16/8/2025
Ano 28
Semana 1.471





ARQUIVO
FILMOSCÓPIO


 



Limite: um desafio ao tempo e ao esquecimento


Daniel de Boni


No verão de 1929, Mário Peixoto estava em Paris, aproveitando férias de seus estudos na Inglaterra. Ao caminhar pelas ruas da Ville Lumière, deparou-se com a capa de um folhetim que mudaria sua vida para sempre: duas mãos masculinas algemadas ao redor do pescoço de uma mulher que encarava a câmera. Naquela mesma noite, sem saber ao certo o que fazer, Peixoto começou a escrever um roteiro, que intitulou Limite. Mal podia imaginar o impacto que esse projeto teria na história, não apenas do cinema nacional, mas também mundial.

No final do mesmo ano, voltou ao Brasil e assistiu Brasa Dormida, de Humberto Mauro, com alguns amigos. Então, concluiu o roteiro e resolveu fazer um filme mudo. Na trama, uma mulher que escapou da prisão (inspiração da capa do folhetim) está com outra mulher desesperada e um homem que perdeu sua amante, todos os três num barco à deriva. Exaustos, eles param de remar e se conformam com a morte, enquanto suas memórias são apresentadas em flashbacks descontínuos.

O roteiro pronto foi apresentado a Adhemar Gonzaga e Humberto Mauro, duas grandes referências da época. Nenhum deles poderia dirigi-lo, mas ambos perceberam que Peixoto, mesmo sem experiência, era quem deveria assumir a função. Ele decidiu encarar o desafio: reuniu elenco e equipe na Fazenda Santa Justina, em Mangaratiba, propriedade de seu tio, que forneceu tudo o que era necessário – da comida diária ao veleiro usado nas cenas em alto-mar. Entre maio e outubro de 1930, virtuosismo e criatividade moldaram cada etapa das filmagens.

Foi por meio da indicação de Adhemar Gonzaga que Edgar Brasil assumiu a fotografia, dando forma à ousadia e experimentalismo de Limite. Nascido em Hamburgo, Edgar trouxe ao país a película pancromática de alta sensibilidade, capaz de captar sutis escalas de cinza. E, embora faltassem recursos, sobravam-lhe inteligência prática e vigor físico para compensar. Ele construiu com as próprias mãos um andor, uma grua rudimentar e um praticável, além de erguer um laboratório para revelar o filme. De câmera em punho, executou travellings para a frente, movimentos verticais e circulares, planos móveis que transformavam em imagem cada visão de Mário Peixoto. A montagem, assinada pelo próprio Peixoto, intensificou essa singularidade ao entrelaçar a fuga da prisão com uma cena de O Aventureiro (1927), de Charles Chaplin – um “filme dentro do filme”. Com essa abordagem, Limite entrou para o seleto grupo de produções que desafiam a passagem do tempo, dissolvendo a narrativa em ritmo não linear.

Exibido apenas duas vezes em 1931 e em raras ocasiões posteriores, o longa caiu no esquecimento, sem distribuição ou exibição comercial. Peixoto ainda tentou realizar outros filmes (Onde a Terra Acaba, Maré Baixa, A Alma Segundo Salustre), mas diversos entraves o impediram. Redescoberto e restaurado por Plínio Süssekind Rocha e, depois, pelo projeto de Martin Scorsese, foi exibido na seção de clássicos do Festival de Cannes e, desde 2015, ocupa o primeiro lugar na lista dos 100 melhores filmes brasileiros da Abraccine. Reza a lenda que Sergei Eisenstein e Orson Welles o admiraram. Mesmo insólito, Limite garantiu um lugar privilegiado na história do cinema, como uma das raras obras autorais que a posteridade é obrigada a reconhecer.




Pesquisa e redação: Daniel de Boni
Músico e criador do projeto Filmoscópio
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Revista Rio Total