16 de novembro, 2021
Ano 24
Semana 1.248

 

Biografia





 

Alberto Cohen

poemas



Obrigado!

Na luz que vem de Ti todos os dias,
na prece que recebes ternamente
com divinais perdões e alforrias,
nesta bela manhã estás presente.

Nas esperanças que me deixas ter,
nos meus achados do que foi perdido,
tantos caminhos que vou percorrer,
por Ti sou vencedor e não vencido.

Pela poesia com que abençoaste
passos errantes em que me encontraste,
pela paz que consigo do Teu lado,

Sou filho redivivo, pequenino,
a proclamar que és dono do destino.
Obrigado, Senhor, muito obrigado!




Clepsidra

Uma hora estou só, descalço e tonto,
apenas um bebê que não está pronto
e nasceu.

Outra mais, vou cerzindo, ponto-a-ponto,
a mortalha comprada, sem desconto,
de um judeu.

Pelas horas de fuga e de confronto,
se estou só e se ainda não estou pronto,
quem sou eu?




Imprescindível dor

A dor tão grande que me rói o peito
qual se no mundo fosse a maior dor,
não me provoca raiva ou dissabor,
pelo contrário, faz-me satisfeito.

É dor querida, vem de tua lembrança,
antiga e forte, não se parte ao meio,
é dor de quase perceber teu seio
em minhas mãos, deixado como herança.

E se me dói mais fundo, mais te quero,
e é tanto amor que nunca desespero,
tenho tua dor, parceira e companhia.

Que doa tanto que me faça vivo,
eternamente dor de ser cativo
do mais louco se dar que tive um dia.




Janela

Pássaro desajeitado
perdido num corredor,
pernas tortas e enrugadas,
assustado e com calor.
Ave trôpega e sem jeito
sentiu explodir o peito
ao chegar numa janela,
pois mergulhando por ela
deixou de ser esquisita
e tornou-se tão bonita
e voou para as estrelas.




Sutis como passarinhos



Vê que a vida é carcereira,
mas os versos são ariscos.
Esperam um descuido,
uma janela aberta,
uma porta encostada,
recolhem o não dito, o quase esquecido,
e vão à rua visitar conventos,
beber em tabernas, derramar-se em tinta
numa toalha de mesa,
num lenço de papel,
em paredes e muros,
no coração da mulher mais amada.
Vê que os dias são rotina,
mas os versos são mutantes.
Disfarçam-se de flores,
asas de borboletas,
promessas de amantes,
as mais absurdas promessas de amantes,
e aguardam a chegada do assobio,
do sorriso enorme,
da estrela cadente,
do pressentimento,
que saibam decifrá-los e encantar-se com eles.


Vê que os anos são da terra,
mas os versos são dos tempos
e voam como pássaros selvagens
que fazem seus ninhos,
com futuro e passado,
nas mais altas montanhas do momento de agora.
Mesmo sendo livres, eles têm que pousar,
um dia numa fonte,
um dia numa crença,
um dia num pecado,
um dia nas mãos solitárias de um poeta.




Rua dos passos inúteis

Por essa rua que se faz de minha,
tímidos passos de perdido andante
sonham chegar bem perto do adiante,
mas a alma retorna mais sozinha.

E na esperança de um feliz instante
deixado por alguém na ruazinha,
cabeça baixa, de novo caminha,
lentamente, o invisível mendicante.

Uma luz escurece em cada esquina,
mesmo assim a procura não termina
pelo sofisma de uma vida inteira.

Cada pedra encontrada é preciosa,
pode mudar-se numa bela rosa
ou definhar num monte de poeira.






Era um só.
Não mais um daquele sós
que perambulam entre a multidão.
Era um só sem multidão,
sem jornais velhos, marquises,
sem saber, sequer, nomes de ruas.
Era tão só que amava a solidão
que não lhe pedia nada,
mas se entregava toda
na imagem refletida em vidraças de vitrines.
Só, enfim, como um náufrago sem ilha,
e como Deus deve ser só no meio das estrelas.
Era o só dos sós,
inteiro, indivisível, sem paradigmas:
o cavaleiro andante da individualidade.
Aí viu a sombra...
E chorou por repartir a solidão com ela.




Tarde de chuva

Quando a chuva se for e nas calçadas
só restar a umidade dos sapatos,
estarei lá com minha roupa enxuta
e o perfume que me deste de presente.
Lá estarei, ainda que não estejas,
tentando ser o mesmo, na certeza
que chegarás vinda de antigamente,
passos pequenos e tua saia justa.
Quando a chuva se for e nas esquinas
só restar a pressa das pessoas,
estarei lá com enorme paciência
e os cabelos arrumados do teu jeito.
Lá estarei, não importa que nem saibas,
esperando e fazendo de conta
que chegarás vinda do desencontro,
de uma outra chuva e um outro tempo.




Uma vez apenas

A vida estende a mão e não percebes
que ela te levará pelos caminhos
em que os sonhos se vestem de verdades,
embora inalcançáveis muitas vezes.
Deixa o medo que te faz companhia
encolhido no canto mais escuro
e parte na aventura de viver
os pedaços de mundo destinados
a serem teus, a serem teus castelos.
A vida estende a mão e não percebes
a grandeza tão fácil da oferenda
de te tornares livre como ela.


   

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Direção e Editoria
Irene Serra