|
A última carta de amor ao cinema
Daniel de Boni
Massimo Troisi sabia que seu coração estava por um fio. Ainda assim, adiou
uma cirurgia para filmar O Carteiro e o Poeta (1994). A cada manhã na ilha
de Procida, chegava ao set pálido, com o fôlego curto, mas os olhos fixos no
horizonte. Só podia trabalhar por cerca de uma hora, tempo precioso que a
produção consumia com precisão cirúrgica. As cenas mais extenuantes ficavam
para o dublê — cuja semelhança era tão perfeita que, na edição final, até o
diretor Michael Radford confessou não saber distinguir quem era quem. Troisi
parecia saber que estava fazendo sua despedida, e que cada plano seria um
testamento silencioso. No dia seguinte ao último “corta”, seu coração parou.
Quanto à ficção, é simples: Mario (Troisi) é um carteiro tímido que se
aproxima de Pablo Neruda e descobre na poesia um caminho para conquistar
Beatrice (Maria Grazia Cucinotta). Nos bastidores, porém, o verdadeiro drama
acontecia. O cronograma foi reformulado para se ajustar à fragilidade do
protagonista: primeiro as cenas sentado, depois as de pé, depois as de
bicicleta — sempre dosando a energia. Enquanto o público veria um romance
nascer sob o sol, no set imperava um silêncio reverente, como se todos
soubessem que cada dia de trabalho poderia ser o último.

Rodado em
onze semanas, com apenas uma pausa na Páscoa, o filme foi o encontro
improvável de três mundos: o texto do chileno Antonio Skármeta transportado
para o sul da Itália, a direção de um inglês fluente na língua, e um
protagonista napolitano cuja delicadeza física contrastava com a intensidade
da presença. Procida, com suas fachadas desbotadas e um mar cuja cor mudava
de azul a cinza em minutos, tornou-se parte da trama. Anos depois, a praça
central da ilha ganharia o nome de Troisi, como se a vila quisesse eternizar
aquele verão em que realidade e ficção se fundiram. O longa, modesto
em recursos, atravessou fronteiras. Ficou quase dois anos em cartaz em Nova
York, conquistou cinco indicações ao Oscar e deu a Troisi e ao produtor
Mario Cecchi Gori honrarias póstumas. Seu maior prêmio, porém, não está nas
estatuetas, mas na aura de despedida contida em cada fotograma, à luz de
quem acreditou que uma hora de criação valia mais do que uma vida prolongada
sem ela. Em O Carteiro e o Poeta, a última entrega que Mario faz não está no
roteiro — é Massimo Troisi enviando, para quem quisesse receber, sua
derradeira carta de amor ao cinema.
Pesquisa e redação: Daniel de
Boni Músico e criador do projeto Filmoscópio
https://www.facebook.com/filmmoscopio
Direitos Reservados. É proibida a reprodução deste artigo sem autorização do autor.

|