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Envelhecer com autonomia:
o olhar do médico
Ricardo Cipriano sobre saúde integral e qualidade de vida
Fui à Clinilar em busca de fisioterapia, e bem me surpreendi ao ver que a clínica se destaca por unir conhecimento técnico, cuidado humano e um olhar atento às necessidades de cada paciente, em suas diversas áreas de atuação. Enfim, encontrei um ambiente onde capacidade e sensibilidade caminham juntas.
À frente da proposta está o Dr. Ricardo Cipriano da Silva, que coordena uma equipe multidisciplinar -, confirmando que ali realmente existe algo maior: uma proposta de cuidado integral, voltada à promoção da autonomia e da qualidade de vida.
Nesta entrevista, o médico reflete sobre envelhecimento saudável, prevenção, o papel da independência funcional e, sobretudo, a importância de compreender o idoso em sua totalidade física, emocional e social.
1. Formação e trajetória
Irene Serra: Dr.
Ricardo, o que o levou a escolher a geriatria como área de atuação e a
trabalhar com foco na terceira idade?
Ricardo Cipriano: Após concluir minha
formação em Clínica Médica, tomei conhecimento, através de uma ex-preceptora
da residência médica, de uma especialização em Geriatria em Porto Alegre. Como
considerava áreas muito afins e, além disso, percebia no hospital e no
consultório o grande número de idosos atendidos, resolvi me aprofundar na
área.
2. O conceito da clínica
IS: A Clinilar reúne
diferentes especialidades com foco, principalmente no público idoso, ou não há
esta conotação? RC: O foco veio em função da prática
cotidiana em que observamos, nas redondezas do bairro em que estamos
localizados e consequentemente na procura por nosso atendimento, um número
grande de idosos. Mas na verdade atendemos, em algumas especialidades, desde
crianças a idosos. Acontece que estatisticamente são os idosos que têm mais
chance de necessitar e procurar um serviço de saúde como o nosso.
3.
Envelhecer não é adoecer
IS: Existe uma crença comum de que
envelhecer significa, inevitavelmente, adoecer. Como o senhor desconstrói essa
ideia no dia a dia da clínica?
RC: Quanto mais se vive, maior
a chance de adquirir doenças, inclusive as crônicas. Mas isso não significa
que se deva viver uma vida doente. Às vezes digo que a pessoa deve não brigar
com os medicamentos, deve tomá-los e viver uma vida normal em outros aspectos.
Tem também exemplos de pessoas muito longevas e com muita disposição que
frequentam a clínica, então as usamos como incentivo.
4. Impactos emocionais
IS: Do ponto de vista emocional,
quais são os impactos mais comuns do envelhecimento na vida de uma pessoa?
RC: Acredito que sejam as perdas: perda de independência, de vigor, de
entes queridos, do emprego (aposentadoria), da imagem corporal idealizada. Daí
a necessidade de resiliência, um conceito que remete à sobrevivência apesar
das perdas. E de amadurecer à medida que essas perdas vão ocorrendo, não se
deixando abater, e deslocando os focos de concentração de energia para outras
áreas da vida.
5.
Atendimento humanizado
IS: O atendimento humanizado é um dos
pontos mais comentados por quem passa pela clínica. O que, para o senhor,
significa cuidar de pessoas e não apenas de diagnósticos?
RC:
Entender que, na maioria das vezes, a pessoa que entra ali na clínica é
portadora não só de uma doença, mas também do sofrimento que a acompanha, que
pode se manifestar algumas vezes com impaciência e até mesmo certa
agressividade nas palavras. Temos que entender que o acolhimento dessa pessoa
começa no momento em que ela toca a campainha, pois uma simples demora para
abrir a porta pode significar para ela uma falha no cuidado, neste momento de
certa fragilidade da pessoa enquanto doente.
6. Trabalho
multidisciplinar
IS: Como a integração entre diferentes
especialidades contribui para um tratamento mais eficaz do idoso?
RC: Essa integração é fundamental! Percebemos a troca de experiências e
percepções no contato com os pacientes como enriquecedora para os próprios
profissionais e muito para os pacientes, notadamente nos atendimentos
domiciliares, que realizamos em grande número. Informações coletadas por um
profissional são repassadas para a equipe, às vezes discutidas em grupo, tudo
visando um melhor apoio para paciente e familiar ou cuidador.
7. A
importância da fisioterapia no envelhecimento
IS: Na prática,
qual é o papel da fisioterapia na manutenção da independência e da qualidade
de vida das pessoas idosas?
