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"Na literatura religiosa da Babilônia, Tamuz surge como o jovem esposo ou
amante de Ishtar, a grande deusa-mãe, a personificação das energias
reprodutivas da natureza. [...] Tamuz morria anualmente [...] e todos os
anos sua amante divina viajava, em sua busca, para a terra de onde não
há retorno, para a mansão das trevas, onde o pó se acumula na porta e no
ferrolho. Durante sua ausência, a paixão do amor deixava de atuar: homens
e animais esqueciam de reproduzir-se, toda a vida ficava ameaçada de
extinção. Tão intimamente ligadas à deusa estavam as funções sexuais de
todo o reino animal que, sem a sua presença, elas não podiam ser
realizadas. [...] A inflexível rainha das regiões infernais, Alatu ou
Eresh-Kigal, permitia, não sem relutância, que Ihstar fosse aspergida com a
água da vida e partisse, provavelmente em companhia do amante Tamuz, para
o mundo superior e que, com esse retorno, toda a natureza revivesse."

"Refletida no espelho da mitologia grega a divindade oriental, Adônis
surge como um belo jovem, amado de Afrodite. Em sua infância, a deusa o
ocultou numa arca, que confiou a Perséfone, rainha dos infernos. Mas,
quando Perséfone abriu a arca e viu a beleza da criança, recusou-se a
devolvê-la a Afrodite [...]. A disputa entre as deusas do amor e da morte
foi resolvida por Zeus, que determinou que Adônis devia viver parte do ano
com Perséfone no mundo inferior, e com Afrodite, no mundo superior ou na
terra, durante a outra parte. [...] a luta entre Afrodite e Perséfone pela
posse de Adônis reflete claramente a luta entre Istar e Alatu na terra dos
mortos, ao passo
que a decisão de Zeus de que Adônis devia passar parte do
ano no mundo inferior e parte do ano no mundo superior é apenas uma versão
grega do desaparecimento e reaparecimento anual de Tamuz" (Frazer, 1978,
p. 123).
Com o tempo, os homens, além de desfrutarem o ciclo da natureza coletando
seus frutos, passaram a domesticar animais e a cultivar plantas para sua
alimentação. O cultivo de raízes e legumes, juntamente com a caça, a pesca
e a coleta, representa o conjunto das atividades produtivas que tornaram
possível a adaptação da espécie humana em todas as regiões do planeta, mas
foi a produção de grãos e a domesticação de animais que ampliaram essa
capacidade adaptativa.
Imitando o ciclo anual da natureza, o homem descobriu as sementes que
podia guardar a cada colheita e replantar no ano seguinte, quando seriam
fertilizadas pela incidência solar e irrigadas pelas chuvas. As sementes
dos grãos germinam e crescem. O homem colhe, debulha, seca e tritura os
grãos para que eles se tornem seu alimento.
Com o cultivo da terra pelo homem, surgiram os rituais de invocação de
fertilidade para ajudar o crescimento das plantas e proporcionar uma boa
colheita.
Na Grécia, por exemplo, Adônis era considerado o espírito dos cereais.
Entre os rituais mais expressivos que o homenageavam estão os jardins de
Adônis: na primavera, durante oito dias, as mulheres plantavam em vasos ou
cestos sementes de trigo, cevada, alface, funcho e vários tipos de flores.
Com o calor do sol, as plantas cresciam rapidamente e, como não tinham
raízes, murchavam ao final dos oito dias, quando então os pequenos jardins
eram levados, juntamente com as imagens de Adônis morto, para serem lançados
ao mar ou em outras águas.
Os rituais de fertilidade perduraram através dos tempos. Na era cristã,
mesmo que fossem considerados pagãos, não era mais possível acabar com
eles. Segundo Frazer, é por esse motivo que a Igreja Católica, em vez de
condená-los, os adapta às comemorações do dia de São João, que teria
nascido em 24 de junho, dia do solstício.

Fonte: "De Festas Juninas, Festas de São João - Origens,
Tradições e Histórias", da antropóloga Lúcia Helena Vitalli Rangel.
Cedido pela autora.
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