A sombra da múmia

O cartaz na parede não deixava dúvidas. Mesmo assim, cautelosa, hesitei. Porém, o porteiro do clube, sentado ao lado da roleta, deu um sorriso afirmativo. Eufórica, tive a certeza que a sessão de cinema estava confirmada. Com o coração aos pulos atravessei a rua correndo e entrei em casa.

− Mamãe ! – gritei esbaforida. – Tem cineminha hoje à noite no clube. Posso ir?

Sentada em frente à máquina Singer, mamãe balançou a cabeça sem interromper a costura. O feriado de Carnaval se aproximava e a minha fantasia de cigana estava quase pronta.

− Você precisa provar a saia antes que eu termine a bainha – disse sem tirar os olhos da agulha que pontilhava mecanicamente o tecido com a linha branca do carretel.

Todos os anos, no período do Carnaval, papai fechava a loja e levava a família para a fazenda de Ipiabas, no interior do Rio. Os donos, um casal de húngaros, nos recebiam como parentes queridos. Eles conheceram papai no navio que os trouxe ao Brasil, nos idos de 1930. Já de manhã eu vestia a fantasia e junto com as crianças da fazenda passava o dia com a indumentária.

Também nesse período o clube dava uma pausa em suas sessões de cinema e se organizava para os bailes de Carnaval. Aquela sessão de quarta-feira seria a última antes da semana de Carnaval. Depois, o recesso se estenderia até meados de março.

Às sete da noite, a primeira sessão atraía menos espectadores por causa do horário do jantar. Mas, era a sessão permitida para as crianças até doze anos. Mamãe sempre aguardava a chegada de papai para sacramentar a decisão. Eu e meu irmão esperávamos inquietos a concordância de papai. Se estivesse chovendo, podíamos perder a esperança. Apesar de nossa casa estar localizada quase em frente ao clube, papai relutava e muitas vezes negava.

− Faz frio, tem vento, chove, não vale a pena – avaliava. − Podem ler um pouco na cama e depois dormir. E diante de nossos semblantes decepcionados, ele prometia. − Na outra semana, o tempo melhorando, vocês vão. Combinado?

***

Sentada em uma das cadeiras na primeira fila do salão, a poucos metros da tela, eu aguardava ansiosa as luzes serem apagadas. A criançada do bairro arrastava as cadeiras procurando um melhor lugar de visão, mas o encarregado não cedia e as cadeiras voltavam aos seus lugares de origem.

− Quer pipoca? perguntou a menina ao meu lado de cabelos cacheados. Minutos antes, a garotinha na segunda fileira me chamou e mostrou a pequena caixa rosa de chicletes Adams. – Pega uma pastilha – ofereceu. Ela mastigava a goma e seu hálito doce era uma tentação. Mas a voz de papai falava mais alto. – Nada de comer na rua – recomendava. No portão do clube, a algazarra das crianças em torno dos carrinhos de pipoca, algodão doce e guloseimas, ainda que proibitivos, me encantava.

Naquela noite o filme anunciado era “A Sombra da Múmia” e pelos desenhos do cartaz prometia muitos sustos. Assovios e gritos de ”tá na hora” apressavam o apagar das luzes em um ritual que se repetia a cada sessão. Na tela, enfim, em um cenário preto e branco, uma horrenda criatura surgia enrolada em bandagens, locomovendo-se vingativa em seu afã de eliminar aqueles que profanaram a tumba de uma antiga princesa egípcia, agora reencarnada na namorada de um dos alunos do arqueólogo. Cenas de terror se sucediam: a múmia estrangulava o arqueólogo, invadia o museu, assassinava o segurança e é perseguida por policiais. Em fuga, a múmia e a jovem hipnotizada acabam afundando em um pântano. Antes de morrer, para espanto geral, a jovem envelhecia em segundos.

Terminada a sessão, novos assovios, palmas e o arrastar das cadeiras. O encarregado, com ares de monitor, observava a saída que se exigia ordenada e sem confusão. O pipoqueiro ainda permanecia em frente ao clube aguardando a sessão seguinte. Do outro lado da rua, papai e mamãe nos esperavam em frente à casa.

− Foi muito bom ! – exclamei empolgada, mas ainda assustada pelas cenas de horror.

Naquela noite vesti apressada o pijama, abracei meus pais que liam na saleta, e me escondi embaixo do lençol. Custei a adormecer e depois de algumas horas de um sono agitado, acordei sobressaltada. Rememorava o filme que parecia ainda mais terrível na escuridão do quarto. As cenas se repetiam diante de meus olhos e o medo me impedia de dormir. Na cama ao lado, meu irmão ressonava de barriga para cima.

De manhã, depois de uma noite insone, o céu azul me acalmou. “O pesadelo passou”, pensei aliviada.

− Dormiu bem?− mamãe perguntou enquanto colocava o leite morno no copo.

− Muito bem! – respondi, dando uma mordida na fatia de pão.

No correr daquele ano assisti o filme três vezes. Na terceira apresentação, meu irmão se recusou a me acompanhar.

− Pode ir à sessão comigo? − apelei para a mamãe.

Na entrada do clube apresentei contente a carteirinha de sócia, responsabilidade delegada ao meu irmão ausente. As vizinhas conversavam na calçada e mamãe aderiu ao grupo. Sozinha e com o salão quase vazio assisti pela última vez “A Sombra da Múmia”. Na manhã seguinte, já arrumada para a escola, me dei conta de que dormi toda a noite em um sono tranquilo. – Como um anjinho – diria mamãe sorrindo. Confiante, provoquei meu irmão. – Dessa vez vi o filme inteirinho. Não fechei os olhos uma única vez. E nem gritei de medo. Afinal, é tudo fantasia! .




Sheila Sacks
blog "Viajantes do Tempo": https://sheilasacks.blogspot.com/






Revista Rio Total