01/03/2026
Ano 29
Semana 1.497
 



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Envelhecer com autonomia:

o olhar do médico Ricardo Cipriano sobre saúde integral e qualidade de vida

Fui à Clinilar em busca de fisioterapia, e bem me surpreendi ao ver que a clínica se destaca por unir conhecimento técnico, cuidado humano e um olhar atento às necessidades de cada paciente, em suas diversas áreas de atuação. Enfim, encontrei um ambiente onde capacidade e sensibilidade caminham juntas.
À frente da proposta está o Dr. Ricardo Cipriano da Silva, que coordena uma equipe multidisciplinar -, confirmando que ali realmente existe algo maior: uma proposta de cuidado integral, voltada à promoção da autonomia e da qualidade de vida.
Nesta entrevista, o médico reflete sobre envelhecimento saudável, prevenção, o papel da independência funcional e, sobretudo, a importância de compreender o idoso em sua totalidade física, emocional e social.


        1. Formação e trajetória

Irene Serra: Dr. Ricardo, o que o levou a escolher a geriatria como área de atuação e a trabalhar com foco na terceira idade?

Ricardo Cipriano: Após concluir minha formação em Clínica Médica, tomei conhecimento, através de uma ex-preceptora da residência médica, de uma especialização em Geriatria em Porto Alegre. Como considerava áreas muito afins e, além disso, percebia no hospital e no consultório o grande número de idosos atendidos, resolvi me aprofundar na área.

        2. O conceito da clínica

IS: A Clinilar reúne diferentes especialidades com foco, principalmente no público idoso, ou não há esta conotação?

RC: O foco veio em função da prática cotidiana em que observamos, nas redondezas do bairro em que estamos localizados e consequentemente na procura por nosso atendimento, um número grande de idosos. Mas na verdade atendemos, em algumas especialidades, desde crianças a idosos. Acontece que estatisticamente são os idosos que têm mais chance de necessitar e procurar um serviço de saúde como o nosso.

        3. Envelhecer não é adoecer

IS: Existe uma crença comum de que envelhecer significa, inevitavelmente, adoecer. Como o senhor desconstrói essa ideia no dia a dia da clínica?

RC: Quanto mais se vive, maior a chance de adquirir doenças, inclusive as crônicas. Mas isso não significa que se deva viver uma vida doente. Às vezes digo que a pessoa deve não brigar com os medicamentos, deve tomá-los e viver uma vida normal em outros aspectos. Tem também exemplos de pessoas muito longevas e com muita disposição que frequentam a clínica, então as usamos como incentivo.

        4. Impactos emocionais

IS: Do ponto de vista emocional, quais são os impactos mais comuns do envelhecimento na vida de uma pessoa?
RC: Acredito que sejam as perdas: perda de independência, de vigor, de entes queridos, do emprego (aposentadoria), da imagem corporal idealizada. Daí a necessidade de resiliência, um conceito que remete à sobrevivência apesar das perdas. E de amadurecer à medida que essas perdas vão ocorrendo, não se deixando abater, e deslocando os focos de concentração de energia para outras áreas da vida.

        5.  Atendimento humanizado

IS: O atendimento humanizado é um dos pontos mais comentados por quem passa pela clínica. O que, para o senhor, significa cuidar de pessoas e não apenas de diagnósticos?

RC: Entender que, na maioria das vezes, a pessoa que entra ali na clínica é portadora não só de uma doença, mas também do sofrimento que a acompanha, que pode se manifestar algumas vezes com impaciência e até mesmo certa agressividade nas palavras. Temos que entender que o acolhimento dessa pessoa começa no momento em que ela toca a campainha, pois uma simples demora para abrir a porta pode significar para ela uma falha no cuidado, neste momento de certa fragilidade da pessoa enquanto doente.

        6. Trabalho multidisciplinar

IS: Como a integração entre diferentes especialidades contribui para um tratamento mais eficaz do idoso?

RC: Essa integração é fundamental! Percebemos a troca de experiências e percepções no contato com os pacientes como enriquecedora para os próprios profissionais e muito para os pacientes, notadamente nos atendimentos domiciliares, que realizamos em grande número. Informações coletadas por um profissional são repassadas para a equipe, às vezes discutidas em grupo, tudo visando um melhor apoio para paciente e familiar ou cuidador.

        7. A importância da fisioterapia no envelhecimento

IS: Na prática, qual é o papel da fisioterapia na manutenção da independência e da qualidade de vida das pessoas idosas?

