16/05/2026
Ano 29
Semana 1.507





ARQUIVO
FILMOSCÓPIO


 
















O amante



Daniel de Boni

“O Amante” (1992) ficou marcado por uma mentira que o diretor Jean-Jacques Annaud alimentou de propósito. Ele insinuou à imprensa que as cenas de sexo entre a garota de 15 anos e o chinês rico eram reais. O boato estampou as primeiras páginas dos tabloides ingleses por dias. A vida da atriz Jane March, então com 17 anos, virou um inferno. Ela adoeceu, sofreu um colapso nervoso e fugiu para as Ilhas Seychelles. Anos depois, Annaud confessou: “É claro que eles não transaram.” E nunca mais deu entrevistas na Grã-Bretanha.

A protagonista não veio de uma escola de teatro nem de um teste convencional. A própria esposa do diretor folheava uma revista de moda adolescente quando viu a foto de uma modelo britânica de 16 anos. Mostrou a ele. Jane March nunca tinha atuado antes. Enquanto isso, nomes como Milla Jovovich, Fairuza Balk e Samantha Mathis haviam feito o teste e perdido o papel. March contou que, ao ver o filme pronto, sentou-se na sala de exibição e chorou. “Foi o fim da minha aventura”, declarou. “O fim da minha primeira escapada na vida.”

Antes de filmar, Annaud viajou ao Vietnã em 1989 para conhecer os cenários do romance original. Achou o país deplorável. No melhor hotel colonial, segundo ele, ratos enormes corriam pelos corredores e aranhas tomavam conta de tudo. Ao abrir a torneira, pingaram três gotas de água marrom. Ele desistiu na hora. Procurou locações na Malásia, Tailândia e Filipinas. Nenhum lugar, porém, reproduzia aquela decadência de museu. Um ano depois, voltou ao Vietnã. Era o único país que entregava o que ele chamou de “Ásia eterna”.

A Motion Picture Association of America deu ao filme a temida classificação NC-17, que proíbe menores de 17 anos. A produtora cortou três minutos de longas panorâmicas e entrou com recurso. Annaud entrou na briga com um argumento pessoal: “Tenho duas filhas da mesma idade da garota na tela e queria que elas soubessem que foram concebidas em um momento de intenso prazer.” Uma educadora sexual ainda lembrou que “Instinto Selvagem” tinha conteúdo explícito e ganhara classificação R. O recurso funcionou. “O Amante” foi rebaixado para maiores de 17.

A história do amante de Marguerite Duras nunca foi uma só. Nos cadernos de guerra, escritos na década de 1940, o amante era vietnamita, acometido pela varíola, e o sexo aconteceu uma única vez. No primeiro romance publicado, o pretendente chamava-se Monsieur Jo e era branco. Depois veio o chinês milionário da adaptação de Annaud, inspirado em Huynh Thuy Le, cuja mansão em Sadec existe até hoje. Anos mais tarde, na briga com o diretor, Duras ainda inventou uma nova versão. Qual é a verdadeira? Nunca se saberá.

O fato é que Annaud ambientou “O Amante” nas ruas de Saigon, com seus sobrados, pontes e aquele ar de passado em suspenso. E o que permanece na memória é o navio cortando o rio, levando a garota para longe.






Pesquisa e redação: Daniel de Boni
Músico e criador do projeto Filmoscópio
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Irene Serra
Revista Rio Total