RC: É um papel fundamental! O
corpo foi feito para ser usado, “o que não usa perde¨. Usado sem excessos,
diga-se. Sabe-se hoje, através de muitos estudos, que atividade física
contribui muito para a saúde e manutenção da independência do paciente, ou
seja, a capacidade de realizar suas atividades rotineiras sem precisar da
ajuda de terceiros, o que é desejado pela grande maioria dos idosos. A
Fisioterapia entra geralmente nos momentos em que a pessoa teve uma perda no
nível de funcionamento (motor, cardíaco, pulmonar, etc), para trazê-la de
volta e mesmo acima dos níveis prévios de atividade.
8. Estado emocional e resultados físicos
IS: Existe
relação entre o estado emocional do paciente e os resultados da reabilitação
física?
RC: Acredito que em todo tratamento, inclusive
fisioterápico, o estado emocional da pessoa influi muito no resultado. Se ela
acredita no tratamento e está motivada a se submeter a ele, a chance de
melhora é maior. Não é garantia, mas a mobilização de intenções /energia
positivas tem efeito na regeneração do organismo.
9. Prevenção x tratamento
IS: Muitas pessoas ainda procuram
a fisioterapia apenas após uma queda ou dor intensa. O quanto a prevenção pode
mudar a vida do idoso?
RC: Detectando pequenas deficiências
na força, equilíbrio, capacidade respiratória ou cardíaca que, se não
corrigidas, podem progredir e levar à perda da independência referida
anteriormente. Por exemplo, uma perda de força e equilíbrio facilitando uma
queda que vai ocasionar fratura, cirurgia, imobilidade, e por aí vai. Temos
que agir antes disso acontecer.
10. Família e rede de apoio
IS: Qual é o papel da família no processo de reabilitação e
envelhecimento saudável?
RC: Fundamental. Há vários digamos
pilares do envelhecimento saudável, e um deles é composto pelas relações
familiares, assim como relações com outras pessoas, amizades. Compõem uma rede
que apoia, faz contato, cria eventos, torna o viver mais agradável. Na grande
maioria das vezes, quem cuida no momento de perda da independência, é um
familiar.
11.
Envelhecimento e perdas
IS: O envelhecimento também
envolve perdas simbólicas — de papéis sociais, de autonomia, de pessoas
queridas. Como o senhor percebe a elaboração dessas perdas na saúde global do
idoso?
RC: A elaboração dessas perdas de forma saudável faz com
que a pessoa consiga continuar a viver bem. A vida tem que continuar apesar
dessas perdas. Caso contrário, o idoso pode se tornar uma pessoa queixosa,
quando não consegue elaborar bem psicologicamente o luto e acaba transferindo
para o corpo todo aquele mal-estar emocional, ou então mesmo manifestando uma
depressão e desânimo com a vida.
12. Desafios do
envelhecimento hoje
IS: Quais são os principais desafios
enfrentados pela população idosa atualmente, tanto do ponto de vista físico
quanto emocional?
RC: São muitos os desafios, mas eu
destacaria a dificuldade de conviver ou viver numa família onde, hoje em dia,
filhos trabalham e netos têm ocupação o dia inteiro, com menos tempo para se
dedicar aos idosos, do que muitos se ressentem.
13. Qualidade de vida
IS: Na sua visão, o que realmente define qualidade de vida na
terceira idade?
RC: Ter autonomia (tomar decisões) e
independência (realizar atividades sem a ajuda de terceiros) pelo máximo de
tempo possível e, quando não for mais possível, saber aceitar ajuda para não
se tornar um fardo para quem cuida.
14. Uma dúvida comum
IS: Qual é a diferença entre geriatria e gerontologia?
RC: De uma maneira geral, Gerontologia é o estudo do envelhecimento de
maneira geral, englobando aspectos sociais, demográficos, psicológicos,
filosóficos; e a geriatria refere-se à parte médica deste estudo.
15.
Mensagem para quem está envelhecendo
IS: Que conselho o senhor
daria para quem está entrando na terceira idade e deseja envelhecer com saúde
e autonomia?
RC: Atividade! Física e mental, sempre.
Exercícios físicos, atividades com amigos e familiares, manter interesse em
aprender coisas novas, ter algo para se ocupar com alegria e utilidade.

Dr. Ricardo Cipriano, agradeço esta conversa tão podutiva, que nos leva a
refletir que devemos sempre lembrar que envelhecer bem é uma construção diária;
e que o apoio de familiares e amigos é imprescindível para a saúde física e
mental do idoso.
Contato:
Dr. Ricardo Cipriano: (31) 9942-4251

Revista Rio Total Direção e Editoria
Irene Serra
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