com/filmmoscopio
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