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O “quase” que vira poesia – uma conversa com Carlos Trigueiro –
Carlos Trigueiro chega ao universo da poesia (me parece) com a
mesma inquietude que sempre moveu sua prosa: a vontade de compreender o
cotidiano por dentro. Em A vida em quase poesia, ele revela um autor que
continua buscando novas formas de olhar o mundo – agora com a concisão, a
delicadeza e o risco que o poema exige. Nesta conversa, ele fala sobre essa
travessia, sobre a escrita como descoberta e sobre o “quase” que habita cada
gesto poético.
Irene Serra: Carlos, é uma alegria conversar com
você, que tem uma trajetória sólida no jornalismo literário, com romances,
contos, crônicas, ensaios... Enfim, você é um time inteiro, um "joga nas 11".
O que mudou em você – no olhar ou na sensibilidade – para que surgisse a
vontade de escrever poesia?
Carlos Trigueiro: Acho que nada mudou. Tal
como prefaciei no livro, pensei encerrar minha exposição literária conforme
afirmou há mais de 20 anos o notável e recém desaparecido Affonso Romano de
Sant’anna (1937/+2025) ao notar cadência, rima e arremates nos meus textos em
prosa: “Você deve ter poemas escondidos...”.
IS: Seu novo livro,
A
vida em quase poesia, sugere no título uma caminhada, um percurso, quase uma
descoberta. O que você estava procurando quando começou a escrever esses
poemas?
CT: Sem presunção, acho que a resposta também está no prefácio
do livro: “Com ou sem Inteligência Artificial, a vida é busca!”.
IS:
Seus leitores conhecem bem sua escrita marcada pela enumeração, pela
observação em série, quase um inventário do cotidiano. Como esse estilo
encontrou espaço dentro da poesia? Foi natural ou você precisou domá-lo?
CT: Tentarei responder com os versos do fantástico Castro Alves:
“Oh! Bendito o que semeia Livros à mão cheia E manda o povo pensar! O
livro, caindo n’alma É germe – que faz a palma, É chuva – que faz o
mar!”
IS: A prosa permite explicar, contextualizar, contar.
A poesia exige condensar, cortar, sugerir. Qual foi o maior desafio para você
nessa passagem da prosa para o verso?
CT: O maior desafio foi condensar
as inspirações que o Tempo leva e trás ou trás e leva.
IS: No livro
há momentos que parecem nascidos de lembranças muito pessoais, e outros que
vêm do seu olhar atento para a vida comum. De onde surge o seu impulso poético:
da memória ou da observação do dia a dia?
CT: Acho que tanto memória
quanto observação impulsionam a criatividade artística e, claro, poética.
IS: Há poemas no livro em que a emoção aparece mais direta, quase sem
filtro. Foi difícil lidar com essa exposição? Ou a poesia trouxe uma liberdade
nova?
CT: Acho que a poesia liberta emoções de todo tipo porque é
uma espécie de passaporte para muitas vidas além do espaço e do tempo.
IS: Você dialoga com a literatura brasileira de várias épocas. Quem foram seus
“sussurradores” enquanto você escrevia A vida quase em poesia? Autores que te
acompanharam de perto, mesmo que em silêncio?
CT: Todos os que li,
principalmente os clássicos.
IS: Esse livro é uma novidade na sua
trajetória. O que você espera do leitor? Que tipo de encontro deseja provocar?
CT: Respondo com o poeminha da página 21 do livro:
Dia do poeta
Dia Sim Rodeado de caminhos Sem nenhum destino. Dia Não Sem
caminho algum Para toda parte.
IS: O título é
delicado e diz muito: A vida em quase poesia. O que é esse “quase” para você?
E o que ainda falta para que a vida vire poesia inteira?
CT: Respondo
com o poeminha da página 44 do livro:
Matemática da existência
Dez anos cabem nos dedos. Cem anos só cabem Numa vida sem medos.
IS: Se tivesse de escolher uma imagem, uma frase ou uma
sensação que resuma o espírito do livro, qual seria?
CT: Novamente
repito a frase do Prefácio:
“Enfim, com ou sem Inteligência Artificial,
a vida é busca!”

Alguns poemas me tocaram de modo especial – como os de números 12, 16, 20 e 27
– pela delicadeza e sinceridade. É um livro que mostra o gesto de quem
continua buscando novas formas de dizer o mundo. Vale a leitura.
Contato:
Carlos Trigueiro
carlostrigueiro28@gmail.com

Revista Rio Total Direção e Editoria
Irene Serra
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