16/01/2026
Ano 29
Semana 1.491





ARQUIVO
FILMOSCÓPIO


 

















A dor elegante do adeus:
Como Casablanca se tornou um ícone

Daniel de Boni

O que seria a maior obra-prima da Warner Bros, em 1942 era, nas palavras de seu produtor, "apenas mais um dos cinquenta filmes daquele ano". Ninguém no set de Casablanca sonhava que estava forjando uma lenda do cinema. O roteiro, baseado na peça Everybody comes to Rick's, era reescrito diariamente, e suas páginas datilografadas chegavam úmidas às mãos dos atores. Nos bastidores, Humphrey Bogart e Ingrid Bergman mantinham uma distância cortês, unindo-se pelo simples profissionalismo, bem diferente da paixão intensa entre Rick e Ilsa que o celuloide imprimiu.

O elenco constituía, ele próprio, um retrato do conflito que assolava o mundo. Muitos coadjuvantes e figurantes eram, na vida real, refugiados fugidos da perseguição nazista. Quando entoam A Marselhesa, as lágrimas que vertiam não eram apenas atuação, mas a dor visceral do exílio. Essa convergência entre arte e existência transfigurou o estúdio hollywoodiano em um palco de resistência humana.

No epicentro dessa produção febril, As time goes by quase foi suprimida pelo compositor Max Steiner, que a julgava antiquada. Sua salvação foi um detalhe prosaico: Ingrid Bergman já cortara o cabelo para seu próximo filme, "Por Quem os Sinos Dobram", impossibilitando refilmagens. A música permaneceu, tornando-se o nervo exposto da narrativa. Esse mesmo espírito definiu o clímax, com as falas icônicas do capitão Renault gravadas em looping após as filmagens principais.

A fotografia de Arthur Edeson emprestou à produção sua textura onírica. Com filtros de seda sobre as lentes, ele esculpiu a luz que acaricia o rosto de Bergman, criando closes que são poemas visuais. Técnicas de iluminação, como as luzes Klieg, garantiram aquele brilho úmido e comovente em seus olhos, enquanto cenários, construídos com miniaturas de papelão e anões para simular a escala do aeroporto, testemunhavam a genialidade artesanal de uma era muito anterior a do CGI.

 
Naquele aeroporto iluminado por névoa e uma convicção cortante, o sacrifício de Rick, a partida de Ilsa e o início daquela “bela amizade” com Renault transcenderam a tela para se tornar arquétipo da despedida. Casablanca nasceu como mais um filme de guerra, mas tornou-se um ícone da dor elegante do adeus, em que o triunfo do amor não está na posse, mas na renúncia. Resta se agarrar à melancolia das notas do piano tocado por Sam: o tempo passou, mas “um beijo é sempre um beijo, um suspiro é exatamente um suspiro”.





Pesquisa e redação: Daniel de Boni
Músico e criador do projeto Filmoscópio
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Direção e Editoria
Irene Serra
Revista Rio Total