RC: É um papel fundamental! O corpo foi feito para ser usado, “o que não usa perde¨. Usado sem excessos, diga-se. Sabe-se hoje, através de muitos estudos, que atividade física contribui muito para a saúde e manutenção da independência do paciente, ou seja, a capacidade de realizar suas atividades rotineiras sem precisar da ajuda de terceiros, o que é desejado pela grande maioria dos idosos. A Fisioterapia entra geralmente nos momentos em que a pessoa teve uma perda no nível de funcionamento (motor, cardíaco, pulmonar, etc), para trazê-la de volta e mesmo acima dos níveis prévios de atividade.

        8. Estado emocional e resultados físicos

IS: Existe relação entre o estado emocional do paciente e os resultados da reabilitação física?

RC: Acredito que em todo tratamento, inclusive fisioterápico, o estado emocional da pessoa influi muito no resultado. Se ela acredita no tratamento e está motivada a se submeter a ele, a chance de melhora é maior. Não é garantia, mas a mobilização de intenções /energia positivas tem efeito na regeneração do organismo.

        9. Prevenção x tratamento

IS: Muitas pessoas ainda procuram a fisioterapia apenas após uma queda ou dor intensa. O quanto a prevenção pode mudar a vida do idoso?

RC: Detectando pequenas deficiências na força, equilíbrio, capacidade respiratória ou cardíaca que, se não corrigidas, podem progredir e levar à perda da independência referida anteriormente. Por exemplo, uma perda de força e equilíbrio facilitando uma queda que vai ocasionar fratura, cirurgia, imobilidade, e por aí vai. Temos que agir antes disso acontecer.

        10. Família e rede de apoio

IS: Qual é o papel da família no processo de reabilitação e envelhecimento saudável?

RC: Fundamental. Há vários digamos pilares do envelhecimento saudável, e um deles é composto pelas relações familiares, assim como relações com outras pessoas, amizades. Compõem uma rede que apoia, faz contato, cria eventos, torna o viver mais agradável. Na grande maioria das vezes, quem cuida no momento de perda da independência, é um familiar.

        11. Envelhecimento e perdas

IS: O envelhecimento também envolve perdas simbólicas — de papéis sociais, de autonomia, de pessoas queridas. Como o senhor percebe a elaboração dessas perdas na saúde global do idoso?

RC: A elaboração dessas perdas de forma saudável faz com que a pessoa consiga continuar a viver bem. A vida tem que continuar apesar dessas perdas. Caso contrário, o idoso pode se tornar uma pessoa queixosa, quando não consegue elaborar bem psicologicamente o luto e acaba transferindo para o corpo todo aquele mal-estar emocional, ou então mesmo manifestando uma depressão e desânimo com a vida.

        12. Desafios do envelhecimento hoje

IS:
Quais são os principais desafios enfrentados pela população idosa atualmente, tanto do ponto de vista físico quanto emocional?

RC: São muitos os desafios, mas eu destacaria a dificuldade de conviver ou viver numa família onde, hoje em dia, filhos trabalham e netos têm ocupação o dia inteiro, com menos tempo para se dedicar aos idosos, do que muitos se ressentem.

        13. Qualidade de vida

IS: Na sua visão, o que realmente define qualidade de vida na terceira idade?

RC: Ter autonomia (tomar decisões) e independência (realizar atividades sem a ajuda de terceiros) pelo máximo de tempo possível e, quando não for mais possível, saber aceitar ajuda para não se tornar um fardo para quem cuida.

        14. Uma dúvida comum

IS: Qual é a diferença entre geriatria e gerontologia?

RC: De uma maneira geral, Gerontologia é o estudo do envelhecimento de maneira geral, englobando aspectos sociais, demográficos, psicológicos, filosóficos; e a geriatria refere-se à parte médica deste estudo.

        15. Mensagem para quem está envelhecendo

IS:
Que conselho o senhor daria para quem está entrando na terceira idade e deseja envelhecer com saúde e autonomia?

RC: Atividade! Física e mental, sempre. Exercícios físicos, atividades com amigos e familiares, manter interesse em aprender coisas novas, ter algo para se ocupar com alegria e utilidade.



Dr. Ricardo Cipriano, agradeço esta conversa tão podutiva, que nos leva a refletir que devemos sempre lembrar que envelhecer bem é uma construção diária; e que o apoio de familiares e amigos é imprescindível para a saúde física e mental do idoso.

Contato:
   Dr. Ricardo Cipriano:  (31) 9942-4251





Revista Rio Total
Direção e Editoria
Irene Serra