Daniel de Boni
No verão de 1929, Mário Peixoto estava em Paris, aproveitando férias de seus
estudos na Inglaterra. Ao caminhar pelas ruas da
Ville Lumière, deparou-se com a
capa de um folhetim que mudaria sua vida para sempre: duas mãos masculinas
algemadas ao redor do pescoço de uma mulher que encarava a câmera. Naquela mesma
noite, sem saber ao certo o que fazer, Peixoto começou a escrever um roteiro,
que intitulou
Limite. Mal podia imaginar o impacto que esse projeto teria na
história, não apenas do cinema nacional, mas também mundial.

No final do
mesmo ano, voltou ao Brasil e assistiu
Brasa Dormida, de Humberto Mauro, com
alguns amigos. Então, concluiu o roteiro e resolveu fazer um filme mudo. Na
trama, uma mulher que escapou da prisão (inspiração da capa do folhetim) está
com outra mulher desesperada e um homem que perdeu sua amante, todos os três num
barco à deriva. Exaustos, eles param de remar e se conformam com a morte,
enquanto suas memórias são apresentadas em flashbacks descontínuos.
O roteiro
pronto foi apresentado a Adhemar Gonzaga e Humberto Mauro, duas grandes
referências da época. Nenhum deles poderia dirigi-lo, mas ambos perceberam que
Peixoto, mesmo sem experiência, era quem deveria assumir a função. Ele decidiu
encarar o desafio: reuniu elenco e equipe na Fazenda Santa Justina, em
Mangaratiba, propriedade de seu tio, que forneceu tudo o que era necessário – da
comida diária ao veleiro usado nas cenas em alto-mar. Entre maio e outubro de
1930, virtuosismo e criatividade moldaram cada etapa das filmagens.

Foi por
meio da indicação de Adhemar Gonzaga que Edgar Brasil assumiu a fotografia,
dando forma à ousadia e experimentalismo de
Limite. Nascido em Hamburgo, Edgar
trouxe ao país a película pancromática de alta sensibilidade, capaz de captar
sutis escalas de cinza. E, embora faltassem recursos, sobravam-lhe inteligência
prática e vigor físico para compensar. Ele construiu com as próprias mãos um
andor, uma grua rudimentar e um praticável, além de erguer um laboratório para
revelar o filme. De câmera em punho, executou travellings para a frente,
movimentos verticais e circulares, planos móveis que transformavam em imagem
cada visão de Mário Peixoto. A montagem, assinada pelo próprio Peixoto,
intensificou essa singularidade ao entrelaçar a fuga da prisão com uma cena de
O
Aventureiro (1927), de Charles Chaplin – um “filme dentro do filme”. Com essa
abordagem,
Limite entrou para o seleto grupo de produções que desafiam a
passagem do tempo, dissolvendo a narrativa em ritmo não linear.
Exibido
apenas duas vezes em 1931 e em raras ocasiões posteriores, o longa caiu no
esquecimento, sem distribuição ou exibição comercial. Peixoto ainda tentou
realizar outros filmes (
Onde a Terra Acaba,
Maré Baixa,
A Alma Segundo
Salustre), mas diversos entraves o impediram. Redescoberto e restaurado por
Plínio Süssekind Rocha e, depois, pelo projeto de Martin Scorsese, foi exibido
na seção de clássicos do Festival de Cannes e, desde 2015, ocupa o primeiro
lugar na lista dos 100 melhores filmes brasileiros da Abraccine. Reza a lenda
que Sergei Eisenstein e Orson Welles o admiraram. Mesmo insólito,
Limite
garantiu um lugar privilegiado na história do cinema, como uma das raras obras
autorais que a posteridade é obrigada a reconhecer.
Pesquisa e redação: Daniel de
Boni
Músico e criador do projeto Filmoscópio
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