Daniel de BoniO que seria a maior obra-prima da Warner
Bros, em 1942 era, nas palavras de seu produtor, "apenas mais um dos
cinquenta filmes daquele ano". Ninguém no set de
Casablanca sonhava que
estava forjando uma lenda do cinema. O roteiro, baseado na peça
Everybody
comes to Rick's, era reescrito diariamente, e suas páginas datilografadas
chegavam úmidas às mãos dos atores. Nos bastidores, Humphrey Bogart e Ingrid
Bergman mantinham uma distância cortês, unindo-se pelo simples
profissionalismo, bem diferente da paixão intensa entre Rick e Ilsa que o
celuloide imprimiu.
O elenco constituía, ele próprio, um retrato do
conflito que assolava o mundo. Muitos coadjuvantes e figurantes eram, na
vida real, refugiados fugidos da perseguição nazista. Quando entoam
A
Marselhesa, as lágrimas que vertiam não eram apenas atuação, mas a dor
visceral do exílio. Essa convergência entre arte e existência transfigurou o
estúdio hollywoodiano em um palco de resistência humana.
No epicentro
dessa produção febril,
As time goes by quase foi suprimida pelo compositor
Max Steiner, que a julgava antiquada. Sua salvação foi um detalhe prosaico:
Ingrid Bergman já cortara o cabelo para seu próximo filme, "Por Quem os
Sinos Dobram", impossibilitando refilmagens. A música permaneceu,
tornando-se o nervo exposto da narrativa. Esse mesmo espírito definiu o
clímax, com as falas icônicas do capitão Renault gravadas em looping após as
filmagens principais.

A fotografia de Arthur Edeson emprestou à
produção sua textura onírica. Com filtros de seda sobre as lentes, ele
esculpiu a luz que acaricia o rosto de Bergman, criando closes que são
poemas visuais. Técnicas de iluminação, como as luzes
Klieg, garantiram
aquele brilho úmido e comovente em seus olhos, enquanto cenários,
construídos com miniaturas de papelão e anões para simular a escala do
aeroporto, testemunhavam a genialidade artesanal de uma era muito anterior a
do CGI.
Naquele aeroporto iluminado por névoa e uma convicção
cortante, o sacrifício de Rick, a partida de Ilsa e o início daquela “bela
amizade” com Renault transcenderam a tela para se tornar arquétipo da
despedida.
Casablanca nasceu como mais um filme de guerra, mas tornou-se um
ícone da dor elegante do adeus, em que o triunfo do amor não está na posse,
mas na renúncia. Resta se agarrar à melancolia das notas do piano tocado por
Sam: o tempo passou, mas “um beijo é sempre um beijo, um suspiro é
exatamente um suspiro”.
Pesquisa e redação: Daniel de
Boni
Músico e criador do projeto Filmoscópio
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