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Elas remontam a um tempo muito antigo, anterior ao surgimento da era
cristã. De acordo com o livro "O ramo de ouro", de sir James George Frazer,
o mês de junho, tempo do solstício de verão (no dia 21 ou 22 de junho, o
Sol, ao meio-dia, atinge seu ponto mais alto no céu; esse é o dia mais
longo e a noite mais curta do ano) no Hemisfério Norte. Era a época do ano
em que diversos povos - celtas, bretões, bascos, sardenhos, egípcios,
persas, sírios, sumérios - faziam rituais de invocação de fertilidade para
estimular o crescimento da vegetação, promover a fartura nas colheitas e
trazer chuvas.

Os rituais de fertilidade associados ao cultivo das plantas,
incluindo todo o ciclo agrícola - a preparação do terreno, o plantio e a
colheita -, sempre foram praticados pelas mais diversas sociedades e
culturas em todos os tempos. Das tradições estudadas por Frazer
destacam-se os ritos celebrados nas terras do Mediterrâneo oriental
(Egito, Síria, Grécia, Babilônia) com o objetivo de regular as estações do
ano, especialmente a passagem da primavera para o verão, que sela a
superação do inverno.
Os rituais de fertilidade perduraram através dos tempos. Na era cristã,
mesmo que fossem considerados pagãos, não era mais possível acabar com
eles. Segundo Frazer, é por esse motivo que a Igreja Católica, em vez de
condená-los, os adapta às comemorações do dia de São João, que teria
nascido em 24 de junho, dia do solstício.
Na Europa, os festejos do solstício de verão foram adaptados à cultura
local, de modo que em Portugal foi incluída a festa de Santo Antônio de
Lisboa ou de Pádua, em 13 de junho. A tradição cristã completou o ciclo
com os festejos de São Pedro e São Paulo, ambos apóstolos da maior
importância, homenageados em 29 de junho.
Quando os portugueses iniciaram o empreendimento colonial no Brasil, a
partir de 1500, as festas de São João eram ainda o centro das comemorações
de junho. Alguns cronistas contam que os jesuítas acendiam fogueiras e
tochas em junho, provocando grande atração sobre os indígenas. Um costume
que perdura desde os tempos antigos: o de acender fogueiras e tochas, que
devem livrar as plantas e colheitas dos espíritos maus que podem impedir a
fertilidade.

Mesmo que no Brasil essa época marcasse o início do inverno, ela coincidia
com a realização dos rituais mais importantes para os povos que aqui
viviam, referentes à preparação dos novos plantios e às colheitas. O
período que vai de junho a setembro é a época da seca em muitas regiões do
Brasil, quando os rios estão baixos e o solo pronto para enfrentar o
plantio. Derruba-se a mata, queimam-se as ramagens para limpar o terreno,
que é adubado com as cinzas, e a seguir começa o plantio. É a técnica da
oivara, tão difundida entre os povos do continente americano.
Nessa época os roçados velhos, do ano anterior, ainda estão em pleno
vigor, repletos de mandioca, cará, inhame, batata-doce, banana, abóbora,
abacaxi, e a colheita de milho, feijão e amendoim ainda se encontra em
período de consumo. Esse é um tempo bom para pescar e caçar. Uma série
de rituais, que dura todo o período, inclui um conjunto muito variado de
festas que congregam as comunidades indígenas em danças, cantos, rezas e
muita fartura de comida. Deve-se agradecer a abundância, reforçar os laços
de parentesco (as festas são uma ótima ocasião para alianças
matrimoniais), reverenciar as divindades aliadas e rezar forte para que os
espíritos malignos não impeçam a fertilidade. O ato de atear fogo para
limpar o mato, além de fertilizar o solo, serve principalmente para
afastar esses espíritos malignos.
Houve, portanto, certa coincidência entre o propósito católico de atrair
os índios ao convívio missionário catequético e as práticas rituais
indígenas, simbolizadas pelas fogueiras de São João. Talvez seja por causa
disso que os festejos juninos tenham tomado as proporções e a importância
que adquiriram no calendário das festas brasileiras.

Fonte: "De Festas Juninas, Festas de São João - Origens,
Tradições e Histórias", da antropóloga Lúcia Helena Vitalli Rangel.
Cedido pela autora.
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